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| por Moacir Japiassu |
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26/01/2012 09:32 NEI DUCLÓS
ROÇA
Dançar é o segredo da cintura
andar, o mistério do recato
no baile, o meu olhar é puro
na memória, piso teu sapato
Deixei passar o tempo do barato
quando podia te levar de arrasto
com meu jeito travesso de matuto
calça escassa e péssimo penteado
Foste embora e eu fiquei no gado
e plantei sementes de discórdia
colhi o amargo, acompanhei a surra
que deste no teu noivo tão cordato
Eu sabia que eras xucra como a fera
que habita nossos corações grudados Moacir Japiassu | comentários(0)
26/01/2012 09:30 NEI DUCLÓS
ROÇA
Dançar é o segredo da cintura
andar, o mistério do recato
no baile, o meu olhar é puro
na memória, piso teu sapato
Deixei passar o tempo do barato
quando podia te levar de arrasto
com meu jeito travesso de matuto
calça escassa e péssimo penteado
Foste embora e eu fiquei no gado
e plantei sementes de discórdia
colhi o amargo, acompanhei a surra
que deste no teu noivo tão cordato
Eu sabia que eras xucra como a fera
que habita nossos corações grudados Moacir Japiassu | comentários(0)
19/01/2012 09:11 NOTA DEZ
NAUFRAGAR É PRECISO?
(João Pereira Coutinho na Folha)
Acontece que a língua não se muda por decreto; ela é a decorrência de uma evolução cultural!
Começa a ser penoso para mim ler a imprensa portuguesa. Não falo da qualidade dos textos. Falo da ortografia deles. Que português é esse?
Quem tomou de assalto a língua portuguesa (de Portugal) e a transformou numa versão abastardada da língua portuguesa (do Brasil)?
A sensação que tenho é que estive em coma profundo durante meses, ou anos. E, quando acordei, habitava já um planeta novo, onde as regras ortográficas que aprendi na escola foram destroçadas por vândalos extraterrestres que decidiram unilateralmente como devem escrever os portugueses.
Eis o Acordo Ortográfico, plenamente em vigor. Não aderi a ele: nesta Folha, entendo que a ortografia deve obedecer aos critérios do Brasil.
Sou um convidado da casa e nenhum convidado começa a dar ordens aos seus anfitriões sobre o lugar das pratas e a moldura dos quadros. Questão de educação.
Em Portugal é outra história. E não deixa de ser hilariante a quantidade de articulistas que, no final dos seus textos, fazem uma declaração de
princípios: "Por decisão do autor, o texto está escrito de acordo com a antiga ortografia".
A esquizofrenia é total, e os jornais são hoje mantas de retalhos. Há notícias, entrevistas ou reportagens escritas de acordo com as novas regras. As crônicas e os textos de opinião, na sua maioria, seguem as regras antigas. E depois existem zonas cinzentas, onde já ninguém sabe como escrever e mistura tudo: a nova ortografia com a velha e até, em certos casos, uma ortografia imaginária.
A intenção dos pais do Acordo Ortográfico era unificar a língua.
Resultado: é o desacordo total com todo mundo a disparar para todos os lados. Como foi isso possível?
Foi possível por uma mistura de arrogância e analfabetismo. O Acordo Ortográfico começa como um típico produto da mentalidade racionalista, que sempre acreditou no poder de um decreto para alterar uma experiência histórica particular.
Acontece que a língua não se muda por decreto; ela é a decorrência de uma evolução cultural que confere aos seus falantes uma identidade própria e, mais importante, reconhecível para terceiros.
Respeito a grafia brasileira e a forma como o Brasil apagou as consoantes mudas de certas palavras ("ação", "ótimo" etc.). E respeito porque gosto de as ler assim: quando encontro essas palavras, sinto o prazer cosmopolita de saber que a língua portuguesa navegou pelo Atlântico até chegar ao outro lado do mundo, onde vestiu bermuda e se apaixonou pela garota de Ipanema.
Não respeito quem me obriga a apagar essas consoantes porque acredita que a ortografia deve ser uma mera transcrição fonética. Isso não é apenas teoricamente discu tível; é, sobretudo, uma aberração prática.
Tal como escrevi várias vezes, citando o poeta português Vasco Graça Moura, que tem estudado atentamente o problema, as consoantes mudas, para os portugueses, são uma pegada etimológica importante. Mas elas transportam também informação fonética, abrindo as vogais que as antecedem. O "c" de "acção" e o "p" de "óptimo" sinalizam uma correta pronúncia.
A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos; faz-se, como muito bem perceberam os hispânicos e os anglo-saxônicos, pela partilha da sua diversidade. E a melhor forma de partilhar uma língua passa pela sua literatura.
Não conheço nenhum brasileiro alfabetizado que sinta "desconforto" ao ler Fernando Pessoa na ortografia portuguesa. E também não conheço nenhum português alfabetizado que sinta "desconforto" ao ler Nelson Rodrigues na ortografia brasileira.
Infelizmente, conheço vário s brasileiros e vários portugueses alfabetizados que sentem "desconforto" por não poderem comprar, em São Paulo ou em Lisboa, as edições correntes da literatura dos dois países a preços civilizados.
Aliás, se dúvidas houvesse sobre a falta de inteligência estratégica que persiste dos dois lados do Atlântico, onde não existe um mercado livreiro comum, bastaria citar o encerramento anunciado da livraria Camões, no Rio, que durante anos vendeu livros portugueses a leitores brasileiros.
De que servem acordos ortográficos delirantes e autoritários quando a língua naufraga sempre no meio do oceano?
jpcoutinho@folha.com.br Moacir Japiassu | comentários(0)
19/01/2012 09:09 TOTALITARISMO, HITLER E STÁLIN
Bolívar Lamounier
(a alguns de meus antigos alunos, com carinho.)
Hoje, ao reler velhas anotações dos meus tempos de professor, lembrei-me com muito carinho de alguns estudantes de esquerda que torciam o nariz quando eu começava a explicar o conceito de “totalitarismo”, e bufavam de ódio quando eu incluía Stálin e outros menos votados entre os governantes mais notoriamente totalitários do século 20.
Foi recordando aquela época que tive a idéia de postar aqui os apontamentos abaixo.
——xxx—–
No pólo oposto ao das democracias liberais avançadas encontramos regimes totalitários como o da URSS e o nazi-fascismo. Ambos mantiveram uma aparência de legalidade – a Constituição alemã de 1919 aliás nunca foi abrogada – mas eram claramente incompatíveis com a idéia de uma ordem constitucional digna do nome.
Sendo o terror uma peça-chave em seu funcionamento, os regimes totalitários a rigor nem deveriam ser designados como tal, pois neles a questão não é a simples carência de um padrão previsível, é o zelo com que os aparatos de poder impedem a estabilização de uma ordem até por obra da “tradicionalização” ou da inércia social .
Em seu livro “Hitler – a Study in Tiranny”, pág. 403, Alan Bulock cita um texto publicado em 1936 pelo Dr. Hans Frank, um dos mais destacados juristas da Alemanha nazista: “Our Constitution – escreveu esse Frank – “is the will of the Führer”.
Ou seja, não havia Constituição alguma. Frank estava certíssimo. Não creio que alguém tenha dúvidas a esse respeito, mas vou rememorar alguns fatos, just in case.
No fim de março de 1933, um parlamento intimidado pela violência nazista passou a Enabling Law, que na prática suspendia a Constituição.
A 29-30 de junho de 1934, Hitler ordena a execução de Röhm e de todos os demais dirigentes da S.A, afastando dessa forma o único grupo capaz de desafiá-lo dentro do partido [págs. 302-6]; no dia 13 de julho, ele “explica” ao Reichstag por que ordenou o extermínio em vez de levar o grupo aos tribunais, e ameaça de forma não tão velada com a mesma sorte todo aquele que se antepusesse aos objetivos do novo Estado alemão (306-309].
No dia 02 de agosto, uma hora após a confirmação da morte do presidente von Hindenburg, é anunciada a fusão dos cargos de presidente da República e primeiro-ministro, doravante concentrados nas mãos do Führer – ou seja, dele, Hitler.
Agora vem a melhor parte. Prestem atenção.
No mesmo dia do mencionado anúncio, a oficialidade do Exército é convocada a jurar lealdade ao novo Comandante-em-Chefe.
The form of the oath was significant – escreve Bulock, p. 309; the Army was called on to swear allegiance not to the Constitution, or to the Fatherland, but to Hitler personally:
“I swear by God this holy oath : I will render unconditional obedience to the Führer of the German Reich and People, Adolp Hitler, the Supreme Commander of the Armed Forces, and will be ready, as a brave soldier, to stake my life at any time for this oath”.
Dezenas de medidas poderiam ser lembradas, mas a listinha acima deve ser suficiente para ilustrar meu argumento.
Àquela altura, na URSS, o regime stalinista já estava montado, mas Stalin, num surto de humor negro, mandou inserir o habeas corpus na Constituição soviética de 1936. E vejam só que coincidência mais macabra: foi a primeira vez na história que o habeas corpus apareceu na legislação russa: apareceu justo na ante-véspera dos famosos “julgamentos de Moscou”. Moacir Japiassu | comentários(0)
12/01/2012 10:25 MINISTÉRIO DA VERDADE
Marco Antonio Villa(*) na Folha
O governo federal organizou um bloco que vai da direita conservadora aos sindicatos, mas a oposição, por temer o enfrentamento, fica reduzida
Estamos vivendo um tempo no qual os donos do poder exigem obediência absoluta.
No Congresso, a oposição representa apenas 17,5% das cadeiras. O governo tem uma maioria digna da Arena. Em 1970, no auge do regime militar, o MDB, partido de oposição, chegou a examinar a proposta de autoextinção. Quatro anos depois, o mesmo MDB venceu a eleição para o Senado em 16 dos 22 Estados existentes (no Maranhão, o MDB nem lançou candidato).
Ou seja, a esmagadora maioria de hoje pode não ser a de amanhã. Mas, para que isso aconteça, é necessário fazer algo básico, conhecido desde a antiga Grécia: política.
É nesse terreno que travo o meu combate. Sei que as condições são adversas, mas isso não significa que eu tenha de aceitar o rolo compressor do poder. Não significa também que eu vá, pior ainda, ficar emparedado pelos adversários que agem como verdadeiros policiais do Ministério da Verdade.
Faço essas ressalvas não para responder aos dois comentários agressivos, gratuitos e sem sentido do jornalista Janio de Freitas, publicados nesta Folha nos textos "Nada mais que o Impossível" (1º de janeiro) e "Meia Novidade" (3 de janeiro). Não tenho qualquer divergência ou convergência com o jornalista. Daí a minha estranheza pelos ataques perpetrados sem nenhuma razão (aparente, ao menos).
A minha questão é com a forma como o governo federal montou uma política de poder para asfixiar os opositores. Ela é muito mais eficiente que as suas homólogas na Venezuela, no Equador ou, agora, na Argentina.
Primeiro, o governo organizou um bloco que vai da direita mais conservadora aos apoiadores do MST. Dessa forma, aprova tudo o que quiser, com um custo político baixo. Garantindo uma maioria avassaladora no Congresso, teve as mãos livres para, no campo da economia, distribuir benesses ao grande capital e concessões aos setores corporativos. Calou também os movimentos sociais e sindicatos com generosas dotações orçamentárias, sem qualquer controle público.
Mas tudo isso não basta. É necessário controlar a imprensa, único espaço onde o governo ainda encontra alguma forma de discordância. No primeiro governo Lula, especialmente em 2005, com a crise do mensalão, a imprensa teve um importante papel ao revelar as falcatruas -e foram muitas.
No Brasil, os meios de comunicação têm uma importância muito maior do que em outras democracias ocidentais. Isso porque a nossa sociedade civil é extremamente frágil. A imprensa acaba assumindo um papel de enorme relevância.
Calar essa voz é fechar o único meio que a sociedade encontra para manifestar a sua insatisfação, mesmo que ela seja inorgânica, com os poderosos.
Já em 2006, quando constatou que poderia vencer a eleição, Lula passou a atacar a imprensa. E ganhou aliados rapidamente. Eram desde os jornalistas fracassados até os políticos corruptos -que apoiavam o governo e odiavam a imprensa, que tinha denunciado suas ações "pouco republicanas".
Esse bloco deseja o poder absoluto. Daí a tentativa de eliminar os adversários, de triturar reputações, de ameaçar os opositores com a máquina estatal.
É um processo com tinturas fascistas, que deixaria ruborizado Benito Mussolini, graças à eficiência repressiva, sem que se necessite de esquadrões para atacar sedes de partidos ou sindicatos. Nem é preciso impor uma ditadura: o sufrágio universal (sem política) deverá permitir a reprodução, por muitos anos, dessa forma de domínio.
Os eventuais conflitos políticos são banais. Por temer o enfrentamento, a oposição no Brasil tenderá a ficar ainda mais reduzida e restrita às questões municipais e, no máximo, estaduais.
MARCO ANTONIO VILLA, 55, é historiador e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Moacir Japiassu | comentários(0)
12/01/2012 10:23 O "CÂNCER" DE CRISTINA
REALISMO FANTÁSTICO LATINO-AMERICANO OU SÍNDROME DE EVITA?
(Clarín, 09) 1. Alguém pode pensar que tem sorte uma pessoa que passou 20 dias pensando que tinha um câncer e não tinha? E que ainda por cima foi operada sem necessidade e removeram inutilmente a tireoide? Não tinha câncer, mas o erro deverá ser compensado por toda vida com pílulas hormonais que seu corpo não mais produzirá. Nada mais, nada menos do sofreu a Presidente da República, Cristina Kirchner. A Unidade Médica Presidencial atribuiu a culpa ao Centro de Diagnóstico Maipú. Ali estão dizendo basicamente duas coisas. Uma, que a punção encontrou "citologia compatível com carcinoma papilar de células foliculares". E a outra é que ouvia "citologia compatível com bócio coloide nodular". Especialistas consultados pelo jornal Clarín, explicaram que o estudo indica a possibilidade de um carcinoma, mas não dá certeza disso.
2. No entanto, o primeiro informe da Unidade Médica Presidencial Medical, de 27 de dezembro, sustentava outra coisa: que em Cristina Kirchner “havia sido detectado um carcinoma papilar". Em outras palavras, um câncer. Foi dado como fato algo que até aquele momento era só uma eventualidade. Estes mesmos especialistas disseram que a presença do bócio nodular implicava "baixas chances de malignidade". Em outras palavras, o estudo advertia sobre a possibilidade de um câncer e ao mesmo tempo em que o contexto em que se encontrava não era o mais propício para essa doença. A presidente teria de fato adenomas e não carcinomas. E se isso não tivesse sido confundido no exame inicial, não teria sofrido uma angústia de 20 dias ou ser submetida à agressão e aos riscos de passar pela faca.
(Transcrito no Ex-Bog do César Maia) Moacir Japiassu | comentários(0)
05/01/2012 09:11 NOTA DEZ PARA NELSON MOTTA
QUEM PODE JULGAR O JUIZ?
(In O Globo)
Quando se fala desse assunto deve-se pesar muito bem cada palavra. Basta algum juiz de qualquer lugar achar que há algo de errado, ofensivo ou calunioso nelas, e você pode ser processado. E pior, o processo vai ser julgado por um colega do ofendido. Com raras exceções, jornalistas processados por supostas ofensas a juízes são sempre condenados por seus pares.
Sim, a maioria absoluta dos juízes é de homens e mulheres de bem, mas eu deveria consultar meu advogado antes de dizer isto: o corporativismo do Judiciário no Brasil desequilibra um dos pilares que sustentam o Estado democrático de direito. Basta ver os salários, privilégios e imunidades.
A brava ministra faxineira-chefe Eliana Calmon está sob fogo cerrado da corporação por defender os poderes constitucionais do Conselho Nacional de Justiça e chamar alguns juízes de “bandidos de toga”. Embora não exista melhor definição para Lalau e outros togados que aviltam a classe.
Como um sindicato de juízes, a Ajufe está indignada porque a ministra Eliana é contra os dois meses de férias que a categoria tem por ano, quando o resto dos brasileiros tem só um (menos os parlamentares, que têm quatro). Se os juízes ficam muito estressados e precisam de dois meses “para descansar a mente, ler e estudar”, de quantos meses deveriam ser as férias dos médicos? E das enfermeiras? E aí quem cuidaria das doenças dos juízes?
“Será que a ministra diz isso para agradar a imprensa, falada e escrita? Para agradar o povão?”, questiona a Ajufe. Como não é candidata a nada, as posições da ministra têm o apoio da imprensa e do público porque são éticas, republicanas e democráticas. Porque o povão, e a elite, julgam que são justas.
Meu avô foi ministro do Supremo Tribunal Federal, nomeado pelo presidente JK em 1958, julgou durante 15 anos, viveu e morreu modestamente, entre pilhas de processos. Suas únicas regalias eram o apartamento funcional em Brasília e o carro oficial. Não sei se foi melhor ou pior juiz por isto, mas sempre foi para mim um exemplo da austeridade e da autoridade que se espera dos que decidem vidas e destinos. Moacir Japiassu | comentários(1)
05/01/2012 09:08 POEMA DE PASCHOAL MOTTA
BURRO NO SEU DESENHO
O burro da carruagem
viaja sob as amarras,
carrega o avesso dos homens.
No antigo desenho, vai tardo
no passear seus maus tratos,
como se eterno trotasse.
Não empaca o passo esse burro,
o carrasco vibra o chicote;
tudo riscado no gesto.
Tremo o coração na dureza:
as ferraduras nas pedras,
o cocheiro no castigo.
O burro desse desenho
imortaliza os desvios
da insensatez e maldade.
O burro vai sem viseira,
mas não sabe deste olhar
no seu roteiro de opróbrios.
Rasteja com na cacunda
a sua carga podrida
no aço dos longos trilhos.
O burro, os ingratos, as pedras,
um só em sendo tantos
neste calvário de agravos.
A inocência nos transportes
abriga perversos aonde vão;
nunca se entendem, e se danam.
Vai o cocheiro por seu ganho,
e o burro sem seu capim;
a pressa e o sol também batem
nesses varais de demência,
de quem não sabe que vida
e morte vigiam na rua.
Eis a conjunção absurda
de sede, fome e durezas
no trajeto de insolentes:
Falam, gritam, e o burrinho,
com passageiros insanos,
desconhece as controvérsias.
Os homens de duras botas
o burro, leve nos cascos,
suporta por ser quem é.
Ai São Francisco distante,.
socorre nosso irmãozinho
nesse suar sem descanso...
(Em homenagem ao Filósofo Frederico Nietzsche, que, em Milão, se abraçou a um burro puxando carroça pesada de pedras e apanhando chicotadas do carroceiro.) Moacir Japiassu | comentários(0)
29/12/2011 09:12 NOTA DEZ
(Luiz Felipe Pondé na Folha)
SAUDADES DE DEUS
O ateísmo me parece, entre todas as hipóteses sobre o universo, a mais fácil e simples
Tem coisa mais monótona do que discutir sobre a existência ou não de Deus? Ninguém crê em Deus "por razões lógicas". Isso é papo furado. Ninguém "decide" ter fé.
Tentar provar que Deus existe porque ele seria "uma necessidade da razão" me parece um engodo.
Primeiro porque a razão é risível em suas necessidades, como diria o cético Michel de Montaigne (século 16). A pergunta pela origem de tudo que existe (como numa espécie de aristotelismo aguado) não prova nada. Temos inúmeras necessidades que não são autoevidentes -por exemplo, que o bem deva vencer ao final das coisas.
Muitas vezes o mal vence e pronto. Quase sempre. Por outro lado, é interessante se pensar de onde veio a matéria que explodiu um dia e o lugar onde ela explodiu.
Mas isso nada prova acerca do Deus ocidental. O princípio pode ser uma mecânica estúpida.
Aliás, o chamado "argument from evil" (argumento a partir do mal) do ateísmo é famoso. Autores grandes como Dostoiévski e Kafka, entre outros, já o frequentaram de forma brilhante.
O argumento basicamente é o seguinte: se Deus é bom, por que o mundo é mau? Alguns já chegaram a supor que Deus seria mesmo mau, como o próprio Kafka.
Duas questões são importantes apontar nesse debate, uma com relação aos crentes, outra aos ateus.
Primeiro os crentes. Uma falácia comum por parte dos crentes é supor que seria impossível você ser uma pessoa razoavelmente moral sem alguma forma de religião. A história prova que ateus e crentes dividem o mesmo lote de miséria moral. Pouco importa ser ou não crente.
Pessoalmente, acho que o acaso decide: o temperamento (o acaso de você ter nascido "assim ou assado") é quase sempre o juiz do comportamento humano e não "valores" religiosos ou éticos seculares (não religiosos).
Portanto, a tentativa de afirmar que, se você é ateu você necessariamente não é "bom", é pura falácia. Tampouco penso que uma religião faça falta para todas as pessoas. Muita gente vive sem crise sem acreditar em coisa nenhuma "do outro mundo". Isso não significa que ela seja sempre feliz (tampouco os religiosos o são), a (in)felicidade depende de inúmeros fatores.
E mais: "crer ou não crer" não é algo que você escolhe, "acontece". Grandes teólogos como Santo Agostinho, Lutero e Calvino diziam que a "fé é uma graça" (simplificando a coisa), alguns receberam o dom e outros não (portanto, ela "acontece", como eu dizia acima, não é você quem escolhe ter ou não). Acho essa ideia bem mais elegante do que esse papo furado acerca das necessidades racionais, sociais, morais ou psíquicas da crença.
Quanto aos ateus, acho risível a ideia de que o ateísmo seja uma "conquista" da razão ou de alguma forma de rigor moral ou "coragem cosmológica".
Nada disso, como já disse antes, e repito, até golfinhos conseguem ser ateus em sua maravilhosa vida aquática. Fiquei ateu quando tinha oito anos.
O ateísmo me parece, entre todas as hipóteses sobre o universo, a mais fácil, simples, rápida e quase "fast food theory" (teoria fast food).
Não precisamos nos esforçar muito para perceber que podemos talvez um dia descobrir a causa
"natural" do universo, ou acabarmos como espécie antes de descobrir qualquer coisa. E "who cares" se sumirmos um dia?
E mais: é quase evidente que somos uma raça abandonada na face da Terra e a indiferença dos elementos naturais para conosco (sejam eles externos ou internos ao nosso corpo) salta aos olhos.
E mais: a possibilidade de estarmos sozinhos é sempre mais fácil do que acompanhados por um ser maravilhoso, dono do universo e que sabe cada fio do cabelo que você tem na cabeça.
Não há nenhuma evidencia definitiva de que Deus ou que qualquer outra entidade divina exista. O ônus da prova é de quem crê. Além do fato de que os japoneses, caras bem inteligentes, não creem em Jesus na maioria das vezes.
Acho Deus uma hipótese acerca da origem das coisas mais elegante do que a dos golfinhos. Mas, por outro lado, a ideia de que um dia o pó tomou consciência de si mesmo e constatou sua dolorosa solidão cósmica é bela como uma ópera.
ponde.folha@uol.com.br Moacir Japiassu | comentários(4)
29/12/2011 09:09 NOTA ZERO
TRABALHO INFANTIL
Problema está ligado a questão cultural, e não à baixa renda familiar
Trabalho infantil rende pouco e, por isso, não é estratégia de sobrevivência; cultura só será mudada por meio da educação
Não surpreende que avaliações mostrem que transferência de renda não reduz o trabalho infantil: o problema não está na pobreza, está na educação
MARCELO MEDEIROS
ESPECIAL PARA A FOLHA
O Brasil ainda tem 6% de suas crianças de 10 a 14 anos trabalhando, segundo os dados do Censo 2010. Isso corresponde a um milhão de crianças. É quase como se todas as crianças da cidade de São Paulo estivessem trabalhando.
Mais grave ainda é a persistência desse problema, pois a proporção de crianças trabalhando no país não teve redução expressiva desde meados da década de 90.
O crescimento da economia brasileira, a queda da desigualdade social e a diminuição da pobreza não foram capazes de mudar expressivamente esse cenário.
Hoje sabe-se muito mais sobre trabalho infantil do que no passado. Pais que trabalharam quando crianças tendem a fazer com que seus filhos também trabalhem.
A maior parte desse trabalho é na agricultura, não remunerado e em tempo parcial. Meninos trabalham com mais frequência que meninas, e as atividades das crianças geralmente consistem em ajudar seus pais.
É mais comum nas áreas menos desenvolvidas do país e reflete muito de nossas desigualdades regionais.
Mas o trabalho infantil não se resume a isso, há um repertório longo de exploração e trabalho degradante até mesmo nas grandes metrópoles do Brasil.
RISCOS
Estudos mostram que não há nada de bom no trabalho infantil. Trabalhar traz riscos à saúde das crianças, piora seu desempenho escolar e, em alguns casos, chega a retirá-las das escolas.
Não ajuda no rendimento das famílias porque rende pouco e nem sequer prepara as crianças para um futuro profissional, pois adultos que trabalharam quando crianças terminam em profissões piores do que aqueles que nunca trabalharam.
Crianças, para se desenvolverem bem, devem brincar, estudar e não trabalhar.
O trabalho infantil é mais comum entre as famílias pobres mas, ao contrário do que se costuma pensar, não é uma estratégia de sobrevivência.
É reflexo de uma cultura que valoriza pouco a infância e a educação, um sintoma de problemas de longo prazo nos sistemas educacionais.
Também indica uma falha da educação no passado, que não foi capaz de preparar uma geração de pais que dessem prioridade à educação de seus filhos, e uma falha no presente, de um sistema que não consegue prover escolas em tempo integral capazes de suplementar aquilo que as famílias pouco educadas de hoje não são capazes de fazer.
Não é de surpreender, portanto, que avaliações recentes mostrem que programas de transferência de renda não reduzem o trabalho infantil: o problema maior não está na pobreza, está na educação.
MARCELO MEDEIROS é professor de sociologia da Universidade de Brasília, especialista em desigualdade social, e pesquisador do Ipea. Moacir Japiassu | comentários(1)
29/12/2011 09:07 O MAL DOS AGROTÓXICOS
(Marcílio B. V. Abritta)
Fiquei surpreso com a opinião do Janistraquis no tópico "Fome para muitos" do "Jornal da Imprença" (Montbläat 415). Imaginava que tão ilustre e sagaz personagem soubesse que os agrotóxicos estão envenenando todos os seres vivos com os quais entram em contato, consumidores incluídos, a terra e as águas subterrâneas; que, por isso, quanto mais cedo eles forem banidos, melhor, tanto para os atuais viventes , quanto para as gerações futuras; e que o problema da fome não está relacionado à quantidade de alimentos produzidos, mas à incapacidade dos famintos de comprá-los.
Pesquisas de instituições isentas comprovam que o uso do adubo e de defensivos orgânicos, aliados a técnicas apropriadas de cultivo, produz plantas mais saudáveis, resistentes a pragas e em maior quantidade, apesar de a multinacional e poderosíssima indústria dos defensivos químicos, aliada ao agronegócio, insistir no contrário. Quanto à questão dos preços, eles irão baixar na medida em que aumente o número de produtores e consequentemente a produção. Preços bons para os produtores apressam o processo.
O problema que antevejo é o que farão, do que irão viver os milhares ou milhões de pessoas que atualmente trabalham em atividades nocivas à saúde e ao meio ambiente, como os agrotóxicos, se e quando tais atividades forem banidas. Por isso é que, a meu ver, uma mudança no atual sistema econômico precisa ser considerada.
Enquanto isso não acontece, que o sitiante Japiassu me permita passar-lhe a receita de um defensivo natural testado por mim e por meu cunhado e obviamente inofensivo para consumidores e meio ambiente, com a vantagem de requerer normalmente apenas uma aplicação, em vez das duas ou três dos químicos. Basta colocar um punhado de pimenta malagueta e outro de fumo de rolo picado em um litro de água e deixar descansar por uma ou duas semanas; depois é coar, diluir em água (1/10 ou menos, dependendo do grau de infestação) e aplicar. Não há pulgão que aguente e o sabor do vegetal não é alterado. Moacir Japiassu | comentários(0)
29/12/2011 09:05 REGRAS DE IBRAHIM SUED
1. Os palitos foram totalmente abolidos nos jantares. Evite palitar os dentes em público, mas se de todo não puder, dirija-se ao toilette.
2. A meia branca para homem nunca deve ser usada à noite. Durante o dia, somente com traje esporte, quando os sapatos forem brancos.
3. Nunca se deve pedir lenço emprestado.
4. Homem deve evitar ao máximo o uso de jóias. Um homem sóbrio e elegante usa apenas cigarreira e abotoaduras.
5. É de mau gosto perfumar excessivamente o papel de carta.
6.Se você deseja receber, não importa que seja rica ou pobre. Com um bom feijão, arroz, gostosa carne no fogão e uma salada temperada, você pode reunir seus amigos e receber. Não é necessário o caviar. Lembre-se de que ninguém vai à sua casa para conhecer seus parentes. Portanto, não se preocupe em encher a casa de parentes.
7. Se você tiver nas suas relações um banqueiro, inclua-o nas listas das festas grandes. Todo mundo gosta de conhecer banqueiro.
8. Não insista, como: ''Come mais um pouquinho''... Não seja insistente. Se o cara parou de comer ou só comeu salada é porque já matou a fome ou está de regime. Não encha o saco do seu convidado...
9. Hoje já se serve peixe com arroz. Antigamente era uma heresia protocolar.
10. Num jantar formal você pode servir a champanhota. O cafezinho não é obrigatório. Sirva um licor.
11. Se uma mulher estendeu a mão, é pra você beijá-la. Significa que ela não quer a intimidade dos beijinhos nas faces...entendeu?
12. Boate e cassino nivelam as pessoas. Todos os convidados são iguais. Em princípio. Na prática alguns são mais iguais...
13. Se seu botão caiu numa festa, não aporrinhe a anfitriã, que está recebendo, pedindo agulha e linha. Se vire. E, também, se não tiver pílula no toalete, não reclame da sua dor de cabeça. Volte para casa.
14. Se você está na fossa, siga estes conselhos: não tente compreender a vida. Aprenda a vivê-la. Não desperdice um minuto sequer pensando nas pessoas que não lhe agradam. Conte as bênçãos recebidas e não as contrariedades. Lembre-se de que podia ser pior. Aprenda a sorrir. Tenha sempre fé no amanhã. Se você tem uma maçã, não queira fazer com ela uma limonada. Tire sempre partido das suas derrotas. Nunca se julgue um infeliz. Ao contrário, pense sempre que você é feliz. A vida é o que os nossos pensamentos fazem.
15. Por fim, nunca chore pelo leite derramado se você quiser ser feliz. Moacir Japiassu | comentários(0)
22/12/2011 09:38 NOTA DEZ PARA JOSÉ NÊUMANNE
USP DÁ EXEMPLO
PARA O BRASIL SEGUIR
Restauração de prestígio acadêmico perdido pela instituição passa por sanções a quem viola lei
Os estudantes e sindicalistas de extrema esquerda que se rebelaram contra a presença da Polícia Militar (PM) no campus da Universidade de São Paulo (USP), sem querer, e o reitor da instituição, João Grandino Rodas, no pleno e voluntário exercício da autoridade de que foi investido, estão fazendo história.
O episódio é notório e recente, mas convém resumi-lo para a argumentação ficar clara: em maio, no ápice de estupros, assaltos relâmpago e outras atitudes violentas de bandidos que se aproveitavam da falta de policiamento nos espaços vazios da Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira, um estudante foi morto num assalto. A direção da universidade houve por bem firmar convênio com a PM para substituir com soldados fardados da corporação os poucos e desarmados agentes de segurança própria.
Ruminando seu ódio contra a presença de agentes da lei num território que consideram, se não fora, no mínimo, além da lei, funcionários, docentes e estudantes filiados a grupos de extrema esquerda encontraram num caso isolado motivo suficiente para armar um fuzuê e tentar forçar a saída dos policiais de uma área pública da qual se acham donos. Três alunos foram flagrados fumando maconha e isso deu origem à ocupação de um prédio administrativo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), invasão depois estendida à Reitoria. Expulsos pela PM cumprindo ordem judicial, os invasores foram levados à delegacia e libertados sob fiança.
Na semana passada, o professor de Filosofia Contemporânea Carlos Alberto Ribeiro de Moura reprovou por faltas 60 alunos que não compareceram ao número regulamentar de aulas para engrossarem o coro dos rebeldes descontentes na greve de novembro. E, pela primeira vez em dez anos, a USP expulsou seis alunos que, sob idêntico pretexto de protesto, ocuparam salas da Coordenadoria de Assistência Social (Coseas) dizendo reivindicar melhoria nas condições de moradia e aumento do número de vagas no Conjunto Residencial da USP (Crusp), na mesma Cidade Universitária, no ano passado. Tanto em 2010 como no mês passado, os pretensos rebeldes quebraram computadores, destruíram prontuários e depredaram os prédios invadidos, construídos e mantidos com dinheiro público.
Como era de esperar, os dirigentes de centros acadêmicos e sindicatos de funcionários acusaram o reitor Rodas de perseguição política, classificando as expulsões de “autoritárias” e as reprovações impostas por Moura, de “intempestivas”. As acusações baseiam-se em confusão idêntica àquela com a qual pretenderam confundir a presença da polícia para garantir a vida das pessoas e exercer a força legítima em nome do Estado Democrático de Direito com ocupações manu militari da época da ditadura. Agora o argumento mentiroso é que as expulsões foram baseadas num regimento introduzido por decreto durante o mesmo regime arbitrário. O regimento, na verdade, data de 1990, sob a égide da Constituição de 1988 e de um presidente eleito democraticamente.
A mistificação tem o mesmo objetivo cínico de jogar areia nos olhos do cidadão comum, que sustenta com muito sacrifício os privilégios usufruídos pelos estudantes da USP e tem como recompensa por isso a destruição de prédios e equipamentos comprados com seu dinheiro e tendo muitas vezes de pagar escola particular para os próprios filhos.
Os invasores dos prédios em novembro usaram a desfaçatez deslavada de considerar instrumento de tortura os ônibus em que foram transportados para a delegacia e tiveram a caradura de se dizer “presos políticos” durante as poucas horas em que foram fichados pela Polícia Civil antes de serem liberados sob fiança bancada pelos sindicatos de servidores da USP.
Ou seja, por mim e por você, leitor, pois tais sindicatos, como quaisquer outros, vivem do imposto sindical arrecadado de um dia de trabalho de todo portador de carteira assinada no Brasil, sindicalizado ou não. Isto é: os baderneiros que se amotinaram para deixar o campus “sagrado” livre para a atuação de estupradores, assaltantes, assassinos e traficantes de entorpecentes destruíram patrimônio adquirido com o suor do cidadão, inclusive o mais pobre, e foram soltos sob fiança desembolsada por todos os trabalhadores.
Nem todos os 73 desalojados dos prédios ocupados estavam matriculados na USP. Cabe à autoridade informar à sociedade o que fazia em tais edifícios gente alheia à atividade acadêmica fingindo protestar em defesa dela.
Convém lembrar que quadrilheiros do crime organizado de facções como o Comando Vermelho (CV), no Rio, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo, aprenderam nos cárceres em que a ditadura os misturou com presos políticos o emprego da definição de “preso político” para conquistarem a simpatia da população e o beneplácito da autoridade. Os estudantes e seus agregados na invasão não são os primeiros nem serão os últimos a recorrer ao eufemismo como tábua de salvação.
Portanto, as atitudes exemplares do professor Carlos Alberto Ribeiro de Moura e do reitor João Grandino Rodas não apenas restauram a autoridade da administração de uma instituição de ensino e pesquisa que já foi mais respeitada. Elas também deveriam servir de exemplo em outros ambientes institucionais nos quais a leniência quanto ao cumprimento da lei e o relaxamento da ordem põem em xeque o conceito fundamental da democracia, que é o da igualdade de todos perante a norma jurídica.
Nesta República do vale-tudo para alguns e onde nada podem quase todos, políticos são autorizados a movimentar caixa 2 em campanha eleitoral, o que não é permitido a cidadãos comuns na escrita de suas contas. A punição a quem cabulou aulas e destruiu equipamentos na USP deveria servir de ponto de partida para atitudes semelhantes no exercício da política e na gestão pública.
Nêumanne é jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde.
(Publicado na Pág. A02 de O Estado de S. Paulo de quarta-feira 21 de dezembro de 2011) Moacir Japiassu | comentários(0)
22/12/2011 09:36 UM PAÍS À DERIVA
(Marco Antonio Villa)
Na centenária história da República não houve, no primeiro ano, uma administração com tantas acusações de corrupção que levaram a demissões de ministros, como a da presidente Dilma Rousseff.
Excetuando-se o primeiro trimestre, de lá para cá a rotina foi a gerência de crises e mais crises. Nenhuma delas por questão programática ou ideológica. Não. Todas devido às gravíssimas acusações de mau uso dos recursos públicos e de favorecimentos dos parceiros da base governamental.
Neste ano ficou provado, mais uma vez, que o presidencialismo de transação é um fracasso. A partilha irresponsável da máquina pública paralisou o governo.
A incapacidade de gestão -já tão presente no final da Presidência de Lula- se aprofundou. A piora do quadro internacional não trouxe qualquer tipo de preocupação para o conjunto do governo.
Algumas medidas adotadas ficaram restritas ao Ministério da Fazenda. Como se a grave crise internacional fosse simplesmente uma mera turbulência, e não o prenúncio de longo período de estagnação, especialmente da Europa, e com repercussões ainda difíceis de quantificar na economia Ásia-Pacífico.
O governo brasileiro mantém-se como um observador passivo, e demonstrando até certo prazer mórbido com os problemas europeus e com a dificuldade da recuperação dos Estados Unidos. Como se não pudesse ser atingido gravemente pelos efeitos de uma crise no centro do sistema capitalista.
Se é correto afirmar que o mundo está iniciando um processo de inversão das antigas relações econômicas centro-periferia, isso não significa que o Brasil possa suportar um lustro sem que ocorra uma reativação das economias americana e europeia.
A crise de 2008 -e a estagnação de 2009, com crescimento negativo de 0,3%- não foi suficiente para que o governo tomasse um rumo correto. Foi guiado exclusivamente pelo viés eleitoral de curto (2010) e médio prazos (2014). A inexistência de um projeto para o país é cada dia mais evidente. Nem simples promessas eleitorais foram cumpridas.
Nenhuma delas. Serviram utilitariamente para dar algum tipo de verniz programático a uma aliança com objetivos continuístas. Foram selecionadas algumas propostas, mas sem qualquer possibilidade de viabilização. Basta citar, entre tantos exemplos, o programa (fracassado) Minha Casa, Minha Vida.
O país está à deriva. Navega por inércia. A queda da projeção da taxa de crescimento é simplesmente uma mostra da incompetência. Mas o pior está por vir.
Não foi desenvolvido nenhum plano para enfrentar com êxito a nova situação internacional. Tempo não faltou. Assim como sinais preocupantes no conjunto da economia e nas contas públicas.
A bazófia e o discurso vazio não são a melhor forma de enfrentar as dificuldades. É fundamental ter iniciativa, originalidade, propostas exequíveis e quadros técnicos com capacidade administrativa, mas o essencial é mudar a lógica perversa deste arranjo de governo.
Dizendo o óbvio -que na nossa política nem sempre é evidente-, o objetivo do governo não é saciar a base de sustentação política com o saque do erário, como vem ocorrendo até hoje. Deve ter um mínimo de responsabilidade republicana, pensar no país, e não somente no projeto continuísta.
Contudo, tendo como pano de fundo o primeiro ano de governo, a perspectiva é de imobilismo. Algumas mudanças nos ministérios devem ocorrer, pois o desgaste é inevitável. Nada indica, porém, uma alteração de rumo ou uma melhora na qualidade de gestão. A irresponsabilidade vai se manter. E caminhamos para um 2012 cinzento.
MARCO ANTONIO VILLA é historiador e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Moacir Japiassu | comentários(0)
22/12/2011 09:34 POEMA DE CELSO JAPIASSU
NATAL
Noite. Em suas brumas
percorres tuas feridas,
o sal e o fel que se misturam
ao sangue em tua boca.
Tanges com os olhos
tanta luz e a mesa farta,
o reviver de abraços
em redor dos pratos.
Na vertente desta noite:
no reluzir dos dentes,
no crispar de dedos que se afundam
na pele do teu rosto;
na morada dos soluços,
na terceira queda
sobre as pedras da calçada,
nos esgotos.
Árvores de frutos podres
onde encostas a fronte
e sentes o suor
de um corpo em queda
mergulhando nesta noite. Moacir Japiassu | comentários(0)
22/12/2011 09:32 O RETRATO DA MALA
(Bolívar Lamounier)
Durante vários anos, numa época em que viajava muito, eu levava no bolso uma foto de minha mala. Essa idéia me ocorreu logo após o décimo extravio.
O décimo-primeiro aconteceu em Londres. Fui ao balcão de reclamações, expliquei o que se passava e a moça de plantão começou a rabiscar alguma coisa; devia estar abrindo um protocolo, algum tipo de registro, sei lá. Até hoje eu me lembro dela bastante bem. Era muito delicada (no sentido de cortês), tinha olhos muito vivos e a voz meio rouca. Divaguei durante meio minuto ou um pouco mais, como se diante de mim estivesse a Emma Kirkby em pessoa, pronta para entoar uma ária renascentista.
- Sir, would you be able to describe your suitcase?
- Descrever minha mala? But of course! Humm, ...deixe-me ver...
- What colour is it, Sir?
– Colour? Well, it is kind of greyish, I believe. Yes, definitely. Greyish.
Depois veio o episódio da Moldávia. O atendente de reclamações era um senhor bigodudo. Não sei por que, mas ele não me olhou diretamente uma vez sequer.
- Mister, good morning. O Sr se lembra de que cor é a sua mala?
- Well, meio cinza, I guess. Entre cinza escuro e preto claro.
- Good, mister, you memory is in great shape. E o Sr vai precisar de sua mala nos próximos dias ou pode esperar um pouco?
– Nos “próximos dias”???!!! O Sr sabe o que é vir do outro lado do mundo, chegar todo suarento aqui neste fim de mundo e não poder trocar de roupa?
- Indeed, mister, indeed. I will do my best, thank you pela compreensão.
E eis que aí, finalmente, chegou a vez de Nova York. Já cheguei cantarolando – “if I make it anywhere, I’ll make it there...” etc etc quando, atrás do balcão, num mau humor horrível, já quase aos berros, ela perguntou: - What is the shape of your suitcase, mister? Square, rectangular, irregular...? Please describe it as quickly and objectively as you can”, ao que eu lhe respondi na maior calma: “I will not, mam’. I will not describe it”.
- What in hell do you mean you will not, mister? Are you trying to make...”
A foto em minha algibeira não esperou para ver se era mesmo “a fool of me” o que os lábios dela esboçavam. Saiu voando e foi se postar bem junto ao nariz dela. Eu não tinha dúvida de que ela viria furiosamente para cima de mim, direto na jugular. Mas não, ela relaxou um pouco, me olhou meio de lado – eu até me lembrei do bigodudo da Moldávia - e me concedeu um risinho amarelo:
- “Well, I must grant that there is something original about you”.
Eu também devo admitir: fiquei bem contente com o elogio. No táxi, a caminho do hotel, fui brincando comigo mesmo, me perguntando quantos dias a minha mala cinza-escuro levaria para reaparecer: dois, três, cinco dias? Ainda hoje eu me faço essa pergunta.
Em Nova York, realmente não funcionou, mas no geral o truque da foto revelou-se eficientíssimo. Quase infalível. Eu só o deixei de lado quando parei de viajar. As simple as that: no trips, no suitcases lost. A foto em meu bolso ficou sem função.
Mas não é que hoje me lembrei dela?
Saí cedo para Belo Horizonte. Tudo nos conformes, mas em Confins não teve jeito. Não havia condições de pouso. O piloto arremeteu uma, duas vezes, voou um pouco em círculos e finalmente anunciou que estávamos retornando a São Paulo.
Em Guarulhos, o aviso: “os passageiros que seguem para Recife, por favor permaneçam a bordo; os que desembarcam, por favor recolham as bagagens na esteira número 9.
Enquanto à minha frente a esteira fazia pela enésima vez o seu movimento ovalado, o saguão foi se esvaziando, esvaziando. Foi aí que eu me toquei. Aflito, corri ao balcão de reclamações, expliquei que estava no vôo que não pousou e pedi informações. Muito cortês e solícito, sem desviar os olhos de mim, o atendente perguntou:
- O Sr seria capaz de descrever a sua mala? Moacir Japiassu | comentários(0)
15/12/2011 10:38 NOTA DEZ PARA O ESTADÃO
A NOVA MINISTRA DO SUPREMO
(O Estado de S.Paulo – Opinião – 11/12/11)
Pouco conhecida nos meios jurídicos, apesar de integrar o Tribunal Superior do Trabalho, a ministra Rosa Weber foi indicada pela presidente Dilma Rousseff para substituir no Supremo Tribunal Federal (STF) a ministra Ellen Gracie, que se aposentou há cinco meses. Apesar de a indicação ter sido aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado por 19 votos contra 3, graças à maioria da bancada governista, Rosa Weber não se saiu bem na sabatina a que foi submetida. Deixou, por exemplo, de responder a quase todas as perguntas técnicas - especialmente em matéria de direito penal, civil e processual - formuladas por senadores da oposição. Várias indagações tratavam de temas que têm sido debatidos nas sessões plenárias do STF e sobre os quais os membros da Corte estão divididos, em termos doutrinários.
Na sabatina, Rosa Maria Weber mostrou desconhecer o teor desses debates. Quando perguntada sobre questões complexas, que exigem conhecimento de direito positivo e teoria jurídica, afirmou que não poderia respondê-las, por estar impedida de comentar assuntos sub judice. Às perguntas politicamente mais embaraçosas, deu respostas vagas. "A corrupção é inerente à natureza humana, assim como a bondade e a moralidade", disse Rosa Weber, ao ser questionada sobre casos de corrupção no Judiciário.
Após a sabatina, que durou mais de seis horas, alguns ministros mais antigos do STF não esconderam a insatisfação com o desempenho da futura colega.
Mais explícitos, os parlamentares da oposição afirmaram que as respostas evasivas de Rosa Weber mostraram que ela não atende a um dos requisitos básicos para integrar a mais alta Corte do País - o notório saber jurídico.
O mais surpreendente é que a ministra concordou com as críticas. Admitiu que conhece pouco de direito civil, penal e processual por estar há 35 anos julgando processos trabalhistas. E também afirmou que aprenderá, no dia a dia do STF, as matérias que não domina. "Penso que hoje em dia, dada a tamanha complexidade e o número de matérias, dificilmente alguém consiga abarcar todos os temas. O que me anima a enfrentar esses desafios é que podemos estudar. Somos eternos aprendizes", disse ela.
A ministra Rosa Weber merece aplauso por sua franqueza. Mas a última instância do Judiciário - que tem a palavra final sobre praticamente todos os aspectos da vida dos cidadãos brasileiros - exige em seu plenário magistrados com sólidos conhecimentos e comprovada experiência em temas de alta complexidade, e não aprendizes, que terão de recorrer aos manuais introdutórios, pois, entre outras funções, cabe ao STF julgar ações diretas de inconstitucionalidade, ações penais impetradas contra o presidente da República e concessão de habeas corpus.
Repetiu-se com a indicação da sucessora da ministra Elen Gracie o que ocorreu com outras recentes indicações para o Supremo. O ministro Dias Tófoli, por exemplo, antigo assessor jurídico da direção do PT, em 20 anos de carreira jamais produziu um artigo doutrinário digno de nota, tendo um currículo exíguo. Ele só foi aprovado pela CCJ do Senado graças à hegemonia da bancada governista, mas assumiu o STF desgastado. O mesmo está acontecendo com Rosa Weber, como observou o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP).
No passado, os presidentes da República indicavam para o STF juristas, professores e advogados consagrados. A partir do presidente Lula, os critérios passaram a obedecer a estratégia do marketing "politicamente correto", o que levou as indicações a serem objeto de acirrada competição política e corporativa. No caso de Rosa Weber prevaleceu, além da condição de gênero, o fato de ser amiga de familiares da presidente da República. A indicação de ministros indicados por critérios de marketing político ou compadrio poderia ser evitada se os membros da CCJ do Senado fossem rigorosos nas sabatinas, preocupando-se mais com os interesses da Nação do que em cortejar quem poderá julgar seus processos. Infelizmente, não é isso o que acontece, o que está levando o STF a se empobrecer. Moacir Japiassu | comentários(0)
15/12/2011 10:36 EDUARDO ALMEIDA REIS
(Trecho do livro)
Voltemos ao sítio: viver de quê? Meus dois livros publicados,
o já citado Pinto e o outro, De Colombo a Kubitschek (Histórias do Brasil),
mesmo vendendo muito bem e com ótimas críticas, não me acenavam
com a perspectiva de viver de literatura. Nem eu tinha pretensões a
escritor, antes me considerando "autor de livros". Não parece, mas
são coisas diferentes.
Havia um sítio de 30 hectares, que logo se transformariam
em 60, ou 12 alqueires geométricos, ou 24 paulistas, ou 47 alqueires
fluminenses, numa região inviável para a pecuária e para qualquer tipo
de agricultura fora dos hortifrútis. É verdade que os Fukudas empre
viveram de agricultura, mas japonês é outro departamento.
Certa ocasião, depois de tomar o café em casa do Sr. Kassuto,
o ministro Salgado Filho montou a cavalo e saiu para completar seu
passeio dominical. No caminho, apeou na casa modesta dos Botelhos,
vizinhos Cantagalo acima, para dois dedos de prosa.
Enquanto havia de tudo nos Fukudas, pomar imenso, lavouras
de alface, pimentão, berinjela, milho, arroz, feijão, batata,
cenoura - tudo quanto se possa imaginar - o terreno dos Botelhos
era uma desolação: meia dúzia de bananeiras em torno da casa, uma
ou duas goiabeiras e era só.
Preocupado, o ministro perguntou: "Por que é que o senhor
não planta um pomar, seu Botelho?" O digno brasileiro, revirando o
chapéu nas mãos, encantado com a visita de um político sempre
cogitado para a Presidência da República, explicou: "Pomar aqui não
dá, não, seu ministro".
"E batata, milho, alface, berinjela, couve-flor?" insistiu o Dr.
Salgado.
"Também não dá, não, seu ministro. Nem adianta pelejar com
isso" explicou o bom Botelho.
"Como é que o Kassuto, seu vizinho, consegue colher de tudo?"
"É teimosia do japonês, seu ministro. Japonês é muito
teimoso ..."
Teimosos ou não, os Fukudas viviam de agricultura num esquema
incompatível com o meu biorritmo nhambiquara. Morar na
roça para passar a noite carregando um caminhão de verduras, saindo
às três da manhã para madrugar no mercado distante, é teimosia de
japonês. Só pode ser.
("Seis alqueires e uma vaca" -- Editora Nativa.) Moacir Japiassu | comentários(0)
15/12/2011 10:33 EDUARDO ALMEIDA REIS
(Trecho do livro)
Voltemos ao sítio: viver de quê? Meus dois livros publicados,
o já citado Pinto e o outro, De Colombo a Kubitschek (Histórias do Brasil),
mesmo vendendo muito bem e com ótimas críticas, não me acenavam
com a perspectiva de viver de literatura. Nem eu tinha pretensões a
escritor, antes me considerando "autor de livros". Não parece, mas
são coisas diferentes.
Havia um sítio de 30 hectares, que logo se transformariam
em 60, ou 12 alqueires geométricos, ou 24 paulistas, ou 47 alqueires
fluminenses, numa região inviável para a pecuária e para qualquer tipo
de agricultura fora dos hortifrútis. É verdade que os Fukudas empre
viveram de agricultura, mas japonês é outro departamento.
Certa ocasião, depois de tomar o café em casa do Sr. Kassuto,
o ministro Salgado Filho montou a cavalo e saiu para completar seu
passeio dominical. No caminho, apeou na casa modesta dos Botelhos,
vizinhos Cantagalo acima, para dois dedos de prosa.
Enquanto havia de tudo nos Fukudas, pomar imenso, lavouras
de alface, pimentão, berinjela, milho, arroz, feijão, batata,
cenoura - tudo quanto se possa imaginar - o terreno dos Botelhos
era uma desolação: meia dúzia de bananeiras em torno da casa, uma
ou duas goiabeiras e era só.
Preocupado, o ministro perguntou: "Por que é que o senhor
não planta um pomar, seu Botelho?" O digno brasileiro, revirando o
chapéu nas mãos, encantado com a visita de um político sempre
cogitado para a Presidência da República, explicou: "Pomar aqui não
dá, não, seu ministro".
"E batata, milho, alface, berinjela, couve-flor?" insistiu o Dr.
Salgado.
"Também não dá, não, seu ministro. Nem adianta pelejar com
isso" explicou o bom Botelho.
"Como é que o Kassuto, seu vizinho, consegue colher de tudo?"
"É teimosia do japonês, seu ministro. Japonês é muito
teimoso ..."
Teimosos ou não, os Fukudas viviam de agricultura num esquema
incompatível com o meu biorritmo nhambiquara. Morar na
roça para passar a noite carregando um caminhão de verduras, saindo
às três da manhã para madrugar no mercado distante, é teimosia de
japonês. Só pode ser.
("Seis alqueires e uma vaca" -- Editora Nativa.) Moacir Japiassu | comentários(0)
08/12/2011 09:59 NOTA DEZ PARA SÉRGIO AUGUSTO
O MELHOR
REPÓRTER
DO FUTURO
Do primeiro Jules (ou Júlio) Verne ninguém esquece. O meu foi em quadrinhos: Vinte Mil Léguas Submarinas, na versão que lhe deu a Edição Maravilhosa (nº 10, abril de 1949), ilustrada por Henry C. Kiefer. Um epifania infantil, sem dúvida, superada, cinco anos mais tarde, pelo filme de Richard Fleischer e, antes deste, pela imersão adequada no próprio romance, traduzido na íntegra não me recordo mais por quem. Sempre por aí, em edições de variado pedigree, ainda é o best seller do autor e acaba de ganhar outra, caprichada, da Zahar (456 págs., R$59,00), com as indispensáveis ilustrações de Alphonse de Neville e Édouard Riou.
Verne não foi apenas o contador de histórias mais imaginoso de todos os tempos – uma espécie de Leonardo da Vinci da ficção –, mas também o criador de uma mitologia singularmente estruturada a partir das crenças filosóficas e científicas de sua época. Encantou Proust, Rimbaud (cujo Bateau Ivre seria uma recriação poética e ébria do Náutilus de Vinte Mil Léguas Submarinas), Raymond Roussel, Julio Cortázar, Nietzsche (cujo Zaratustra seria a reencarnação filosófica do capitão Nemo), Michel Butor (que vislumbrou a presença do escritor nas pinturas de Max Ernst, Rousseau e na poesia de Lautréamont).
Entre nós não foi diferente. Data de 1875, com A Ilha Misteriosa ainda fresca nas livrarias da França, a primeira ficção brasileira de inspiração verniana: O Doutor Benignus, de Augusto Emilio Zaluar. Outras haveria, nenhuma com a qualidade literária e a sutileza de Lições de Abismo, a “viagem ao centro da Terra” de Gustavo Corção.
Interessado em ciência desde menino, como Voltaire, Balzac e seu assumido mestre Edgar Allan Poe, o visionário de Nantes foi o produto literário mais delirante que o cientificismo do século 19 gerou com os olhos voltados para o século 20. Verne intuiu e imaginou (ou inventou entre aspas) diversos prodígios mecânicos, químicos e até eletrônicos, como o submarino (o do holandês Cornelius Drebell, dois séculos mais novo que o Náutilus, não passava de um bolsão de couro), o escafandro, o batiscafo, o dirigível, o helicóptero, o trator e o automóvel, o gás asfixiante, o canhão de longo alcance, a fotografia em cores, o hidroavião, a vitrola, o cinema, a televisão, os computadores, a bomba atômica, o cinema em 3-D – e um vasto etc. Seu recorde nessa especialidade, tudo leva a crer, jamais será ultrapassado.
A paixão pelo experimentalismo passou-a a seus alter-egos: o capitão Nemo (precursor de Drebell e também de Jacques Cousteau), Robur (precursor de Santos Dumont), o capitão Hatteras (que foi verificar a existência de um mar livre no Polo Ártico), o professor de Viagem ao Centro da Terra (que foi validar in loco a teoria do fogo central), para ficarmos só nos mais conhecidos. Mas a vaidade, o excesso de autoconfiança e o messianismo dos cientistas o atemorizavam. Robur, o conquistador que em 1886 surge como um protótipo do admirável homem novo moldado em Nemo, mais parece um avatar de Lúcifer ao ressurgir, uma década mais tarde, em O Senhor do Mundo. Não foi por acaso que, no cinema, entregaram esse papel a Vincent Price.
Além das profecias, utopias e distopias, Verne notabilizou-se como um intérprete glutão dos grandes acontecimentos políticos e sociais do século 19, como um correspondente de guerra e conflitos que nunca precisou sair de seu gabinete. Em seus romances “cobriu” a guerra dos Boers na África, a resistência de El-Hadji-Omar às tentativas francesas de conquistar o Senegal, o estabelecimento da autoridade chilena nos Andes, a guerra de Secessão americana, a venda do Alasca e outros territórios pelos russos, a corrida do ouro na Califórnia e na Austrália, as pressões do governo Theodore Roosevelt sobre a América Central e o Caribe, a insurreição Taiping na China Central, a guerra de independência da Grécia, a guerra da Crimeia, os movimentos de emancipação nacional dos húngaros, escoceses, irlandeses, búlgaros e noruegueses, a eclosão do anarquismo na Itália, Rússia, França e na América. E, em A Jangada—800 Léguas pelo Amazonas, a proclamação da República no Brasil.
Muitas posições políticas assumidas por seus personagens conflitam com as do conservador que ele sempre foi, defensor da ordem a qualquer preço, da mulher no fogão ou num canto a tricotar, adversário dos que apoiavam Dreyfus, das sufragistas e dos communards de Paris. Vinte Mil Léguas Submarinas talvez seja sua aventura mais pessoal, a mais contaminada por suas secretas simpatias libertárias.
Nemo termina abjurando seus princípios e questionando sua misantropia. Seu lamento final -- “Deus todo-poderoso! Basta! Basta!” – foi uma concessão ao editor Hetzel e ao público. Verne e Hetzel discutiram extensamente sobre a identidade política de Nemo. Hetzel queria justificar as ações de Nemo como uma consequência de sua luta contra a escravidão, mas Verne não aceitou: para ele, Nemo afundava o navio inglês simplesmente porque fora provocado.
Mas é claro que o escritor, e não apenas o comandante do Náutilus, considerava a escravidão um dos “horrores da civilização”. Hetzel, pragmático, era contra a escravidão porque o seu fim, segundo os economistas da época, representaria um importante salto para o futuro e resultaria na ampliação do mercado consumidor.
As sociedades industriais então trocavam o colonialismo pelo imperialismo. Atento a todos os seus movimentos, Verne inseriu-os em sua ficção. E assim foi que o futuro ganhou um grande repórter. Moacir Japiassu | comentários(0)
08/12/2011 09:56 SOBRE OS ERROS DA IMPRENSA
De Lincoln Tendler:
Boa tarde! Meu nome é Lincoln, e sou (ou estou, já por uns oito anos) editor-chefe da mais importante publicação sobre armas, munições e trabalho policial do Brasil. Estamos no mercado há looongos vinte e poucos anos e, nesse tempo, consegui coletar vários absurdos referentes ao mundo das armas, tais como "bala na agulha" (isso me dá a idéia de um confeito tipo jujuba espetado sobre uma agulha de tricô), "pente" (armas não têm cabelos), rifle (um belo estrangeirismo que nada explica, já que um "rifle" nada mais é do que uma arma longa de cano raiado, ou seja: pode ser tanto uma carabina quanto um fuzil - essa, sim, a verdadeira assepção à qual muitos se referem), bala (que tal...projétil?), colete a prova de bala (colete balístico).
E a confusão geral referente às palavras cartucho/munição/projétil/cápsula? Há gente que se diz do ramo - alguns até famosos - que continuam não sabendo o que empregar e misturam todos esses vocábulos...
Bem, minha intenção é informar que, neste país, alguns repórteres são alçados a editorias das quais não têm o mínimo conhecimento; e isso é uma tristeza - e, conforme alguns de seus excertos, tal "fenômeno trabalhista" ocorre não somente em nosso segmento, mas em muitos outros (é só ver o que se fala/escreve de besteira, seja em que campo for...).
De Marcos Novaes
Sou engenheiro, mas trabalhei no jornalismo da TV Globo por 32 anos: primeiro com o mestre Armando Nogueira e sempre com a Alice Maria.
Li seu texto sobre nomes errados. Eu, certamente pela minha formação técnica, me revolto com os erros - ligados à minha área - que são cometidos: - já vi uma repórter dizer que uma pessoa morre com 3 amperes. Não acho que ela devesse saber que o que mata é a potência e não a corrente, mas se ela não sabia não deveria dizer, pois do outro lado da telinha tem muita gente que sabe. Comentei o fato, com ela, e a resposta foi - "ah, ninguém liga para isso".
Caloria é uma unidade de energia muito muito pequena. Assim duas fatias de pão integral têm 123 mil calorias, ou 123 Kcal - você pode comprovar isso vendo o valor nutritivo do alimento na embalagem. Mas os repórteres, redatores e editores acham que é mais bonito falar calorias e não quilocalorias. Seria como dizer que a distância entre Rio e São Paulo é de 495 metros e não quilometros. Pior que de tanto falarem até os nutricionistas falam o mesmo, simplesmente ignorando o Instituto Nacional de Pesos e Medidas. Moacir Japiassu | comentários(0)
08/12/2011 09:53 SOBRE OS ERROS DA IMPRENSA
De Lincoln Tendler:
Boa tarde! Meu nome é Lincoln, e sou (ou estou, já por uns oito anos) editor-chefe da mais importante publicação sobre armas, munições e trabalho policial do Brasil. Estamos no mercado há looongos vinte e poucos anos e, nesse tempo, consegui coletar vários absurdos referentes ao mundo das armas, tais como "bala na agulha" (isso me dá a idéia de um confeito tipo jujuba espetado sobre uma agulha de tricô), "pente" (armas não têm cabelos), rifle (um belo estrangeirismo que nada explica, já que um "rifle" nada mais é do que uma arma longa de cano raiado, ou seja: pode ser tanto uma carabina quanto um fuzil - essa, sim, a verdadeira assepção à qual muitos se referem), bala (que tal...projétil?), colete a prova de bala (colete balístico).
E a confusão geral referente às palavras cartucho/munição/projétil/cápsula? Há gente que se diz do ramo - alguns até famosos - que continuam não sabendo o que empregar e misturam todos esses vocábulos...
Bem, minha intenção é informar que, neste país, alguns repórteres são alçados a editorias das quais não têm o mínimo conhecimento; e isso é uma tristeza - e, conforme alguns de seus excertos, tal "fenômeno trabalhista" ocorre não somente em nosso segmento, mas em muitos outros (é só ver o que se fala/escreve de besteira, seja em que campo for...).
De Marcos Novaes
Sou engenheiro, mas trabalhei no jornalismo da TV Globo por 32 anos: primeiro com o mestre Armando Nogueira e sempre com a Alice Maria.
Li seu texto sobre nomes errados. Eu, certamente pela minha formação técnica, me revolto com os erros - ligados à minha área - que são cometidos: - já vi uma repórter dizer que uma pessoa morre com 3 amperes. Não acho que ela devesse saber que o que mata é a potência e não a corrente, mas se ela não sabia não deveria dizer, pois do outro lado da telinha tem muita gente que sabe. Comentei o fato, com ela, e a resposta foi - "ah, ninguém liga para isso".
Caloria é uma unidade de energia muito muito pequena. Assim duas fatias de pão integral têm 123 mil calorias, ou 123 Kcal - você pode comprovar isso vendo o valor nutritivo do alimento na embalagem. Mas os repórteres, redatores e editores acham que é mais bonito falar calorias e não quilocalorias. Seria como dizer que a distância entre Rio e São Paulo é de 495 metros e não quilometros. Pior que de tanto falarem até os nutricionistas falam o mesmo, simplesmente ignorando o Instituto Nacional de Pesos e Medidas. Moacir Japiassu | comentários(0)
01/12/2011 10:15 HISTÓRIA DE LAMPIÃO
LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA
(Lula Vieira)
No Rio de Janeiro existe um restaurante chamado Fiorentina, onde todas as noites se reuniam os artistas de cinema, televisão e teatro. Dá para imaginar as histórias que aconteciam ou que eram contadas em suas mesas. E atraídos pelos nomes famosos, o Fiorentina recebia também as mais belas mulheres do Rio, vedetes do teatro rebolado, figurantes de chanchadas carnavalescas e algumas das melhores e mais conhecidas cortesãs da cidade.
Cortesãs sim, não putas nem modelos-manequins. Gente da maior finura, incapaz de dar baixaria em camarote de cervejaria. Além das figuras habituais, o Fiorentina recebia também grandes celebridades do mundo inteiro, embora fosse tradição da casa não se empolgar muito com gente famosa alienígena.
Dizia-se até que Charlie Chaplin ou Orson Welles, se aparecessem mais de duas vezes no Fiorentina, seriam devidamente esnobados na base do "disfarça que está chegando aquele chato". O Rio já foi assim. Agora, faz rapapé até para ex-BBB, triste sinal dos tempos. Mas, continuando.
Daniel Filho conta que uma vez estava em uma mesa com Edu da Gaita, Aurimar Rocha e Paulo Pontes, cada um relembrando histórias da infância. Aliás, a vida dele está no livro "Antes Que Me Esqueçam", um belo registro de uma fase importante da televisão brasileira. Voltemos ao Fiorentina e à mesa do Daniel.
Os trabalhos foram devidamente abertos com o próprio (Daniel) contando que uma vez sua bisavó foi convidada para montar um dos cavalos de D. Pedro II, na Hípica Imperial, e que, enquanto a senhora evoluía pela pista, o Imperador gentilmente carregava o filho dela, futuro avô do narrador.
O melhor de tudo é que o garoto a certa altura fez um alegre xixi na roupa de D. Pedro II, que teve que mandar pedir no palácio outra calça de montaria. Ou seja: o avô de Daniel, com seis meses de idade já se revelava um republicano convicto, capaz de colocar o Imperador numa situação delicada.
O Paulo Pontes, com a cara amarrada de nordestino bravo, vestindo umas sandálias de couro parecendo figurante de filme de cangaceiro, ouvia com expressão de infinita tristeza. Daí o Edu da Gaita contou que tinha feito uma música sobre um poema de Pablo Neruda e que quando tocou para o Portinari, Candinho ficou tão encantado que fez um imediatamente um quadro inspirado na composição. E que o Neruda, mais tarde, conhecendo a música e a história, assinou com Pilot sobre o quadro, agradecendo a lembrança dos dois. Ou seja: Edu tinha em casa um quadro de Portinari com autógrafo do Pablo Neruda. Paulo Pontes ouvia calado.
Daí Aurimar Rocha contou que quando era menino morava na rua Paissandu, caminho habitual de Getúlio Vargas indo para o Palácio do Catete. Aurimar garantiu que toda vez que o presidente passava, ele ficava em posição de sentido, batendo continência. E Getúlio, retribuía a saudação, também solene. E que, em seguida, o garoto e o ditador trocavam umas idéias. E Paulo Pontes cada vez mais acabrunhado.
Quando chegou a vez dele contar sua história, não pareceu encontrar nada de empolgante. Ficaram todos esperando ele cavoucar na memória alguma coisa à altura de um Imperador molhado, um quadro de Portinari autografado pelo Neruda ou do garoto amigo do Pai dos Pobres. Depois de muito tempo pensando, Paulo pediu mais uma birita, olhou o mar, pigarreou, acendeu um cigarro e começou: "Eu tenho um primo, lá na Paraíba, que comeu o cu do Lampião..." Moacir Japiassu | comentários(0)
01/12/2011 10:10 POEMA DE NEI DUCLÓS
FAÇA O QUE QUISER
Tudo é vencido em mim, antigo
confidente
Que o tempo reserva na aparição
de um soco
Época sem refrões em corredores
tontos
Onde se quebram as louças de um
acordo
Nada faz sentido em mim, escassa
Babilônia
Encontrada no jarro podre de um
recanto
Gruta de ferrugem a envenenar o
vinho
de uma literatura suja como alguém
em coma
Todo encanto se desfaz num céu de
ferimentos
Quando profiro a oração convicta dos
contritos
E ninguém escuta a não ser a solidão
dos trilhos
Onde trafega uma procissão de
monstros
Nenhum coração resiste enquanto houver
silêncio
Nem voz poderá ser minha se estiveres
longe
Trago na bagagem uma confissão de
gritos
Faça o que quiser desde que eu possa
ver-te Moacir Japiassu | comentários(0)
24/11/2011 18:15 POEMA DE ABGAR RENAULT
COMO QUEM PEDE UMA ESMOLA
Preciso de uma palavra.
Em que dia ou em que noite
estará essa, que almejo,
ideal palavra insabida,
a única, a exclusiva, a só?
Dela me sinto exilado
todas as horas por junto,
com minha face, meu punho,
meu sangue, meu lírio de água.
Soletro-me em tantas letras,
e encontrá-la deve ser
encontrar a criança e o berço,
a unidade, a exatidão,
o prado aberto na rua,
a rua galgando a estrela.
Preciso de uma palavra,
uma só palavra rogo,
como quem pede uma esmola.
Em florestas de palavras
os calados pés caminham,
as caladas mãos perquirem,
os olhos indagam firmes.
Em que parábola cruel,
em que ciência, em que planeta,
em que fronte tão hermética,
em que silêncio fechada
estará viajando agora
- mariposa de ouro azul -
a palavra que desejo?
Lâmina sexo cristal
fulcro pântano convés
voraginoso fluvial
Antígona circunflexa
catastrófico crepúsculo
ênula ventre rosal
sibila farol maré
desesperadoramente
nenhuma será nem é
aquela do meu anseio.
Como será, quando vier,
a palavra entrepensada,
necessária e suficiente
para a minha construção
de lápis, papel e vento?
Dura, espessa, veludosa
ou fina, límpida, nítida?
Asa tênue de libélula
ou maciça e carregada
de algum plúmbeo conteúdo?
Distante, insone e cativo,
debaixo da chuva abstrata,
eu me planto decisivo
no tráfego confluente,
aéreo, terrestre, marítimo,
e espero que desembarque,
triste e casta como um peixe
ou ardendo em carne e verbo,
e pouse na minha mão
a áurea moeda dissilábica,
a noiva desconhecida,
a coroa imperecível:
a palavra que não tenho. Moacir Japiassu | comentários(1)
17/11/2011 09:41 NOTA DEZ: BIOGRAFIA DO ITAMAR
Apresentação
Na leitura de artigos, editoriais, colunas políticas em que o presidente da República Itamar Franco era citado na imprensa, vez ou outra me deparava com um estranho adjetivo: “mercurial”. Por 35 anos batalhando nas redações do Jornal do Brasil, O Globo, O Dia e Extra, jamais o vira atribuído a outro figurão político, como Carlos Lacerda, Leonel Brizola, Magalhães Pinto, João Goulart, Jânio Quadros, Miguel Arraes, por exemplo, num retroagir aos tempos iniciais de minha carreira profissional. Estes receberam adjetivações comuns, compreensíveis, contra ou a favor, para definir seus perfis – exceto “mercurial”. E, mais à frente – ultrapassemos os sombrios 20 anos em que os generais se revezaram no poder –, Tancredo Neves, José Sarney, Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, da mesma forma, jamais fizeram por merecer o epíteto. É como se Itamar Franco tivesse adquirido a sua exclusividade, vedado o seu emprego a qualquer outro político – do vereador ao presidente da República.
Eis dois exemplos assinados por conceituados jornalistas, em artigos/epitáfios sobre Itamar Franco:
“Um homem de temperamento mercurial, mas, em compensação, de conduta vertical.” (Dora Kramer / O Estado de S. Paulo – 5/7/2011)).
“Várias vezes o mercurial Itamar renunciou ao cargo durante a campanha [de Fernando Collor].” (Merval Pereira / O Globo – 14/7/2011).
De minha mãe ouvi pela primeira vez o adágio popular: para quem sabe ler um pingo é letra. É a imagem dela que me ocorre sempre que a minha retina se depara com o tal “mercurial”: vejo-a conferindo no termômetro, uma pequena haste de vidro, tracejado, o nível do mercúrio indicando a quantas anda a febre do seu pequerrucho acamado por uma gripe qualquer. Em seguida, ela o sacode para abaixar o elemento químico, líquido, prateado, que se elevará novamente na próxima tomada da temperatura do meu corpo.
Eis que chegamos, finalmente, ao entendimento sobre o emprego do “mercurial” que servirá aos jornalistas acima e outros tantos, a maioria da imprensa paulista, para classificar o temperamento do presidente Itamar Franco, que variava do afável, cordial, educado, diplomático ao contido e irritadiço de acordo com o calor dos debates ou diante dos momentos de graves decisões.
Mas, ora bolas, o sobe-e-desce do humor “mercurial” não ocorria ou ocorre também com todos os políticos acima citados diante da excitação natural no enfrentamento com adversários ou na leitura de editoriais jornalísticos recheados de críticas infundadas, pejorativas e mal intencionadas? Será que Fernando Henrique Cardoso – fiquemos apenas com o exemplo de FHC, que se aliou a Itamar Franco para compor a dupla que mudou a História do Brasil para melhor – conseguia manter o seu humor, linearmente, diante de todas as crises e acusações por que seu governo passou sem alterar o nível “mercurial” de suas emoções?
Assim sendo, conclui-se que todos os seres humanos, políticos ou não, são “mercuriais” – mas só no caso de Itamar Franco a adjetivação foi empregada, em tom pejorativo, acusatório, mas que o tempo se encarregou de revelá-la como sinônimo de ranço e preconceito.
* * *
No dia em que recebi a missão/desafio de Marcello Lignani Siqueira e Djalma Morais, com o aval do próprio Itamar Franco, de ser o autor de sua biografia, confesso que a encomenda fez explodir o meu ego profissional, mas relutei e fiz-lhes ver que essa era uma tarefa de grandeza acima de minhas possibilidades, modestamente.
Estávamos em junho de 2009, e a intenção era que o livro fosse lançado ao mesmo tempo em que se realizariam as convenções partidárias, ano depois, quando Itamar Franco seria oficializado candidato do PPS a uma das duas cadeiras no Senado Federal por Minas Gerais. Ao deparar-me com os milhares de documentos colocados à minha disposição para começar as pesquisas, percebi estar diante de uma missão impossível – afinal, somente para realizar a pauta dos trabalhos, foram mais de 30 dias. E nela não constava o capítulo que encerra este livro. Os três se renderam aos meus argumentos e liberaram-me dos compromissos com prazos rigorosos – assim como me habituara na redação dos jornais, ouvindo sempre o alerta, que deixava editores, redatores, secretários, diagramadores com os cabelos em pé a cada brado: “Olha a hora!”
O encontro foi realizado na sala do ex-presidente, em um dos ambientes dos dois andares que abrigavam o Instituto Itamar Augusto Franco (IIAF). Algumas dezenas de anos antes, eu os freqüentava, um jovem engravatado entre centenas de pessoas ocupando um espaço em comemorações sob diversas motivações (bailes de formaturas, de carnaval, de debutantes, comemorações estudantis, shows de bossa-nova, etc), nos ambientes elegantes, charmosos do tradicional Clube Juiz de Fora. A modernização dos tempos se encarregou de torná-los inadequados, economicamente inviáveis, e acabaram adquiridos por empresa privada.
Os amplos espaços, de onde se descortinava uma agradável vista panorâmica de Juiz de Fora, abrigavam, agora, o acervo que registrava a história de Itamar Franco, desde os seus tempos colegiais até a sua gloriosa aventura como 33º presidente da República do Brasil.
“Presidente, é uma honra, mas...” – dei início às minhas razões para a recusa, mas logo fui interrompido pela figura esguia, elegante, em calça jeans, camisa social-esportiva, sem nenhum excesso de gordura seja na face ou no restante do corpo. O cabelo grisalho era aquele que tanto furor causava aos que o caricaturavam ou o descreviam – uma mecha em forma de topete renitente insistindo em apontar para o alto – o traço característico de um homem de 79 anos, que aparentava uma disposição invejável para alguém em sua idade.
“Itamar, por favor, Itamar...” – corrigiu-me, impondo desde aquele momento um tratamento que muitas vezes deixava-me pouco à vontade. Mas esse era o seu estilo, não só comigo, logo percebi, mas com todos que dele se aproximavam para dois dedos de prosa ou para longas entrevistas ou tomadas de depoimentos cercadas de formalidades.
Nos intervalos dos frequentes compromissos que o afastavam de Juiz de Fora, ocorriam as sessões de entrevistas, com durações que variavam de duas até cinco horas. Era quando, olhos nos olhos, tive o privilégio de conhecer o protagonista de um capítulo extraordinário da História do Brasil e, extrair-lhe, nos momentos mais excitantes, confidências pessoais inéditas. A algumas delas se seguiram recomendações para deixá-las de lado, não as registrar nas páginas que se seguem, por receio de trazer à tona episódios que pudessem constranger personagens ou despertar ressentimentos adormecidos. Respeitei-as, por entender que as confissões lhe escapavam como se estivesse em uma sessão de análise – quem diria, logo eu, servindo de psicanalista a quem foi classificado pela revista semanal britânica The Economist (1,5 milhão de exemplares) como “o maquinista que colocou o Brasil nos trilhos.”
E assim se passaram dois anos, desde que mergulhei de corpo e alma no enredo em que se conta a vida de Itamar Franco, cujo início tem algo de épico/cinematográfico, e cujo epílogo, insisto com pesar, não constava do roteiro original. A este se seguiram depoimentos recheados de todas as adjetivações possíveis de exaltação, estampados na cobertura da imprensa sobre o acontecimento, que reduzem o tal “mercurial” à sua dimensão e função exatas, que é o de medir a temperatura ambiente ou febril de um corpo – e jamais a de dimensionar o caráter do homem da grandeza ética e moral, perspicácia política e competência administrativa, movida sobretudo pela preocupação social, chamado Itamar Augusto Cautiero Franco.
(Ivanir Yazbeck) Moacir Japiassu | comentários(0)
10/11/2011 09:47 INGLÊS DE BRASILEIRO
CLAUDIO LESSA
Acabo de ouvir o mais novo exemplo do "inglês de brasileiros para brasileiros", que faz do fazendão umm país único. Aqui se fala um "inglês" (língua internacional) que não se entende em lugar nenhum.
O mais recente exemplo é o de um patrocínio institucional da BASF, empresa química, na BandNews FM, todas as manhãs. O locutor, cheio de empáfia por estar falando algo em outra língua, estupra os nossos ouvidos (e os de todos aqueles que, de uma forma ou de outra estão tentando aprender inglês decente para poderem se virar no exterior) com a seguinte expressão: "BASF, químical cômpani."
Ora, no primeiro semestre de qualquer cursinho de inglês aprende-se que a pronúncia de "chemical" é "quêmical", e não "químical". Não é nada, não é nada... não é nada, mas isso demonstra o alcance do prejuízo causado pela falta de conhecimento e/ou responsabilidade de alguém que tem acesso a um microfone e fala para milhões de pessoas, informando e -- principalmente -- formando (ensinando, dando exemplo) a outros. No atual maremoto de mediocrização institucionalizada que toma conta do fazendão, esse exemplo pode ser apenas uma marolinha, mas sabe como é... de marolinha em marolinha, se chega a um vagalhão.
FIco admirado de como a própria BASF não ter dado sinal vermelho a essa gravação (que poderia ter sido refeita em dez segundos) ou como o encarregado de fazê-la, na falta de uma informação certeira, não ter resolvido falar logo na língua do fazendão: "BASF, uma empresa química.". Moacir Japiassu | comentários(0)
10/11/2011 09:44 POEMA DE NEI LEANDRO
TER
A ternura dói como uma chama.
Espalha-se. Fere.
Faz o pássaro perder a corrente
que o leva além da lucidez de pássaro.
Todas as batalhas foram vencidas
pela terrível ternura
que toma de assalto o bêbado e o clown.
Viva a ternura. Abaixo a ternura.
Somente ela
pode erguer muralhas
em volta do peito do poeta,
do suicida, daquele que não morre
nem por ternura.
(Nei Leandro de Castro in Diário Íntimo da Palavra) Moacir Japiassu | comentários(0)
03/11/2011 09:57 NOTA DEZ PARA ELIO GASPARI
LULA, O CÂNCER, O SUS E O SÍRIO
O Brasil de Nosso Guia está a 33 quilômetros da "perfeição no tratamento de saúde"
AS PESSOAS que estão reclamando porque Lula não foi tratar seu câncer no SUS dividem-se em dois grupos: um foi atrás da piada fácil, e ruim; o outro, movido a ódio, quer que ele se ferre. Na rede pública de saúde, em 1971, Lula perdeu a primeira mulher e um filho. Em 1998, o metalúrgico tornou-se candidato à Presidência da República e pegou pesado: "Eu não sei se o Fernando Henrique ou algum governador confiaria na saúde pública para se tratar".
Nessa época acusava o governo de desossar o SUS, estimulando a migração para os planos privados. Quando Lula chegou ao Planalto, havia 31,2 milhões de brasileiros no mercado de planos particulares. Ao deixá-lo, essa clientela era de 45,6 milhões, e ele não tocava mais no assunto.
Em 2010, Lula inaugurou uma Unidade de Pronto Atendimento do SUS no Recife dizendo que "ela está tão bem localizada, tão bem estruturada, que dá até vontade de ficar doente para ser atendido". Horas depois, teve uma crise de hipertensão e internou-se num hospital privado.
Lula percorreu todo o arco da malversação do debate da saúde pública. Foi de vítima a denunciante, passou da denúncia à marquetagem oficialista e acabou aninhado no Sírio-Libanês, um dos melhores e mais caros hospitais do país. Melhor para ele. (No andar do SUS, uma pessoa que teve dor de ouvido e sentiu algo esquisito na garganta leva uns 30 dias para ser examinada corretamente, outros 76, na média, para começar um tratamento quimioterápico, 113 dias se precisar de radioterapia. No andar de Lula, é possível chegar-se ao diagnóstico numa sexta e à químio, na segunda. A conta fica em algo como R$ 50 mil.)
Lula, Dilma Rousseff e José Alencar trataram seus tumores no Sírio. Lá, Dilma recebeu uma droga que não era oferecida à patuleia do SUS. Deve-se a ela a inclusão do rituximab na lista de medicamentos da saúde pública.
Os companheiros descobriram as virtudes da medicina privada, mas, em nove anos de poder, pouco fizeram pelos pacientes da rede pública. Melhoraram o acesso aos diagnósticos, mas os tratamentos continuam arruinados. Fora isso, alteraram o nome do Instituto Nacional do Câncer, acrescentando-lhe uma homenagem a José Alencar, que lá nunca pôs os pés.
Depois de oito anos: 1 em cada 5 pacientes de câncer dos planos de saúde era mandado para a rede pública. Já o tucanato, tendo criado em São Paulo um centro de excelência, o Instituto do Câncer Octavio Frias de Oliveira, por pouco não entregou 25% dos seus leitos à privataria. (A iniciativa, do governador Geraldo Alckmin, foi derrubada pelo Judiciário paulista.)
A luta de José Alencar contra "o insidioso mal" serviu para retirar o estigma da doença. Se o câncer de Lula servir para responsabilizar burocratas que compram mamógrafos e não os desencaixotam (as comissões vêm por fora) e médicos que não comparecem ao local de trabalho, as filas do SUS poderão diminuir. Poderá servir também para acabar com a política de duplas portas, pelas quais os clientes de planos privados têm atendimento expedito nos hospitais públicos.
Lula soube cuidar de si. Delirou ao tratar da saúde dos outros quando, em 2006, disse que "o Brasil não está longe de atingir a perfeição no tratamento de saúde". Está precisamente a 33 quilômetros, a distância entre seu apartamento de São Bernardo e o Sírio. Moacir Japiassu | comentários(0)
03/11/2011 09:54 PÉSSIMA NOTÍCIA
O prefeito do Rio, Eduardo Paes, sancionou no último dia 19, uma lei que institui o ensino religioso opcional nas escolas públicas municipais para os alunos do 1º ao 9º ano do ensino fundamental. A iniciativa é inédita no país.
Esta é uma péssima notícia. Vai na contramão do princípio republicano de separação entre Estado e religião. As crenças religiosas devem ser assunto estritamente privado. A transmissão de seus valores/rituais não poderia invadir o espaço público, ficando circunscrita às famílias, templos e/ou congêneres e escolas confessionais. O financiamento dessas atividades jamais deveria vir dos cofres públicos, que, no Rio, mal conseguem pagar decentemente os professores já contratados.
É interessante observar que um dos grupos que mais têm crescido nas pesquisas do IBGE é o dos ateus e sem religião. Nos anos 1960, mal atingiam 0,5% da população do país. Em 2009, ano do último levantamento do IBGE, pularam para 6,7% (13 vezes mais). No Rio de Janeiro, 16% dos pesquisados se declararam sem religião, uma das maiores taxas do país.
Num país como o nosso, onde convivem ateus e pessoas ligadas às mais diversas religiões, a laicidade do Estado deveria ser a garantia de tratamento igual para todos os cidadãos. Infelizmente, temos maus precedentes. Depois de mais de 120 anos de opção pelo Estado laico, ainda vemos símbolos religiosos nas dependências de prédios públicos. Um constrangimento inaceitável para os que frequentam esses lugares, que deveria ser de todos e não apenas expositores de uma denominação religiosa.
Que não se diga que o ensino religioso cultivará bons valores. Em primeiro lugar, não existe nenhuma garantia neste sentido. Em segundo, uma breve olhada na História e se perceberá como as religiões provocaram diretamente ou ajudaram por omissão/apoio espiritual atrocidades de todos os tipos e atentados violentos contra os direitos humanos mais elementares.
No Brasil em geral, e no Rio de Janeiro em particular, há fatores objetivos que contraindicariam o ensino religioso nas escolas públicas. Dizer que o caráter facultativo deste ensino garantiria o respeito às diferenças é uma perigosa ilusão. É fácil imaginar a discriminação que sofreriam os que optassem por não frequentar essas aulas. Além disso, com a flagrante deficiência fiscalizadora das secretarias de educação, é mais do que provável que as escolas públicas se transformarão, a curto prazo, em centros de doutrinação de grupos que costumam ser tratados a pão-de-ló por todos os governos. Basta ver as campanhas eleitorais, quando candidatos cortejam, não raro cinicamente, movimentos e grupos religiosos, à cata de votos.
A iniciativa da prefeitura do Rio é antirrepublicana e, como tal, deve ser amplamente denunciada.
(Diretoria da ASA – Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação) Moacir Japiassu | comentários(0)
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