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| por Moacir Japiassu |
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04/02/2010 09:38 SALMO
Estou sentado numa praça à espera do Senhor.
Ele está atrasado e dos bancos em que se sentam os ricos
caem migalhas de pão que é o seu corpo.
Falta vinho, que é o seu sangue,
mas o vinho não falta em suas ceias.
É longa a espera, como longos têm sido os dias
em que tento me mover no trançado dos espinhos
ou na cruz que me tem pregado.
Não há fuga quando as amarras se misturam
aos braços, às pernas e no pensamento.
Não reconheço este sítio onde espero
e observo a fartura em outros bancos
eu faminto, insone, o corpo exibindo suas chagas,
a alma em busca de algo extinto
nas escadarias dos templos visitados.
Tenho permanecido na vizinhança das árvores
porém longe das sombras ocupadas.
Divido água e comida com os bichos.
À noite, penso que Deus é invenção soturna,
como os pássaros que cercam este lugar.
(Celso Japiassu in O Último Número) Moacir Japiassu | comentários(0)
28/01/2010 09:37 FERREIRA GULLARUNS MENTEM, OUTROS DELIRAM
Lula está convencido do papel que a História lhe teria destinado; parece personagem de Gogol
SERIA SIMPLIFICAÇÃO excessiva dividir os políticos em duas categorias distintas: a dos honestos, sinceros, imbuídos de espírito público, e a dos desonestos, mentirosos e voltados apenas para seus próprios interesses: enfim, anjos de um lado e demônios, do outro.
Sabemos que não é assim, e alguns escândalos ocorridos há pouco, no Congresso e fora dele, deixaram isso bem claro. Daí sermos levados a considerar que, queiramos ou não, o mundo político tem características peculiares que, se não nos devem levar a abrir mão das exigências éticas no comportamento de qualquer cidadão, ensinam-nos a admitir uma margem de tolerância que permita ao transviado arrepender-se e corrigir-se, mesmo porque todos nós estamos sujeitos, vez por outra, a pisar na bola.
É certo que há erros e erros e, como se sabe, se errar é humano, persistir no erro é indesculpável. E, infelizmente, em nosso universo político, há muitos que não apenas erram e persistem, como abusam da tolerância alheia.
Os valores éticos não podem ser relativizados, é claro, mas o desvio será tanto mais grave quanto mais importante for o lugar que ocupe o infrator no âmbito da sociedade. Por exemplo, o suborno é inaceitável, seja praticado por quem for, mas será certamente mais grave se quem o praticar for o governador do Distrito Federal ou um senador da República. Não será menos grave se se tratar de um ministro de Estado e, mais grave ainda, se for o presidente da República. Este, então, por sua condição de chefe de Estado, está obrigado a seguir com rigor e transparência todas as normas éticas e constitucionais.
Pois bem, mentir não é pecado apenas perante Deus, mas igualmente perante os cidadãos. Há um tipo de político para quem isso não tem importância, desde que contribua para manter seu prestígio ou a governabilidade. Há mesmo aqueles que garantem serem mentirosas as acusações verdadeiras que lhes são feitas, atribuindo-as aos adversários políticos ou à imprensa. Eles têm consciência de que a maioria da opinião pública sabe que mentem, mas estão se lixando para ela, já que os seus currais eleitorais só acreditam no que eles dizem e sempre votarão neles. O resultado é que importa, o pragmatismo está acima da ética.
E não é isso que fazem tantos políticos e, entre eles, Lula e seu partido? Todo mundo sabe que eles se opuseram ferozmente à política econômica do governo anterior, chegando Lula a afirmar que o Plano Real era um golpe eleitoral que não duraria seis meses; que a Lei de Responsabilidade Fiscal era uma farsa e o Proer, um pretexto para dar dinheiro a banqueiros. No entanto, desde o primeiro dia de seu governo, Lula aplica essas medidas que combateu, sem jamais dizer que as herdou do governo passado.
Pelo contrário, sua turma afirma que FHC lhes deixou uma herança maldita, quando, na verdade, a inflação de 2002 foi provocada pela possível vitória de Lula, que assustava os investidores. E, como se não bastasse, não hesitam em dizer que a oposição não tem programa de governo, sabendo que se apropriaram dele, uma vez que ostentam, como seu, o programa que era do governo anterior.
Deve-se reconhecer que ter seguido a política econômica que dera certo foi uma decisão correta do governo Lula, mas como admitir que governa apoiado nas medidas que, se dependesse dele e seu partido, jamais teriam sido adotadas? Não o admite porque seria aceitar que deve grande parte de seu êxito ao adversário, o que desarmaria a tese segundo a qual ele, Lula, não é apenas mais um presidente que o povo elegeu, e, sim, o único, até hoje eleito, que efetivamente o representa.
Essa convicção não se baseia em argumentos lógicos e, sim, numa visão mistificada, segundo a qual, depois de séculos, um filho do povo, nascido na pobreza, derrotou os ricos e tomou-lhes o poder. Por essa razão, o próprio Lula considera-se um predestinado. Não por acaso, em seus discursos, ele sempre afirma: "Nunca antes na história deste país...". E quer anular tanto o TCU quanto a imprensa, já que um predestinado não pode ser nem fiscalizado nem criticado.
Por isso mesmo, não diria que ele é um mentiroso nem um farsante, já que está convencido do papel que a História lhe teria destinado. Lembra-me aquele personagem de Gogol que, chegando à província, foi tomado equivocadamente como o inspetor geral a serviço do czar e passou então a agir como tal, certo de que era o que não era. Lula, como aquele personagem, pode acordar dessa ilusão, em 2010, quando o verdadeiro inspetor chegar à cidade. Ou não.
Moacir Japiassu | comentários(0)
28/01/2010 09:34 EX-ÍDOLO
Esquerda ataca presidente americano por descumprimento de promessas, como fechar Guantánamo
ANA FLOR
ENVIADA ESPECIAL A PORTO ALEGRE
Durou pouco a lua de mel do presidente dos Estados Unidos com a esquerda e movimentos antiglobalização que se materializaram no Fórum Social Mundial. Há menos de um ano, na edição anterior do fórum, em Belém (PA), Obama foi celebrado com euforia como a grande esperança daqueles que esperavam um líder mundial que levasse adiante bandeiras como justiça social, meio ambiente e o fim das guerras.
Reunidos desde segunda-feira em Porto Alegre, onde ocorre a 10ª edição do Fórum Social Mundial, intelectuais de esquerda e movimentos sociais não poupam críticas ao ex-ídolo que não cumpriu promessas como fechar Guantánamo, tirar as tropas do Iraque e pressionar por um novo acordo mundial para reduzir emissões de gases-estufa, na conferência do clima de Copenhague.
Se em Belém as camisas com o presidente recém-empossado eram disputadas, em Porto Alegre elas desapareceram.
"Todos pensaram "ele vai ser meu presidente", mesmo sendo brasileiros, franceses ou de qualquer outra nacionalidade", diz a cientista política e escritora Susan George. "Eu projetei meus sonhos nele, como todos projetaram", afirma.
Segundo David Harvey, professor de antropologia da City University de Nova York, a eleição de Obama teve valor simbólico. "Mas sua relação com o capital e Wall Street já nos avisava para não ter expectativas."
Oded Grajew, fundador do FSM, afirma que Obama não cumpriu suas promessas de campanha, o que desapontou não apenas os americanos, mas o mundo. "Guantánamo continua, há mais tropas no Afeganistão, a democracia em Honduras não foi respeitada, Copenhague foi um fracasso", diz.
Para Oded, a desconfiança nos EUA e "no mundo como um todo" voltou.
"Não estamos colocando a pá de cal, mas esse ano será o prazo fatal", afirma.
O sociólogo português Boaventura de Souza Santos é mais pessimista. "A América Latina não tem muitas razões para estar sossegada. Eu estou muito inquieto", diz ele, com referência às bases americanas na Colômbia, à crise em Honduras e à resposta ao terremoto no Haiti. "Muito das conquistas que tivemos na década foi porque os EUA estavam distraídos", diz. Moacir Japiassu | comentários(0)
28/01/2010 09:30 CECÍLIA MEIRELESCANÇÃO DE ALTA NOITE
Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.
Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.
Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.
Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.
Andar...Perder o seu passo
na noite, também perdida.
Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.
Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.
Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
Não necessita de nada. Moacir Japiassu | comentários(0)
21/01/2010 09:28 COPA DO MUNDO
IMPRENSA NÃO DEVERÁ TER VIDA FÁCIL
(Por Márcio Bernardes*)
Ninguém consegue manter um
diálogo de mais de cinco minutos
usando um celular na África do
Sul. Fazer um boletim para rádio
além desse tempo sem cair a
linha é quase impossível. Esta é
uma das sérias e graves constatações
confirmadas na cobertura
do sorteio dos grupos da Copa
do Mundo.
O repórter Renato Ribeiro, da
Rede Globo, tentou passar uma
matéria, via internet, direto de
Robbin Island, local onde Nelson
Mandela ficou preso durante 18
anos. Não conseguiu a comunicação
e perdeu o deadline para o
Globo Esporte daquele dia.
O repórter Henri Karan diariamente
tem surtos de irritação
quando faz seus boletins para a
BandNews FM, dentro do programa
do Ricardo Boechat. A linha
cai sempre.
Na Cidade do Cabo, onde
aconteceu o sorteio, a paisagem
é linda, os hotéis são ótimos e
o povo acolhedor. Mas ninguém
pode sair caminhando pelas ruas
após as seis da tarde. A partir desse
horário tudo fecha – comércio,
shoppings etc..
Em Johanesburgo a situação é
mais grave. O trânsito é pior do
que o de São Paulo. O transporte
público é caótico. Não há metrô
e nem mesmo ônibus regulares
em número suficiente. O que
predomina na cidade e região é
o transporte por meio de vans. E
nelas não há indicações do trajeto,
número máximo de passageiros e
outras coisas elementares.
Estima-se que milhares de
taxis clandestinos rodem pela
cidade. São incontáveis os casos
de estupros, assaltos, roubos e
outros crimes a passageiros – e
principalmente passageiras – desavisados.
Qualquer profissional de imprensa
precisará ter o seu carro próprio
com GPS. E não deixar o aparelho
no vidro. A chance de ele ser roubado
é muito grande. Como também
não se aconselha andar pelo centro
e muitos bairros da cidade portando
e ostentando laptops, máquinas
fotográficas e celulares.
Os estádios são adequados e
pela amostra do Centro de Convenções
da Cidade do Cabo, imaginase
que internamente serão boas
as condições de trabalho. O maior
problema será sair pelas ruas.
(*) Márcio Bernardes esteve na África
do Sul para acompanhar o sorteio dos
grupos da Copa do Mundo de 2010 e
as demais atividades programadas
pela Fifa para a imprensa mundial
no período. Escreveu este artigo a
convite de J&Cia. Moacir Japiassu | comentários(3)
21/01/2010 09:24 TALIS ANDRADE
ESPELHANTES MEDOS
1
Onde verei refletida
tua face
No espelho da lua
no espelho das águas
Onde verei refletida
tua face
se a lua esconde
um lado escuro
leve brisa
frisa o lago
2
O espelho que guardou
a virginal nudez
- os dias fulgurantes
de tua beleza -
se partiu
em mil partes
espalhando fragmentadas
lembranças pelo quarto
Na negra noite
que desaba
sobre nossas cabeças
o grande medo
de ferir os dedos
(Talis Andrade in Os Herdeiros da Rosa) Moacir Japiassu | comentários(0)
14/01/2010 10:36 SÉRGIO AUGUSTO
O que nos lembra ou evoca a recém-inaugurada Torre de Dubai? A Torre de Babel? Os obeliscos egípcios? Os arranha-céus americanos?
Os Jardins Suspensos da Babilônia não se encaixam no parâmetro porque, embora fruto da megalomania humana, não tiveram motivação místico-religiosa, foram criados para agradar uma mulher saudosa do verde de sua terra natal. Babel e os obeliscos foram erguidos para que os homens pudessem chegar ao céu e para agradecer Rá, o deus sol, pela energia recebida, respectivamente. Ainda que o único templo de seu complexo de 206 andares seja uma mesquita, a Torre de Dubai é um preito a Mamon, o ídolo pagão do dinheiro.
Até o batismo do mais elevado e dispendioso totem do novo-riquismo árabe (custo total: US$ 1.5 bilhão) sofreu interferência do vil metal. Projetada com o nome de Burj Dubai, já se chamava, semanas antes da inauguração, Burj Khalifa, em homenagem ao xeique Khalifa bin Zayed al-Nahyan, governante de Abu Dhabi, a petrocracia vizinha que ajudou Dubai a cobrir um débito de US$ 100 bilhões. Os bilionários de Abu Dhabi não podem ver um arranha-céu que logo pensam em comprá-lo (pagaram US$ 800 milhões por 80% do prédio da Chrysler, em Nova York, o mais belo da espécie) ou financiar-lhe a construção.
Um editorial do jornal espanhol El País comparou a Burj Khalifa ao potlatch dos indígenas da América do Norte. Bem lembrado. O potlatch era uma cerimônia religiosa em que certas tribos destruíam freneticamente objetos de grande valor para demonstrar que eram ricos; uma dilapidação conspícua e exibicionista.
Dubai reinventou o potlatch, gastando a rodo com construções faraônicas, hoteis e resorts tão delirantes quanto cafonas, alimentando uma bolha imobiliária de proporções babilônicas, estopim da quase falência do emirado há pouco mais de um mês. A torre foi o clímax de uma escalada de extravagâncias arquitetônicas iniciada pouco depois do colapso do Lehman Bros., nos últimos meses de 2008, com a inauguração do inenarrável Hotel Atlantis, acréscimo certo numa eventual reedição da “Viagem na Irrealidade Cotidiana”, de Umberto Eco.
Por mais que o novo-riquismo chinês corra atrás (já ergueram o Shanghai World Financial Center em 2008 e preparam outro espigão na mesma cidade, a Torre de Shanghai, 131 metros mais alta), a Burj Khalifa, com 828 metros de altura, é e continuará sendo por um bom tempo o maior prédio do mundo, com o mais elevado terraço, a mais elevada fonte, o mais elevado mirante (no 124º andar), a mais elevada piscina (no 76º andar) e recordes que tais. Visível a 95 quilômetros de distância e com um panorama que, pelas fotos divulgadas, não vale a incursão até o topo (para que subir tanto para avistar uma Barra da Tijuca?), poderá abrigar mais de 12 mil pessoas em seus 144 apartamentos de luxo e no ainda mais luxuoso hotel grifado pelo costureiro Giorgio Armani.
("TOTEM DA EXTRAVAGÂNCIA", PUBLICADO NO ESTADÃO.) Moacir Japiassu | comentários(0)
14/01/2010 10:32 SÉRGIO AUGUSTO
(Segunda parte)
É uma insensatez pueril, uma perversão distópica do sonho modernista de ampliar a liberdade de movimentos no espaço urbano, um zigurate de complicada feitura (servido por 54 elevadores, subindo e descendo a uma velocidade de 65k por hora) e árdua manutenção. Seu topo é permanentemente fustigado por ventos que chegam a 20k por hora, o que, no mínimo, dificulta a limpeza. Porque fica no meio de um deserto, será necessário derreter o equivalente a 14 mil toneladas de gelo por dia para calibrar o ar condicionado e dessalinizar bilhões de litros de água para abastecer as torneiras.
Próxima a uma falha geológica, a fulgurante atalaia árabe está mais para um filme-desastre do que para King Kong. Na véspera de sua inauguração, o canal a cabo Telecine Cult reexibiu o catastrófico Inferno na Torre. Vendo os 138 andares da torre do filme consumidos pelas chamas não pude deixar de me lembrar da Burj Khalifa. Produzido, em 1974, como um tributo aos esforços e à coragem dos bombeiros de Los Angeles no socorro às vítimas dos terremotos que com frequência assolam aquela região, Inferno na Torre resultou numa crítica sem subterfúgios à ganância imobiliária, à desonestidade dos barões da construção civil, aos Sergio Nayas da Califórnia. Mesmo que não tenha havido mutretas na construção da torre de Dubai, impossível não ver nela um sucedâneo da Glass Tower cinematográfica.
Como o Empire State, erguido em meio à Grande Depressão de 80 anos atrás, com mão de obra barata sobrando e um clima de forçada euforia no ar, a torre de Dubai subiu ao longo de uma crise econômica global, tocada por operários imigrantes, a maioria indiana e paquistanesa, ganhando entre 5 e 20 dólares por dia e submetidos a um regime de trabalho draconiano, insensível a qualquer tipo de reivindicação. Fala-se que pelo menos três deles morreram durante a construção da obra, que demorou cinco anos mas conseguiu ficar pronta antes da Freedom Tower que irá substituir as torres gêmeas derrubadas no atentado de 11 de setembro.
A Freedom Tower terá 541 m de altura. Será o terceiro maior arranha-céu, caso a vindoura Torre de Shanghai (641 m) também fique pronta antes. No ranking dos espigões, o pioneiro Empire State, com 381 m, caiu para a sétima e última colocação, depois de reinar absoluto entre 1931 e 1972, até ser superado pelo World Trade Center (416 m), que só manteve a hegemonia durante dois anos. Com 442 m de altura, a Sears (atual) Willis Tower confiscou o recorde para Chicago em 1974 e só foi desbancada 24 anos mais tarde pelas torres gêmeas da Petronas, em Kuala Lumpur, na Malásia, que medem 452 metros.
Com a entrada dos chineses no “tower business”, durou pouco a prosa dos malaios. Mas os espigões de Shanghai, o que já existe desde o ano passado e o prometido para breve, não fazem sombra à torre de Dubai.
Perguntado se ela não era, afinal, uma manobra diversionista para desviar a atenção da pindaíba do emirado, o construtor Mohamed al Abbar malufou: “Construímos tudo isso para trazer qualidade de vida e felicidade às pessoas.” Mas quantos estarão dispostos a buscar a felicidade numa cidade como Dubai? Moacir Japiassu | comentários(0)
14/01/2010 10:28 NEI DUCLÓS
Imperfeito é o mar
que desova as luas que devora
Que devolve a flor
da compostura
oferecida em tambor
de epifania
Imperfeito é o mar
que resiste ao verão
que se anuncia
e mantém o frio
cinzelado
na armadura
Nesse exílio de mar que é o ano findo
O banho tardio expulsa a espuma
Imperfeito é o mar
que adia a pluma
oferecendo espinho,
a congelar os barcos
e a se livrar
do trigo
Insistimos, nós que enfim nos entregamos,
e descobrimos o mar pedindo auxílio
Imperfeito é o mar, extrema criatura
A sucumbir como um golfinho
trocando pirueta por comida
Irmão partido que não se despediu
E que ao nosso lado se socorre
De um poema afogado pela brisa
Vamos peitar o inverno, mar da minha vida
Vamos enfrentar os temporais da fuga
Imperfeito é o mar,
que assim me obriga
A dar-lhe a mão
e a ser seu filho
Pois se fosse Deus, onde estaria
minha vontade de bebê-lo até a loucura?
(Do livro ainda inédito Partimos de Manhã.)
Moacir Japiassu | comentários(0)
07/01/2010 09:14 CHUVAS DE VERÃO...< ... E ONDAS DE LOROTAS
Sérgio Cabral tem razão quando põe a culpa dos desabamentos de encostas na conta dos demagogos populistas, mas, como outros gestores, ainda deve o anúncio de providências
Chuvas, para um sertanejo como o autor destas linhas, são eventos meteorológicos do bem. São bênçãos que caem do céu para fertilizar solos secos castigados pelo sol. Mas nos últimos verões elas também desabaram como lavas de vulcão, ao mesmo tempo fertilizantes benignas e assassinas malignas. No Estado do Rio, principalmente, mas também aqui em São Paulo e em outros Estados do Sudeste e do Sul, as águas provocaram deslizamentos de morros e muitas mortes. Como toda tragédia natural, a tendência é atribuí-la ao imponderável, às forças da natureza, a algo incontrolável pela impotência humana sobre a Terra. A verdade não é bem esta.
Os soterramentos que matam resultam de agressões descabidas da ação humana contra a natureza. O governador do Rio, Sérgio Cabral, teve razão ao lamentar a ação nefasta dos demagogos populistas, cuja omissão na gestão pública permitiu que a vegetação nas encostas e os mananciais de água potável venham sendo afetados pela construção de imóveis fora da lei e de qualquer propósito. Sua Excelência só se esqueceu de que até agora ele próprio não tomou nenhuma atitude de autoridade, da qual foi investido por decisão soberana do povo de seu Estado, para reverter esse estado de coisas. Assim, falou como um roto maldizendo o esfarrapado e imitou o modelo de seu aliado federal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, mesmo sem nunca ter lido uma palavra escrita pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre, parodia o lema deste segundo o qual “o inferno é o outro” para “o diabo é o adversário antecessor.”
Tragédias como a da Ilha Grande expõem os malefícios produzidos pelo populismo que, em nome de um falso amor ao cidadão comum, deixa de protegê-lo de sua própria incúria. É mera coincidência, mas deveria servir de alerta ocorrerem logo após a reunião do clima em Copenhague, de que o Brasil de Lula, Sérgio Cabral, Serra e outros gestores públicos, participou com a conversa mole e a absoluta ausência de atitudes de sempre. Retórica política não salva vidas nem impede mortes.
A reação insensível à tragédia das vítimas dessas enxurradas não é exclusiva de um partido político nem de uma posição ideológica. As queixas de Cabral, do PMDB de Lula, assemelham-se à alienação do prefeito paulistano, Gilberto Kassab, do DEM de Serra. A repetição cíclica do noticiário fúnebre, acompanhado sempre da onda de declarações enfáticas, nunca acompanhadas de políticas eficazes para evitar as ocupações ilícitas de encostas e mananciais e o empoçamento das vias impermeabilizadas de nossas metrópoles, é um achincalhe à inteligência e à sensatez dos cidadãos que elegem seus governantes.
((José Nêumanne Pinto, jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde.)
Moacir Japiassu | comentários(1)
07/01/2010 09:10 INVERNO
Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojés,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno
Covas bem fundas
pra enterrar cana:
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nelas se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa...
E mais gostoso
que tudo isso:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
córgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne de sol
chia nas brasas,
farinha d'água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa...
...rede gemendo...
Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!
(Jorge de Lima)
Moacir Japiassu | comentários(0)
30/12/2009 10:13 NÓS, OS BURROS
Aluno, em 1964, do curso de jornalismo, ficava a Escola, no Rio,
próxima ao aterro do Flamengo, então um canteiro de obras. Ali
pastavam animais de carga.
Um grupo de colegas, no qual me incluía, não suportava o tom
laudatório do professor Hélio Vianna, ao se referir ao marechal
Castelo Branco, seu cunhado, e primeiro a ocupar a Presidência em nome
da ditadura. Decidimos pregar-lhe uma peça. Sequestramos um burro no
aterro e o enfiamos na sala de aula.
No corredor do andar de cima, ficamos a observar a reação do professor
de história. Hélio Vianna entrou na sala e, para a nossa decepção, ali
permaneceu em companhia do muar, durante 50 minutos. Dado o sinal,
retirou-se impassível, sem demonstrar contrariedade ou queixar-se à
direção. Deu mais trabalho fazer o burro descer do que subir os
degraus da faculdade.
Na semana seguinte o episódio parecia mergulhado no olvido. Hélio
Vianna entrou em classe e - novo desaponto - não nos passou nenhuma
reprimenda. Deu aula como se nada tivesse ocorrido. Nos últimos
minutos, advertiu-nos:
"Aviso aos senhores e senhoras que, na semana próxima, haverá prova.
Peguem os pontos com o único colega que, na aula passada, se
encontrava em classe". E não mais disse.
Como estudar para a prova sem a menor noção da matéria indicada? No
dia fatídico, o professor nos pediu uma dissertação, por escrito, de
como o Tesouro da Holanda havia sido afetado pela invasão holandesa no
Nordeste brasileiro. Zero geral.
Burros fomos nós.
Frei Betto.
Moacir Japiassu | comentários(0)
30/12/2009 10:11 CARTA DE MÃE
Meu querido filho Frederico:
Escrevo estas poucas linhas que é para saberes que estou viva.
Escrevo devagar porque sei que não gostas de ler depressa. Se receberes esta carta, é porque chegou. Se ela não chegar, avisa-me que eu mando outra.
O teu pai leu no jornal que a maioria dos acidentes ocorre a 1 km de casa. Por isso, mudamo-nos pra mais longe.
Sobre o casaco que querias, o teu tio disse que seria muito caro mandar pelo correio por causa dos botões de ferro que pesam muito. Assim, arranquei os botões e coloquei-os no bolso. Quando chegar aí, pregue-os de novo.
No outro dia, houve uma explosão no botijão de gás aqui na cozinha. Teu pai e eu fomos atirados pelo ar e caímos fora de casa. Que emoção! Foi a primeira vez em muitos anos que o teu pai e eu saímos juntos.
Sobre o nosso cão, o Rexlino, anteontem foi atropelado e tiveram que lhe cortar o rabo, por isso toma cuidado quando atravessares a rua.
Tua irmã Laura vai ser mãe, mas ainda não sabemos se é menino ou menina. Portanto, não sei se vais ser tio ou tia.
Hoje, teu irmão Valclintone me deu muito trabalho. Fechou o carro e deixou as chaves lá dentro. Tive de ir em casa, pegar a reserva para a abrir. Por sorte, cheguei antes de começar a chuva, pois a capota estava arriada.
Se vires a Dona Rosinha, diz-lhe que mando lembranças. Se não a vires, não digas nada.
Um beijo,
Tua mãe Marcela
PS: Era para te mandar os 300 euros que me pediste, mas quando me lembrei já tinha fechado o envelope. Moacir Japiassu | comentários(1)
30/12/2009 10:08 RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
(Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.)
Moacir Japiassu | comentários(0)
23/12/2009 11:01 MANUAL DO BÊBADO
Coisas que são DIFÍCEIS de dizer quando você está bêbado:
- Indubitavelmente.
- Preliminarmente.
- Proliferação.
- Inconstitucional.
Coisas que são EXTREMAMENTE DIFÍCEIS de dizer quando você esta bêbado:
- Especificidade..
- Transubstanciado.
- Verossimilhança.
- Três tigres.
Coisas que são TOTALMENTE IMPOSSÍVEIS de dizer quando você está bêbado:
- Puta merda, que menina feia!!!!
- Chega, já bebi demais....
- Sai fora, você não é o meu tipo...
MANUAL PRÁTICO
Como agir quando se bebeu demais e está com os seguintes sintomas:
SINTOMA: Pés frios e úmidos.
CAUSA: Você está segurando o copo pelo lado errado..
SOLUÇÃO: Gire o copo até que a parte aberta esteja virada para cima.
SINTOMA: Pés quentes e úmidos.
CAUSA: Você fez xixi.
SOLUÇÃO: Vá se secar no banheiro mais próximo.
SINTOMA: A parede a sua frente está cheia de luzes.
CAUSA: Você caiu de costas no chão.
SOLUÇÃO: Coloque seu corpo a 90 graus do solo.
SINTOMA: O chão está embaçado.
CAUSA: Você está olhando para o chão através do fundo do seu copo vazio.
SOLUÇÃO: Compre outra cerveja ou similar.
SINTOMA: O chão está se movendo.
CAUSA: Você está sendo carregado ou arrastado.
SOLUÇÃO: Pergunte se estão te levando para outro bar.
SINTOMA: O local ficou completamente escuro.
CAUSA: O bar fechou.
SOLUÇÃO: Pergunte ao garçom o endereço de sua casa.
SINTOMA: O motorista do táxi é um elefante rosa.
CAUSA: Você bebeu muitíssimo.
SOLUÇÃO: Peça ao elefante que o leve para o hospital mais próximo.
SINTOMA: Você está olhando um espelho que se move como água.
CAUSA: Você está para vomitar em uma privada.
SOLUÇÃO: Enfie o dedo na garganta
SINTOMA: As pessoas falam produzindo um misterioso eco.
CAUSA: Você está com a garrafa de cerveja na orelha.
SOLUÇÃO: Deixe de ser palhaço.
SINTOMA: A danceteria se move muito e a música é muito repetitiva.
CAUSA: Você está em uma ambulância.
SOLUÇÃO: Não se mova. Possível coma alcoólico.
SINTOMA: A fortíssima luz da danceteria está cegando seus olhos...
CAUSA: Você está na rua e já é dia.
SOLUÇÃO: Tente encontrar o caminho de volta para casa.
SINTOMA: Seu amigo não liga para o que você fala.
CAUSA: Você está falando com uma caixa de correios.
SOLUÇÃO: Procure seu amigo para que ele te leve para casa.
SINTOMA: Seu amigo não pára de falar repetidamente as mesmas palavras
CAUSA: Você está falando com o cachorro do vizinho
SOLUÇÃO: Peça pra ele mostrar onde é sua casa. Moacir Japiassu | comentários(3)
23/12/2009 10:57 TECNOLOGIA MINEIRA<
O considerado Symphronio Veiga, brilhante jornalista e pesquisador dos passos do Homem sobre a Terra, enviou diretamente de uma caverna do interior de Minas:
Durante escavações nos estados do Rio de Janeiro, arqueólogos
fluminenses descobriram, a 100 m de profundidade, vestígios de fios de
cobre que datavam do ano 1000 dC.
Os cientistas cariocas concluíram que seus antepassados já dispunham
de uma rede telefônica naquela época.
Os paulistas, para não ficarem atrás, escavaram também seu
subsolo e encontraram restos de fibras óticas a 200 m de profundidade.
Após minuciosas análises, concluíram que elas tinham 2000 anos de idade.
Os cientistas paulistas concluíram, triunfantes, que seus antepassados
já dispunham de uma rede digital à base de fibra ótica quando Jesus
nasceu!
Uma semana depois, em Belo Horizonte, foi publicado por cientistas
mineiros o seguinte estudo:
Após escavações arqueológicas no subsolo de Picirica, Setilagoa, Betim, Barbacena, Passa-Quato, Jijifó, Sans Dumont, Pouso Alegre, Santantoin do Monte, Varginha, Nanuque, Águas Formosas, Moncarmelo, Carnerim, Lagoa Dorada, Sanjão Del Rei, Beraba, Berlândia, Belzonte, Bosta do Raguari,
Divinópis, Pará de Mins, Furmiga, Vernador Valadars
e ainda Toflotôni, Piui, Carmo do Cajuru, Lagoa Santa, Morro do Ferro, Biraci e diversas outras cidades mineiras, até uma profundidade de 500 metros, não foi encontrado absolutamente nada.
Concluiu-se então que os antigos mineiros já dispunham há 5000 anos de uma rede de comunicações sem-fio: "wireless".
Nota dos arqueólogos: Por isso se pronuncia "UAI" reless. Moacir Japiassu | comentários(1)
23/12/2009 10:45 POEMA DE NATAL
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
(Vinicius de Moraes) Moacir Japiassu | comentários(0)
17/12/2009 09:07 ALMOÇO DE GRAÇA
A Câmara analisa proposta da Comissão de Legislação Participativa (CLP), que deixa de considerar como fraudes os atos de comer em restaurantes, hospedar-se em hotéis e usar transporte sem o dinheiro necessário para pagar por esses serviços. A proposta revoga o artigo 176 do Código Penal (Decreto-Lei 2.848/40), que prevê pena de detenção de 15 dias a 2 meses ou multa para a pessoa que praticar esses atos.
O projeto foi sugerido à comissão pelo Conselho de Defesa Social de Estrela do Sul (Condesesul), cidade de Minas Gerais. A entidade sustenta que essas condutas são de menor potencial ofensivo e devem ser consideradas apenas como ilícitos civis. Nesse caso, as sanções incluiriam indenização, restituição, multa e despejo, entre outras.
Segundo o integrante do Condesesul Andre Luiz Alves, o artigo do Código Penal que se pretende revogar pressupõe má-fé do consumidor, o que nem sempre é verdade. "Às vezes, a pessoa vai almoçar, percebe que não tem o dinheiro e é presa por causa disso. Há uma presunção de dolo e má-fé, sendo que é o contrário. Se ficar provada a má-fé, existe o artigo 171, que é o do estelionato. O comerciante não estará desprotegido", argumenta. O projeto será analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) e pelo Plenário da Câmara.
DEONÍSIO DA SILVA
Esta frase foi atribuída, entre outros, a Milton Friedman, a John Maynard Keynes e a Antonio Delfim Netto. Foi muito citada por diversos economistas na década de 1960, mas depois que Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia, a utilizou como título de um livro que lançou em 1975, tem sido atribuída com mais freqüência a ele do que a outros. O livro de Friedman tem pequena variação no título: "There’s no such thing as a free lunch". E está esgotado, mas um exemplar usado pode ser adquirido na Amazon por US$ 55,34 (Pub Group West, 318 páginas).
A frase surgiu num boteco de Nova York, na primeira metade do século 19. O dono servia petiscos e sanduíches aos fregueses entretidos em jogos de carta, mas os advertia de que não existia almoço de graça. Isto é, que ele cobraria dos jogadores distraídos o que estava servindo. Tornando-se proverbial, foi recolhida nos EUA, em compêndios de ditos, frases célebres e citações.
Para se ter uma idéia de como a frase é citada por todos os cantos, foi invocada há pouco tempo, entre outras, pelas seguintes personalidades:
**
Alan Greenspan, presidente do Banco Central dos EUA, com uma pequena variação: "The free lunch has still to be invented" (o almoço de graça ainda não foi inventado);
**
Fausto Faria, ex-prefeito de Rondonópolis: "Nada pior para a saúde da democracia e das pessoas do que a vitória de candidatos que pensam permanentemente em ‘almoço de graça’. Estarão, a todo momento, transferindo a conta para os eleitores desatentos que contribuíram para o seu sucesso.
**
Pedro Jaime Ziller, presidente da Anatel: "A universalização das telecomunicações também está embutida na assinatura mensal. Não tem almoço de graça, alguém tem que pagar por ele".
**
Rabino Kalmon Packouz: "A nossa época é de constante procura pelo prazer instantâneo e imediato. As pessoas também querem espiritualidade instantânea. Querem algo que lhes propicie comunicação instantânea com Deus e um sentimento de espiritualidade e santidade. Como diz o provérbio: ‘Não existe almoço de graça!’"
**
David Lodge, no título de um livro "Um almoço nunca é de graça" (a edição portuguesa é da editora Gradiva).
Leia também "O novelo da novela", do Mestre Deonísio da Silva, no Observatório da Imprensa. Moacir Japiassu | comentários(0)
17/12/2009 09:00 GABRIEL – A VISITA<
O anjo disse-lhe: Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus; eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus: este será grande, será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi (Lucas, 1, 30-32)
Vieste dizer que vinha o Sol
e veio o galo cantar três vezes
só para negar o Menino;
viajaste nas nuvens
para que chovesse
e uma tempestade de pó
cobriu plantas, casas e animais
com um manto seco e sinistro;
carregaste bênçãos em teu bornal
e a serpente da maldição
nelas se escondeu;
deste conta de graças
e a desgraça as acompanhou,
à sorrelfa;
contaste à Virgem
que seu Bebê obraria maravilhas
e Seus irmãos O executaram,
de tocaia;
trouxeste a boa nova
de um Pai severo
e a Mãe se derreteu
em gozo e delícia,
mas a desmancharam
em pranto e cólicas.
Ainda assim, o fogo que ateaste
fez arder a sarça
e alumiou a noite escura;
e o amor que anunciaste
deu rumo a um rebanho tresmalhado
e civilizou uma raça de bárbaros.
Volta, Arcanjo,
desce e entrega
novas propostas de paz
e cartas com letras de luz.
Canta hinos de encantar a vida
para espantar a morte
e faz brotar do imprevisto deserto
e mesmo do impossível mar,
que não virou sertão,
algo que se possa chamar de
futuro.
José Nêumanne Pinto
Campina Grande, 5 de janeiro de 2003.
Moacir Japiassu | comentários(0)
10/12/2009 09:16 SÉRGIO AUGUSTO
Nas livrarias, dois mimos para quem gosta de beber, comer e ler: um livro de drinques, outro de quitutes, ambos centrados nas obras e preferências de dezenas de escritores famosos. A editora Zahar serve as bebidas: “Guia de Drinques dos Grandes Escritores Americanos” (111 págs, R$34,00); e a Argumento, as comidas: “A Sopa de Kafka” (93 págs., R$32,00).
Qual o melhor? Se não admitimos comparar um grand cru com um entrecôte, como cotejar uma coletânea de coqueteis com “uma história da literatura mundial em 14 receitas” culinárias? Sabemos todos que os coqueteis são servidos na frente, mas como não se deve beber de estômago vazio, permitam-me que eu comece pela comida.
A sopa de Kafka é a terceira receita que o fotógrafo e parodista inglês Mark Crick oferece em sua deliciosa salada literária. Precedida por um cordeiro ao molho de endro (à la Raymond Chandler) e ovos com estragão (à la Jane Austen), é uma “sopa rápida de missô”, daquelas que se improvisam quando visitas inesperadas nos batem à porta. Sua confecção pressupõe que tenhamos à mão um pote de missô fermentado, um pedaço de tofu macio, quatro ou cinco cogumelos pequenos e algumas folhas de alga wakame. Difícil imaginar tais ingredientes dando sopa numa despensa de Praga do início do século passado, menos ainda na geladeira de Franz Kafka, cujos dotes culinários mal davam conta de um chá com torradas.
Já nos levaram à mesa com Monet (acompanhados pelo chef Joël Robuchon), à cozinha de Toulouse-Lautrec, Proust, Eça de Queiroz e outros mais. Até mesmo de Virginia Woolf e Thomas Pynchon tentaram extrair dicas gastronômicas. Sem inventar nada: Woolf falou de um ensopado de carne em cubos em “Rumo ao Farol”; Pynchon se referiu a uma guloseima de bananas em “O Arco-Iris da Gravidade”. No livro de Crick, tudo é fruto da imaginação. Para degustá-lo a contento é preciso, como nos contos de fadas e nos filmes de Hitchcock, suspender a descrença.
Só assim não acharemos estranho que Proust figure na antologia fissurado num tiramisù, não numa madeleine, e Homero narre a pequena odisseia de um quitute à base de coelho, inventado na ilha de Malta e desconhecido pelos contemporâneos de Aquiles. Ao parodiar com mestria o estilo de Proust e Homero, assim como o dos demais chefs literários por ele selecionados, Crick torna a autenticidade dos textos irrelevante. Dos 14 pratos por ele inventados, o mais simples traz, como não podia deixar de ser, a assinatura do dramaturgo Harold Pinter: um frugalíssimo queijo com torrada. Moacir Japiassu | comentários(0)
10/12/2009 09:14
(Segunda parte)
Agora, ao coquetel.
Mark Bailey teve a ideia de fazer o seu guia dos drinques ao constatar, justo numa conversa de bar, que aqueles que escrevem—romances, poemas, ensaios, roteiros, peças, reportagens etc—não só adoram beber como costumam beber além da conta. “Nos bons e velhos tempos, o mito do escritor bom de copo não era apenas um mito”, diz ele na introdução, na qual também explica como chegou aos 43 nomes do seu escrete etílico. Tarefa simples.
Os maiores pinguços das letras americanas—Edgar Allan Poe, Jack London, William Faulkner, F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Eugene O’Neill, Dashiell Hammett, Dorothy Parker, Raymond Chandler, Raymond Carver, entre outros—já haviam sido escalados, duas décadas antes, por Tom Dardis no excelente “The Thirsty Muse: Alcohol and the American Writer” (Ticknor & Fields, 1989).
Dispostos em ordem alfabética, cobrem de a (James Agee, Conrad Aiken, Sherwood Anderson) ao dáblio (Tennesse Williams, Edmund Wilson, Thomas Wolfe). Cinco deles ganharam o Nobel de Literatura, 15 conquistaram o prêmio Pulitzer. Todos, em algum momento, se deram mal com a bebida; a maioria teve sua criatividade drástica e precocemente reduzida; quatro se suicidaram: London, Crane, Hemingway e John Berryman.
Senti a ausência de dois expoentes da dipsomania literária: Malcolm Lowry (autor de um clássico da ficção alcoólica, “Sob o Vulcão”, que só aparece como coadjuvante de um porre com Aiken) e George Jean Nathan, irreverente crítico teatral dos anos 1930, celebrizado por uma frase que Paulo Francis adotou como divisa: “Bebo para tornar as outras pessoas interessantes”.
O binômio escritor-alcoolismo é um fenômeno eminentemente americano. Alexis De Tocqueville, Charles Dickens e outros visitantes europeus foram os primeiros a notar a submissão dos “artistas da palavra” da América à “sedenta musa”. Poe adorava absinto; Fitzgerald, Chandler, James Thurber e Williams entregaram-se ao gim; London, Hemingway e John O’Hara não resistiam ao rum; Truman Capote só não usava vodca para bochechar; Parker trocou o gim pelo uísque e este pelo champanhe, mas nem assim livrou-se da depressão; qualquer drinque à base de tequila deixava Jack Kerouac ouriçado. Apesar de cervejeiro, H. L. Mencken orgulhava-se de ser onibíbulo, ou seja, de beber todas as bebidas alcoólicas conhecidas—e “gostar de todas elas”.
O scotch ainda lidera as preferências na categoria uísque, apesar da fidelidade de alguns autores sulistas ao bourbon. Faulkner era uma exceção: sempre mantinha uma garrafa de uísque ao alcance da mão quando escrevia. “Não há nada que um uísque não cure”, gostava de dizer. O’Neill ingeria uísque puro no café da manhã, e quando andou teso, entornou até benzina e verniz diluído em água. Embora sonhasse com passar o dia tomando cerveja, houve época em que Edmund Wilson calculou as despesas de casa em garrafas de Johnny Walker.
Mark Bailey teve a ideia de fazer o seu guia dos drinques ao constatar, justo numa conversa de bar, que aqueles que escrevem—romances, poemas, ensaios, roteiros, peças, reportagens etc—não só adoram beber como costumam beber além da conta. “Nos bons e velhos tempos, o mito do escritor bom de copo não era apenas um mito”, diz ele na introdução, na qual também explica como chegou aos 43 nomes do seu escrete etílico. Tarefa simples.
Os maiores pinguços das letras americanas—Edgar Allan Poe, Jack London, William Faulkner, F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Eugene O’Neill, Dashiell Hammett, Dorothy Parker, Raymond Chandler, Raymond Carver, entre outros—já haviam sido escalados, duas décadas antes, por Tom Dardis no excelente “The Thirsty Muse: Alcohol and the American Writer” (Ticknor & Fields, 1989).
Dispostos em ordem alfabética, cobrem de a (James Agee, Conrad Aiken, Sherwood Anderson) ao dáblio (Tennesse Williams, Edmund Wilson, Thomas Wolfe). Cinco deles ganharam o Nobel de Literatura, 15 conquistaram o prêmio Pulitzer. Todos, em algum momento, se deram mal com a bebida; a maioria teve sua criatividade drástica e precocemente reduzida; quatro se suicidaram: London, Crane, Hemingway e John Berryman.
Senti a ausência de dois expoentes da dipsomania literária: Malcolm Lowry (autor de um clássico da ficção alcoólica, “Sob o Vulcão”, que só aparece como coadjuvante de um porre com Aiken) e George Jean Nathan, irreverente crítico teatral dos anos 1930, celebrizado por uma frase que Paulo Francis adotou como divisa: “Bebo para tornar as outras pessoas interessantes”.
O binômio escritor-alcoolismo é um fenômeno eminentemente americano. Alexis De Tocqueville, Charles Dickens e outros visitantes europeus foram os primeiros a notar a submissão dos “artistas da palavra” da América à “sedenta musa”. Poe adorava absinto; Fitzgerald, Chandler, James Thurber e Williams entregaram-se ao gim; London, Hemingway e John O’Hara não resistiam ao rum; Truman Capote só não usava vodca para bochechar; Parker trocou o gim pelo uísque e este pelo champanhe, mas nem assim livrou-se da depressão; qualquer drinque à base de tequila deixava Jack Kerouac ouriçado. Apesar de cervejeiro, H. L. Mencken orgulhava-se de ser onibíbulo, ou seja, de beber todas as bebidas alcoólicas conhecidas—e “gostar de todas elas”.
O scotch ainda lidera as preferências na categoria uísque, apesar da fidelidade de alguns autores sulistas ao bourbon. Faulkner era uma exceção: sempre mantinha uma garrafa de uísque ao alcance da mão quando escrevia. “Não há nada que um uísque não cure”, gostava de dizer. O’Neill ingeria uísque puro no café da manhã, e quando andou teso, entornou até benzina e verniz diluído em água. Embora sonhasse com passar o dia tomando cerveja, houve época em que Edmund Wilson calculou as despesas de casa em garrafas de Johnny Walker. Moacir Japiassu | comentários(0)
10/12/2009 09:08 NULL (Terceira parte)
Quando bêbado, o casmurro James Agee, excelente crítico de cinema (a revista Serrote publicou em seu segundo número um ensaio dele sobre os grandes cômicos do cinema mudo americano), roteirista de John Huston, romancista e autor do texto de “Elogiemos os Homens Ilustres”, recém-lançado pela Cia. das Letras), ficava mais sociável, falante e engraçado. Depois, como outras vítimas dos efeitos retardados do álcool, virou um chato, um estorvo, um constrangimento social.
Faulkner bebeu compulsivamente durante quase 50 anos, esteve internado diversas vezes e até eletrochoques levou. Jamais reconheceu que a bebida só lhe causara prejuízo à saúde e à obra depois de 1942. Williams morreu em pré-coma alcoólico num hospital de Nova York, ao se engasgar com a tampa de um frasco de remédio.
O livro de Crick é uma libação do começo ao fim, repleta de carraspanas homéricas, receitas de coqueteis (devidamente testados e fieis ao espírito da época e ao gosto de cada escritor), e frases antológicas, como estas:
“A civilização começou com a destilação.” (Faulkner)
“Um poeta sem álcool não é um verdadeiro poeta.” (Conrad Aiken)
“Um homem não existe até que fique bêbado.” (Hemingway)
“Por três vezes me confundiram com um agente da Lei Seca, mas nunca tive
nenhuma dificuldade em desfazer o engano.” (Dashiell Hammett)
“Eu sempre queria beber quando havia alguém por perto. Quando não havia
ninguém por perto, bebia sozinho.” (Jack London)
“Bebo exatamente o quanto quero, e um drinque a mais.” (H.L. Mencken)
“Beber é uma forma de suicídio em que a gente pode voltar à vida e começar
tudo de novo no dia seguinte.” (Charles Bukowski)
“Primeiro você toma um drinque, então o drinque toma um drinque e depois o
drinque toma você.” (Velho ditado japonês reciclado por Fitzgerald)
“Beber fazia pessoas desinteressantes terem menos importância e, tarde da
noite, não terem importância alguma.” (Lilliam Hellman)
“É uma coisa muito, muito melhor do que jamais fizemos, ser discípulos de
Baco e não de Cristo.” (James Jones)
“Comecei numa quinta-feira. Sábado de manhã já estava sóbrio de tanto
beber.” (John O’Hara)
“Um Martini é bom, dois é demais e três é pouco.” (James Thurber)
Ilustrado pelo neto caçula (Edward) do filho caçula (Gregory) de Ernest Hemingway, o Guia dos Drinques é um livro tão divertido quanto leviano. Sou mais o ensaio de Tom Dardis, que não se compraz em valorizar o folclore dos bebuns em seus momentos de onipotente euforia. Dardis trata o alcoolismo como ele deve ser tratado, como uma doença, por vezes fatal. Moacir Japiassu | comentários(0)
10/12/2009 08:36 CELSO JAPIASSU
LEO
Este é um poema sobre o tempo quando Leo estava vivo.
É sobre despedidas , acenos de afogados
no horizonte das águas.
Cansáramos de amar as coisas simples.
O interesse da vida refletia apenas
indiferença em face do destino.
As lembranças haviam-se perdido no silvo
das locomotivas dos trens da Great Western.
Enredaram-se nas cercas,
apagaram-se no corpo adolescente.
Em noite construída pelo vento,
um rosto nos olhava da janela.
A chuva espraiava tédio e náusea,
o pensamento envolto na memória.
O mundo conduzia seus atores
- dupla face de comédia e drama-
em palcos instalados sobre a vida
em busca da palavra.
Rente aos aveloses,
aveludado pelo vento ao fim da tarde,
o mesmo rosto ainda olhava
e se entregava a seu tormento.
A tarde, revolvida pela noite,
construía formas de esperança.
O inconsciente resvalava a eternidade
e o breve instante da vida
se enlaçava em seu momento. Moacir Japiassu | comentários(0)
03/12/2009 10:27 NOTA DEZ
DILMA, O EU E O MIM
Ainda convalescendo do espanto, transfiro para o Direto ao Ponto o comentário do jornalista Celso Arnaldo que acabo de ler. Segurem-se:
Há imagens que não falam por si e áudios que dizem tudo.
Ligo o rádio do carro, hoje cedo, e ouço o locutor anunciar que Dilma - embora tenha começado a aparecer na TV com a pompa e a circunstância de presidenciável, nos primeiros teasers de sua campanha - ainda não se considera candidata do PT à sucessão do Lula, aliás sequer pré-candidata. Entra o áudio de Dilma, naquele inconfundível “um tom acima”:
- Pra mim sê pré….
Para por aí. Não interessa o que vem depois (”…tenho que passar pela convenção do PT”). Esse “Pra mim sê pré” poderia ser, quando nada, a mais curta e cruel (contra seu autor) frase internada no Sanatório. E, se eu tivesse tempo e interesse, seria o título, o mote e o resumo de uma longa tese de mestrado sobre o mais absoluto e chocante equívoco político da história de nossa República.
“Pra mim sê pré”: quatro monossílabos, cada qual contendo um erro essencial ou uma corruptela vulgar. Mas o “pra mim ser” ultrapassa qualquer barreira da desarticulação linguística. Eu, se sou RH, desclassifico na hora o candidato a vaga de assistente administrativo que diga “pra mim fazer” - mesmo que tenha quase mestrado e quase doutorado no currículo. Porque é erro incorrigível - já integra a estrutura mental de quem acha que mim conjuga verbo.
Por experiência própria, pessoas que falam “pra mim fazer” falarão “pra mim fazer” a vida toda, mesmo sendo corrigidas a vida toda.
No caso de Dilma, a prosódia troncha, de mineira de fachada, ainda transforma o ser em “sê”, o que dá à frase uma conotação sonora sincopada, meio mística.
“Pra mim sê pré”: um mantra à suprema ignorância humana.
Abraço
Celso Arnaldo
Volto para o curto registro: perto de Dilma Rousseff, Lula é um Machado de Assis. Moacir Japiassu | comentários(0)
03/12/2009 10:20 NEI DUCLÓS
O TREM
Nunca vamos aprender
que andar é o caminho e que
os destinos, no começo
ou no final da jornada, são mais
precários do que qualquer sonho
despertado no meio da
noite, quando vemos o teto do
vagão sumir para que
possamos ver as estrelas.
Isso tem me acontecido
ultimamente. Deito e olho para
cima, e vejo novamente o
céu que deixei há poucos instantes.
Com todas as estrelas e
fiapos de nuvens, o que torna
a visão ainda mais verossímil.
É como acampar sem barraca,
contar estrelas cadentes, seguir o
risco de satélites que usam as
constelações como parada.
No fundo da madrugada, o trem
pára novamente.
Olhamos pela janela, que
também dorme. Uma luz cercada
pelo fogo-fátuo das mariposas
nos diz que ali é um ponto
conhecido, por onde passaremos
mais uma vez em direção
ao que não nos consola.
Crianças se agitam, senhores do
povo conversam baixo
sobre pescarias e negócios. Há
um cheiro de cabelos engomados,
de chapéu de feltro, de xales
de lã. Onde estou?, me pergunto.)
(Texto à pág. 101 de "O Refúgio do Príncipe")
Moacir Japiassu | comentários(0)
26/11/2009 09:53 NOTA DEZ
SANTAYANA NO JB!
A movimentação diplomática do Brasil, tendo à frente a personalidade peculiar de seu atual chefe de Estado, vem sendo criticada pela oposição e meios de comunicação, e de forma ainda mais contundente, quando se dispôs a receber o presidente do Irã. Houve passeatas, muito bem organizadas, com dísticos e faixas caras, contra o visitante. Não houve os mesmos protestos quando o presidente recebeu, há poucos dias, o presidente de Israel.
O presidente do Irã é alvo da ira geral do Ocidente porque, em seu confronto com Israel – única potência nuclear do Oriente Médio – nega o Holocausto. Ele se inclui entre os revisionistas, alguns alemães, outros ingleses, outros ainda da hierarquia da Igreja, que também negam a existência dos campos de extermínio, ou tentam diminuir o número de mortos, judeus e não judeus, nos campos de concentração. Os judeus, os comunistas, os ciganos e os eslavos foram as vítimas preferenciais dos nazistas, dizimados pelo trabalho forçado, pela fome e pelo gás.
Há farta documentação do que ocorreu entre 20 de janeiro de 1942, quando os nazistas decidiram, no encontro de Wannsee, programar a “solução final” para o problema judaico, e 17 de janeiro de 1945, quando os soviéticos ocuparam o campo de Auschwitz. Nos três anos, milhões de seres humanos foram chacinados pelos nazistas. O presidente Ahmadinejad sabe disso, mas, em sua luta contra Israel, nega-se a aceitar a História. Se foram 6 milhões, 600 mil, ou 60 mil, o crime é o mesmo. Não é o número de vítimas que nos deve espantar, e sim a presunção de superioridade racial de que se arrogavam os alemães para a prática do genocídio.
O mesmo sentimento de horror que nos leva ao confrangimento da alma, diante do que fizeram os alemães, nos atinge, quando assistimos ao que se passa na Palestina. Não há, diante das tragédias de nosso tempo, bons culpados e vítimas más. Há culpados e há vítimas. A maior oposição que se faz ao Estado de Israel, e com razões históricas, é o fato de que os palestinos tenham sido privados de sua terra, privados de água, submetidos ao bloqueio de comida e de remédios, além de cercados pelo muro e bombardeados. Os palestinos nunca fizeram progroms, como os eslavos, jamais mandaram queimar judeus – como os cristãos, em Basileia, e em outros lugares. Não os submeteram aos autos de fé, como os ibéricos, durante a Inquisição. Não os eliminaram nos campos poloneses. Não lhes cabe purgar os crimes do antissemitismo, quando eles também são semitas, tanto quanto os que lhes ocupam o solo.
Estabeleceu-se, pela força do convencimento dos meios mundiais de comunicação, que os palestinos são terroristas, e os israelenses, democratas. Não nos incluímos entre os que admiram o presidente do Irã. Algumas de suas declarações espantam pela falta de senso. Mas não lhe falta bom senso quando defende o direito de o Irã desenvolver pesquisas nucleares. Se os iranianos são ameaça a Israel, com seu projeto, os senhores da guerra de Israel, que já dispõem de artefatos nucleares, como orgulhosamente proclamam, e anunciam que irão, são ameaça ainda maior. Nada os faz com mais ou com menos direitos no mundo. Nem a fé religiosa, nem os hábitos cotidianos. A língua persa não é menos importante do que a hebraica, com sua rica literatura. Nem o presidente Ahmadinejad é menos chefe de Estado pelo fato de dispensar o uso da gravata.
O segredo do presidente Lula é a sua percepção de homem comum. Ele acha, e com razão, que uma boa conversa pode resolver os problemas, desde que haja boa-fé entre todos os interlocutores. Disso se deu conta Obama que pediu, pessoalmente, a Lula, durante o encontro do G-8, em Áquila, na Itália, no dia 9 de julho deste ano, que tentasse demover Ahmadinejad de desenvolver armas nucleares – conforme disse, no mesmo dia, à imprensa, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs. Ao que parece, o New York Times não cobriu o encontro de Áquila.
Os opositores domésticos de Lula se esquecem disso. Os Estados Unidos que admiram não é o de Obama, mas o de Bush e Chenney. É difícil que o presidente consiga, no Oriente Médio, uma paz negada há mais de 60 anos. Mas, se ele conseguir negociações entre as partes envolvidas, mesmo com progressos limitados, será bom para o mundo. Não são todos os judeus de Israel que querem eliminar os palestinos e bombardear Teerã, e nem todos os muçulmanos desejam o fim de Israel. É contando com eles que Lula busca a paz. Moacir Japiassu | comentários(1)
26/11/2009 09:49 SÓ
era um homem que fumava
e o mundo se resumia
àquela fumaça
que saía de seu cigarro
quando sentava na calçada
olhando o outro lado do mundo
não era fumaça branca
porque não havia paz em sua alma
e depois do último trago
tossia
três
vezes
seguidas
(mas não chorava).
(Poema inédito de Linaldo Guedes) Moacir Japiassu | comentários(0)
19/11/2009 10:17 BOTAFOGO!!!
O GLORIOSO!
* Heleno chegou e, logo no primeiro treino, em 1948, Nílton Santos aplicou-lhe aquele seu tradicional drible de corpo; o estreante xingou o marcador e Nílton reagiu dizendo que quem sabia de Heleno era Zizinho. Quando Zizinho encontrou Nílton, reclamou. E Nílton disse:
- Ziza, você é meu ídolo. E foi o primeiro nome que me surgiu na hora...
* João Saldanha espalhava para todos que fizera parte da Grande Marcha de Mao Tsé-Tung sobre Pequim, em 1949. Aí seu amigo e também botafoguense Sandro Moreyra, gozador como sempre, divulgou esta versão:
João estava tão colado em Mao, na entrada em Pequim, que a certa altura pisou no pé do líder chinês. Mao, de bom humor, só teve uma reação:
- Pôla, João...
Sandro jurava que em 1949, ano da Revolução, João desfrutava as delícias do sol no Arpoador.
Quando soube, por um dedo-duro, da história do pisão no Camarada Mao, João foi armado até a Redação do JB para dar uns tiros em Sandro. Mas a turma do deixa-disso evitou o infausto acontecimento. Moacir Japiassu | comentários(1)
19/11/2009 10:14 TALIS
O SUMIÇO DA TORRE
Na viagem de volta me perdi
na rua em que nasci
Derrubaram casas e árvores
Na estranha paisagem
não encontrei nenhum abrigo
nenhum amigo
A rua que o mapa registra
não é a rua em que nasci
Não sei mais onde estou
Não encontrei viva alma
que tivesse conhecido
nos bancos da escola
nos banhos de rio
nas festas de santo
nas danças de rua
Talvez tenha cruzado
com Rapunzel
que vivia no alto
de uma alta torre
Talvez Rapunzel
cortou as douradas tranças
Talvez Rapunzel
nunca existiu
Pelas ruas do bairro em que vivi
o meu reino de menino
não encontrei nenhum abrigo
nenhum amigo
A torre era um ponto de referência
A torre em que eu sonhava
países nunca vistos
Eu não sei mais onde estou
Eu não sei mais para aonde ir
Na viagem de volta me perdi
na rua em que nasci
(Extraído de "Os Herdeiros da Rosa") Moacir Japiassu | comentários(0)
12/11/2009 10:32 NOTA DEZ CULPAR A VÍTIMA
Hélio Schwartsman, da equipe de articulistas da Folha
Culpe a vítima. Essa foi a estratégia utilizada pela Uniban para, vá lá, "reduzir os danos" provocados pelo "affaire" Geisy. Acho que não chamaram ninguém do Departamento de Marketing para a reunião que definiu a expulsão. Nem da Pedagogia, nem o professor de Ética (se é que têm um).
Chamaram apenas alguém do Jurídico, o qual concluiu que a agora ex-aluna violou o artigo 215 e seguintes do Regimento Interno da universidade, ao usar "trajes inadequados" e fazer "percursos maiores que o habitual".
Não é preciso pós-graduação em astrologia para perceber que o impacto da decisão não é dos mais auspiciosos para a universidade.
Conseguiram transformar o que já era um pesadelo de relações públicas naquilo que o pessoal das Letras Clássicas chamaria de "defaecatio maxima" -e que o pudor que faltou aos dirigentes da instituição me impede de traduzir.
A provável ação indenizatória que Geisy moverá contra a escola acaba de ter seu valor majorado. A Uniban também deve ter perdido potenciais candidatos a estudante. Eu, pelo menos, pensaria várias vezes antes de matricular meus filhos numa faculdade que busca proteger um bando de arruaceiros atacando o elo mais fraco.
A estratégia de culpar a vítima é bem conhecida. Se uma garota foi estuprada, ela é pelo menos parcialmente responsável por seu destino: de alguma forma, provocou o estuprador, seja por utilizar roupas insinuantes, seja por meio de atitudes libidinosas. Afinal, nada acontece "de graça".
A psicologia explica tal atitude como um autoengano que visa a nos manter em posição de controle: se eu não me comportar "mal" como a "vítima", não estou sujeito ao mesmo risco. Tal operação mental nos permite persistir na crença de que o mundo é um lugar justo. Não é, como a Uniban acaba de demonstrar exemplarmente Moacir Japiassu | comentários(0)
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