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BLOGSTRAQUIS
por Moacir Japiassu
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11/05/2012 09:56
NOTA DEZ PARA JOSÉ NÊUMANNE PINTO



‘CARCARÁ’ E FALCÃO CONTRA

A LIBERDADE DE EXPRESSÃO


Rui Falcão, presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), e Fernando Collor de Mello, que há 20 anos renunciou à Presidência da República sob acusações de corrupção e atualmente é senador governista, exibiram publicamente seu desapreço comum pela liberdade de expressão.

Como registrou este jornal na editoria Nacional, no sábado, o petista deu uma informação inusitada em encontro realizado em Embu das Artes para discutir estratégias eleitorais do partido. Segundo ele, a presidente Dilma Rousseff “poderá” (atente para o verbo usado) pôr em discussão o marco regulatório da mídia depois de acertar as contas dos juros altos com os banqueiros. “Este é um governo que tem compromisso com o povo e que tem coragem para peitar um dos maiores conglomerados, dos mais poderosos do País, que é o sistema financeiro ou bancário. E se prepara para um segundo grande desafio, que (sic) iremos nos deparar na campanha eleitoral, que é a apresentação para consulta pública do marco regulatório da comunicação”, pontificou.

Em teoria, a presidente da República tem poderes constitucionais para, por exemplo, declarar guerra aos Estados Unidos ou ao Paraguai. Ninguém acredita que o fará. Mas Falcão espera que ela declare guerra aos meios de comunicação. Ela pode desejar. Mas ele poderá influir ou mesmo informar a respeito, sendo presidente nacional do partido em que milita a presidente e ocupando uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo? Não consta que nenhum de seus cargos o torne porta-voz da presidente ou do governo federal, no qual é um zero à esquerda como o autor destas linhas e a quase totalidade dos que as leem. Como não consta que a presidente da República seja obrigada a cumprir o que determina o principal dirigente da legenda pela qual se elegeu, a autoridade dele para anunciar o que o governo dela fará é igual à de um marronzinho anônimo ou do bispo de Santo André.

Nada há, pois, a temer quanto às consequências de suas bravatas contra a liberdade de imprensa gozada nesta República, que, felizmente, não é uma republiqueta de bananas. Elas devem provocar idêntico susto (que ninguém sentiu) ao de quando Collor assumiu o encargo de atrapalhar a cobertura da imprensa na CPI de Carlinhos Cachoeira.

Há, sim, que esclarecer os motivos do desprezo de ambos pelo jornalismo. Falcão e Collor são profissionais de imprensa. O currículo do petista revela sua passagem por jornais importantes e por ele se constata que dirigiu a redação da Exame, revista que propaga e defende o capitalismo, que o deputado execra. Sabe-se lá que mágoas ele guarda de seus antigos patrões ou os dilemas de consciência que teve de ultrapassar para editar o noticiário e os artigos de uma publicação que nega todos os princípios do socialismo, que ele abraçou e seguiu depois de trocar a profissão de jornalista pela militância política num partido de esquerda. É possível entendê-lo, mas não dá para justificá-lo. A transposição de ódios pessoais para o ideário político não faz bem ao profissional nem ao cidadão.

Ao contrário dele, Collor foi apenas um “foca” (iniciante) que não chegou a seguir carreira, trocando-a pela atividade política, em que atingiu o posto máximo que alguém do ramo pode almejar, sem, porém, conseguir dar nenhuma amostra de mérito pela vertiginosa ascensão. Foi na carreira pública, e não no ofício jornalístico, que o ex-presidente encontrou seus motivos para, mais do que o outro, detestar os meios de comunicação em geral e, em particular, a liberdade de informação e opinião. Afinal, jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão revelaram à sociedade as estripulias da “República de Alagoas”, que ele e seu anspeçada PC Farias aprontaram em Brasília.

O “Carcará Sanguinollento” nunca perde a oportunidade de se dizer inocente das acusações contra ele publicadas, usando como argumento o fato de nunca ter sido condenado pela Justiça. É verdade, contudo, que essa evidência não elimina outra: a de que ele deixou de ser o poderoso presidente de uma “República monárquica” e hoje não passa de um obscuro senador por Alagoas, Estado que governou depois de ter sido prefeito da capital, Maceió. Livre de cumprir condenação judicial e usufruindo sem restrições os bens que amealhou, ele é agora um acólito do baixo clero sempre disposto a fazer o serviço sujo para os novos patrões, por ironia do destino, seus mais brutais algozes, os principais responsáveis por sua derrocada. A ponto de se oferecer, sem que ninguém tivesse encomendado ou mesmo pedido, para atrapalhar a cobertura da CPI no Congresso Nacional

A pouca prática de Collor e a notória carreira de Falcão no jornalismo não bastaram para que ambos aprendessem uma lição elementar: o direito à livre informação e à opinião plural não é dos concessionários dos canais de rádio e televisão nem das empresas proprietárias de jornais e revistas, mas do cidadão. Comunicação não é um negócio como os bancos, mas um ofício que depende da aprovação de seu cliente, o cidadão, que exige ser bem informado para poder decidir sobre o próprio destino. Assim funciona o Estado de Direito.

Aliás, a página deste jornal que expôs o destampatório do deputado também publicou o anúncio feito pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Britto, de que o Judiciário fará “até campanhas esclarecendo o conteúdo da decisão do Supremo (que derrubou a Lei de Imprensa em 2009), que foi pela plenitude da liberdade de imprensa”. Para tranquilidade geral da Nação, que quer continuar a ter acesso à informação livre e à opinião plural, a presidente Dilma Rousseff tem feito reiteradas declarações no mesmo sentido desta. O ódio de Falcão, coerente com o sobrenome, mas contrário ao pedido de “luz” do poeta alemão Goethe, seu segundo nome, e de seu novel companheiro Collor terá, assim, o destino das iniciativas anteriores: o lixo da História.

Moacir Japiassu | comentários(0)



11/05/2012 09:53
AVENTURAS NA HISTÓRIA


Maio 2012

Comentários

Apresentação da edição do mês:

“Ele condenava a “moral cristã” de forma virulenta e, até que Lira o encontra-se [sic], foi mantido em segredo por ordem expressa […]”

Parece que o corretor ortográfico causou esse erro.



“MAIO na História”

3 1808 “Insurgentes de Madri que se rebelaram contra a ocupação do país por Napoleão são fusilados [sic] no dia seguinte à revolta”

Desta vez de quem foi a falha?

10 1497 “Américo Vespúcio supostamente [sic] deixa Cadiz, na Espanha, rumo ao Novo Mundo”

Vespúcio saiu mesmo de Cadiz nesse dia. O ‘supostamente’ seria o seu destino; não é?

21 1260 “O navegador português João da Nova descobre a ilha de Santa Helena, futuro cenário do exílio e da morte de Napoleão Bonaparte, no sul do Atlântico.”

A linha do equador divide este oceano em Atlântico norte e Atlântico sul. A ilha de Santa Helena, tal como Fernando de Noronha, está no Atlântico sul e não no ‘sul do Atlântico’.



“Bandeira & Brasões”

“No fim da Guerra Hispano-Americana, em 1898, a Espanha abriu mão das colônias Cuba e Porto Rico, no Caribe. Eram os EUA fazendo valer a Doutrina Monroe, que afastou de vez os europeus do continente americano.”

Não foi assim tão radical. Continuaram existindo as Guianas Holandesa, Inglesa e Francesa. Esta última continua até hoje como colônia europeia. Também Honduras Britânicas (Belize, atualmente ‘independente’). A relação é grande (vide e-mail enviado em separado). Não esquecendo as Malvinas (ditas Folklands), com os ingleses.



“A estrela identifica Porto Rico como um estado americano.”

Embora acima esteja dito corretamente que Porto Rico é um Estado associado com os EUA, a informação junto à bandeira leva ao entendimento que seria mais um dos estados dos EUA, o que não é o caso.



p. 16 – “Congelado no Tempo”

“E essa (zona tampão da ONU) tem nada menos do que 347 km2, um pouco mais de 4 (quatro) vezes o tamanho de Manhattan.”

Não é só traduzir do inglês. É preciso fazer as devidas adaptações para os leitores do Brasil. Quantos de nós teriam noção do tamanho de Manhattan? Muito melhor comparar com o tamanho de uma cidade brasileira. Que tal Santos, por exemplo?



p. 18 - A legenda da foto informa: “Canadenses mortos na praia: nada deu certo”, mas a fotografia mostra o que parecem ser dois soldados feridos, um deles numa padiola, com uma das pernas dobrada, posição também do outro, com a mão na cabeça. Não parecem mortos.



p. 21 - 1818- 1930 – Plataforma Itália

“Na década de 1930, a cantora portuguesa Carmen Miranda popularizou as sandálias

plataforma […]”

= a cantora brasileira Carmen Miranda, nascida em Portugal (se quiser dar essa informação irrelevante).

p. 24 - “A cidadela de Aleppo

“O guardião da cidade de Antiguidade é obra de várias gerações e culturas”

Se é a cidadela, do gênero feminino, o guardião, do gênero masculino, não concorda.



p. 26 “O fotógrafo noir”

“Suas imagens mais conhecidas são corpos estendidos nas calçadas (como o do estivador [sic] David Beadle, acima)”

A foto mostra um homem vestido com terno e chapéu (caido no chão). Pode ser um porteiro de hotel (vide a faixa no punho da manga esquerda). Nunca um estivador.



Matéria da Capa- “O jovem Getúlio Vargas”

p. 31 - Por que “Theatro São Pedro”, com TH? Teatro se escreve sem a letra H há muitíssimos anos. Agora, surgiu a mania descabida de denominar o Teatro Municipal do Rio (e o de São Paulo também) com TH.

p. 36 – “A relação entre os dois (Dutra e Getúlio) só azedou quando Getúlio, com a 2ª Guerra, resolveu alinhar-se com os países democráticos (ou seja, com os EUA) – Dutra era germanófilo.”

A afirmativa não está correta. Dutra continuou como Ministro da Guerra de Getúlio até o fim desse governo (1945), e ainda com o envio de tropas brasileiras para lutar na Itália contra o Eixo.

p. 37 – “As histórias (de 1915 e 1920) contribuiram para afundar Getúlio ainda mais no “mar de lama, em 1954.”

Nada a ver. As acusações de Lacerda eram sobre um empréstimo dado irregularmente pelo Banco do Brasil ao jornal Ultima Hora, fundado por Samuel Wainer para apoiar Getúlio, enquanto que o jornal Tribuna da Imprensa, criado por Carlos Lacerda, lutava com problemas financeiros.

p. 37 – mais adiante:

“Havia a suspeita de que ele (Gregório Fortunato) assumiu o crime para proteger o mandante, Benjamim Vargas, o “Bejo”, filho [sic!] de Getúlio.”

Bejo era irmão de Getúlio! (Essa foi braba!)



p. 44 – “Pedra por pedra”-

“Muitos turistas brasileiros que vão para a Flórida procuram o estado americano por causa de um castelo.”

A preposição ‘para’ se usa quando o sujeito vai ficar no local do destino: “os japoneses imigraram para o Brasil”. Quando a viagem tem um retorno previsto, a preposição é ‘a’: “Muitos turista que vão à Flórida […]”



* p. 44 – Monastério –

Embora ‘monastério’ seja palavra espanhola, é também palavra dicionarizada do idioma português. Entretanto acho que se deve procurar usar ‘mosteiro’, termo bem português, e até menor: Mosteiro de São Bento, Mosteiro dos Jerônimos.



* p. 56 – As datas são incoerentes: Von Schönwerth passou temporadas fazendo trabalho de pesquisa em 1860 e 1861, mas teria publicado os três volumes dessa obra em 1857, 1858 e 1859, ou seja, antes da pesquisa.

Moacir Japiassu | comentários(0)



11/05/2012 09:51
IVANIR YAZBECK


Meu início de carreira como repórter também foi no Binômio, aqui em Juiz de Fora, em 1962, sob o comando de Fernando Zerlottini, e ao lado de Fernando Gabeira e Geraldo Mayrink. Como se vê, comecei em boa companhia (e bota boa nisso!). Depois, sempre seguindo os passos de Gabeira, trabalhei no Correio de Minas (você estava lá, e mais Samuel Dirceu, Fernando Mitre, o craque Carlyle Guimarães, etc.) e na revista Alterosa (Roberto Drummond, Henfil, etc). Minha passagem por BH durou de julho de 1963 a abril de 1964, antes de me transferir para o JB, ponto de partida de uma carreira de 32 anos na imprensa carioca.
Tudo isso para dizer que...
As notícias abaixo foram inspiradas numa página que o "Jornal Sete" (uma aventura da qual participei por alguns meses em Juiz de Fora, num inervalo de minha trajetória no Rio), em 1970. Era um semanário, o nosso "Pasquim", e nele havia uma página, intitulada "Jornal Impossível", contendo as notícias mais absurdas. Inspirados nessa página, eu e mais uns amigos costumamos nos divertir com essa brincadeira de bolar notícias que nos divertem pelo inusitado. Não resisiti a essas, que envio para o seu deleite...


1

O arquiteto Oscar Niemeyer está internado com pneumonia
e seu estado inspira cuidados devido à idade: 104 anos.
Apesar disso, sua mãe está confiante na recuperação:
"Logo estará em casa, bem de saúde, se Deus quiser. "

2

Marcelo Rossi despe a batina

e passa a integrar a equipe de

pastores de Edir Macedo

O ex-padre Marcelo Rossi confirmou ter aceitado proposta da Igreja Universal do Reino de Edir Macedo para reforçar a equipe de pastores da seita. O contrato será assinado durante evento que reunirá 200 mil fiéis, que se dispuseram a antecipar os próximos cinco dízimos para as despesas da transferência. Por tres anos, Marcelo Rossi receberá R$ 12 milhões para comandar as sessões de descarrego no horário nobre da Record.


3

Sociedade Protetora dos

Animais consegue na Justiça

proibir lutas pelo MMA



“Todos os seres vivos são animais, racionais ou não”, assim entendeu o Supremo Tribunal Federal para atender a Sociedade Protetora dos Animais no sentido de proibir a porradaria que come solta na tela da Globo, nas noites de domingo. Cabe recurso – “E ai do juiz que vetar o nosso passatempo” – ameaçou o técnico e lutador Minotauro, que, como todos os adeptos do vale-tudo, se situa no meio termo das duas classificações.

Moacir Japiassu | comentários(0)



04/05/2012 10:35
NOTA DEZ



A PRIVATIZAÇÃO DA DEMOCRACIA BRASILEIRA

Floriano Pesaro(*)

Interessa à população de São Paulo ceder um terreno público localizado no mais importante polo cultural da cidade ao Instituto Lula, cuja missão é cuidar do acervo histórico da gestão do ex-presidente e divulgar as suas realizações? Parece-me claro que não. O único beneficiado com essa transação será o PT e seu projeto de poder.

O projeto de lei 29/2012, do Poder Executivo, em tramitação na Câmara dos Vereadores, autoriza a concessão, sem concorrência, por 99 anos, de uma área pública na região central ao Instituto Lula.

São 4.300 m2, estimamos pelo mercado em até R$ 20 milhões, em uma região que começa a passar por intenso processo de requalificação. O projeto de lei nem sequer exige contrapartidas, à exceção da exigência de se abrir o espaço à visitação de escolas públicas.

Segundo o texto, no local será erguido um Memorial da Democracia, um museu para "dar visibilidade pública à cultura política democrática". Mais adiante no mesmo texto, é possível entender melhor o que se entende por isso: nele será disponibilizado "todo o acervo documental referente aos oito anos de mandato do presidente Lula".

Curioso e preocupante que justo o PT se arrogue o direito de portar a memória democrática do país.

Lembremos que esse é o partido que: expulsou seus deputados que votaram em Tancredo Neves; recusou-se a assinar a Constituição, marco da redemocratização, em 1988; e combateu duramente duas das maiores conquistas da nossa história recente, a estabilidade monetária e a austeridade fiscal, chegando ao ponto de ir à Justiça contra o Plano Real, em 1994, e contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2001.

O PT nunca fez uma autocrítica oficial quanto à sua posição nesses momentos cruciais do nosso amadurecimento democrático. Será que podemos confiar a ele o papel de guardião da memória coletiva de momentos como esses?

Tudo indica que estamos diante de uma privatização, não só de um terreno, mas da própria democracia brasileira. Afinal, é da natureza do PT apostar na confusão entre o público e o privado para fortalecer seu projeto de hegemonia no país.

Que melhor forma de fazê-lo do que garantir um espaço -e com dinheiro público- onde possam transmitir aos alunos de escolas públicas a doutrina petista segundo a qual a história do Brasil começa em 2003?

Quem sabe no portão de entrada do futuro museu algum companheiro se lembre de inscrever as palavras "nunca antes nesse país"...

O Instituto Lula pode não ter fins lucrativos, mas tem fins políticos bem claros. Não podemos esquecer que Lula continua extremamente ativo na política nacional e municipal. Já declarou que se envolverá de cabeça na campanha desse ano.

Que ninguém se engane: ceder esse terreno equivale, na prática, a doar o dinheiro dos contribuintes paulistanos para um partido político cuja prioridade número um é reconquistar a prefeitura da cidade.

São Paulo merece sim um Memorial da Democracia digno do nome. Um museu que registre as conquistas do povo brasileiro na luta contra o autoritarismo, que faça justiça à memória de líderes como Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso e do próprio Lula.

Essa seria sim uma destinação nobre ao terreno. É evidente, entretanto, que esse é um empreendimento que só pode ser implementado e administrado por uma organização tecnicamente qualificada, isenta e apartidária, não por um partido político, para que reescreva a história do Brasil à sua maneira.

Estaríamos dando alguns passos atrás na consolidação de nossa combalida democracia.

(*) FLORIANO PESARO, 44, sociólogo, é líder da bancada do PSDB na Câmara Municipal de São Paulo.

Moacir Japiassu | comentários(3)



04/05/2012 10:29
ELIO GASPARI



CABRAL QUIS SER CHIQUE, FOI BREGA

Novíssimos ricos do Brasil emergente constrangem a patuleia com sua promíscua vulgaridade

VERGONHA, ESSA é a sensação que resulta dos vídeos das villegiaturas parisienses do governador Sérgio Cabral em 2009, acompanhado por alguns secretários e pelo empreiteiro Fernando Cavendish, dono da Delta.

Uma cena pode ser vista com o olhar do casal que está numa mesa ao fundo do salão do restaurante Louis 15, no Hotel de France, em Mônaco. ("Este é o melhor Alain Ducasse do mundo", diz Cabral, referindo-se ao chef.)

Ela é uma senhora loura e veste um pretinho básico. A certa altura, ouve uma cantoria na mesa redonda onde há oito pessoas. Admita-se que ela entende português.

O grupo comemora o aniversário de Adriana Ancelmo, a mulher de Cabral, e festeja o próximo casamento de Fernando Cavendish.

Até aí, tudo bem, é vulgar puxar celulares no Louis 15 e chega a ser brega filmar a cena, mas, afinal, é noite de festa. A certa altura, marcado o dia do casamento, Cabral decide dirigir a cena: "Então, dá um beijo na boca, vocês dois."

Cavendish vai para seu momento Clark Gable, e o governador diz à mulher do empreiteiro: "Abre essa boca aí". As cenas foram filmadas por dois celulares. Um deles era o do dono da Delta.

Na mesma viagem, Cavendish, o empresário George Sadala, seu vizinho de avenida Vieira Souto e concessionário do Poupatempo no Rio e em Minas, mais os secretários de Saúde e de Governo do Rio, (Sérgio Côrtes e Wilson Carlos), estão no restaurante do Hotel Ritz de Paris.

Até aí, tudo bem, pois o empreiteiro tinha bala para segurar a conta. Pelas expressões, estão embriagados. Fora do expediente, nada demais. Inexplicáveis, nessa cena, são os guardanapos que todos amarraram na cabeça. Ganha uma viagem a Dubai quem tiver uma explicação para o adereço.

O álbum fecha com a fotografia de quatro senhoras gargalhantes, no meio da rua, mostrando as solas de seus stilettos (duas vermelhas). Exibem como troféus os calçados de Christian Louboutin. Nos pés de Victoria Beckham (38 anos) ou de Lady Gaga (26 anos), eles têm a sua graça, mas tornaram-se adereços que, por manjados, tangenciam a vulgaridade.

Não é a toa que Louboutin desenhou os modelos das dançarinas (topless) do cabaret Crazy Horse.

As cenas constrangem quem as vê pela breguice. Até hoje, o ex-presidente José Sarney é obrigado a explicar a limusine branca de noiva tailandesa com que se locomoveu numa de suas viagens a Nova York. (Não foi ele quem mandou alugar o modelo.)

A doutora Dilma explicou que não foi ela quem mandou fechar o Taj Mahal. No caso das vileggiaturas de Cabral, a breguice não partiu dos organizadores da viagem, mas da conduta dele, de seus secretários e do amigo empreiteiro.

Esse tipo de deslumbramento teve no governador um exemplo documentado, mas faz parte do primarismo dos novíssimos ricos do Brasil emergente.

Noutra ponta dessa classe está o senador Demóstenes Torres, comprando cinco garrafas de vinho Cheval Blanc, safra de 1947: "Mete o pau aí. Para muitos é o melhor vinho do mundo, de todos os tempos (...) Passa o cartão do nosso amigo aí, depois a gente vê". O amigo do cartão era Carlinhos Cachoeira que, por sua vez também era amigo da empreiteira Delta, de Cavendish.

Moacir Japiassu | comentários(0)



27/04/2012 09:43
EX-BLOG DO CÉSAR MAIA

AMÉRICA LATINA: A CRISE POLÍTICA SE APROFUNDA!

1. O ciclo econômico na América Latina nos últimos anos tem sido positivo. Uma oportunidade que está sendo perdida e atropelada pela crise política quase generalizada e pela insegurança jurídica crescente. Na Venezuela, a imprevisibilidade é total em função do câncer terminal do presidente Chávez, cujos prazos se encurtam. A semana passada começou com a denúncia de juízes de manipulação dos tribunais e terminou com o assassinato de um general muito próximo a Chávez, sugerindo a "antecipação" da sucessão em seu grupo.

2. Na Bolívia, Evo Morales, que era líder do sindicato dos cocaleiros e, que por sua imagem, iludiu os que o pensavam como líder indígena, enfrenta, sistematicamente, há um ano, protesto crescente dos quechuas e aymaras (60% da população) em relação a suas terras. No Equador, Rafael Correa reprime a imprensa e vai tornando seu governo cada vez mais autoritário. Enfrenta as denúncias de seu próprio irmão.

3. Na Nicarágua, a eleição que reelegeu Daniel Ortega foi considerada fraudulenta pelos observadores da União Europeia. No Panamá, o presidente e magnata Martinelli, um populista de direita, enfrenta ações por atropelar as leis e desconhecer o judiciário. Na Guatemala, o novo presidente, General (R) Perez Molina, disse que não há como combater o tráfico de drogas e que é melhor liberar o tráfico das 300 toneladas anuais que passam por seu país. Em Honduras, as ocupações de terra crescem, o tráfico de drogas se expande e a oposição avança sobre a debilidade do presidente Pepe Lobo. O presidente Fulnes, de El Salvador, credenciou emissário no presídio de segurança máxima e propôs aos chefes das gangues um acordo para reduzir os homicídios.

4. Na Argentina, o vice-presidente é acusado, de forma documentada, de corrupção por tráfico de influência. A presidente Cristina Kirchner desapropriou a Repsol da Espanha e inventou um conflito com o Reino Unido pelas Ilhas Malvinas. Enquanto isso, a economia desaba. No Brasil, após o afastamento de oito ministros por denúncias da imprensa, o Congresso é estilhaçado com grampos de denúncias de corrupção no esquema conhecido como Cachoeira-Delta, abre CPI e promete sangrar na carne. No México, os cartéis de drogas tornam-se operativos armados paralelos e seus sicários matam os que criam problemas.

5. No Paraguai, o senado decidiu destituir 7 ministros da Suprema Corte, apoiados em legislação existente. Os ministros vão recorrer à OEA e o presidente Lugo aguarda o desfecho.

6. Restam Uruguai, Colômbia, Chile e Peru. No Peru, o presidente Humala -mesmo enfrentando os problemas familiares- até aqui mostra-se sensato, e seu passado chavista ainda não deu sinais de aflorar. Enfrenta problemas com os indígenas por uma lei populista que fez no início do governo, dando poder de decisão a eles em investimentos em suas regiões, o que tem bloqueado bilhões de investimentos em mineração.

7. No Chile, com suas instituições estáveis, a crise é de popularidade do presidente Peneira que se enfrenta a constantes e massivos protestos dos estudantes. No Uruguai, o presidente Mujica (ex-dirigente Tupamaro) surpreendeu pela moderação. Recentemente despertou preocupação em relação à revisão da lei de anistia e ao apoio a Cristina Kirchner. Apenas a Colômbia de Eduardo Santos é um mar de tranquilidade, com seu presidente firme contra as FARC e de popularidade crescente. Da mesma forma, Laura Chinchilla, da Costa Rica.

8. A recente reunião da Cúpula das Américas na Colômbia mostrou o marasmo político continental. E faltou Cuba, mas nem precisava lembrar a natureza desse regime.

Moacir Japiassu | comentários(0)



20/04/2012 10:08
CARTA DO FRITZ UTZERI


Caro Leitor,
Terça feira 27 de março, dois dias depois de encontrar
Gabi e André que vieram me visitar e alegrar e devido a
intensa anemia e baixa das plaquetas (responsáveis pela
coagulação do sangue) fui aos Hematologistas Associados
para tomar transfusões e tive um choque anafilático que
resultou em uma semana na UTI do Copa D’Or. O choque
causou um edema pulmonar (cuspi sangue), um brônquio
espasmo e uma insuficiência cardíaca.

Foram 40 minutos de “afogamento a seco” no qual buscava,
desesperadamente, inalar algum ar, sem consegui-lo. Vivi
uma sensação de morte iminente e terrível. Mas graças aos
céus (e aos médicos da emergência) estou recuperado.

Agradeço as manifestações de apoio e carinho, como a do
companheiro Ricardo Boechat, que divulgou a necessidade de
doadores de sangue em seu programa na Band News e a todos
os coleguinhas e leitores que se mobilizaram.

Sexta-feira comecei a me coçar furiosamente e a sentir dor na
região torácica e logo descobri que era Herpes Zoster, uma
virose que percorre um trajeto do nervo intercostal e dói
muito. O ataque foi devido à minha falta de imunidade e estou
tomando antiviral e – felizmente – a dor ficou suportável.

Depois disso e como o “assédio” não para, quero pedir um
tempo a você caro leitor. Não tenho disposição para continuar
com o Mont. São sete anos e meio e o Mont só encolhe e minha
disposição para falar sempre as mesmas coisas (corrupção,
etc.) desaparece.

Note bem, não estou desistindo, apenas
dando um tempo para tentar cometer um livro. Se o Mont
retornar, os que têm saldo ou estão em dia, serão
compensados, do contrário, se o Mont acabar, devolverei a
assinatura de quem já assinou além desta data.
Desculpe pelo mau jeito, mas no momento o Mont não está me
ajudando nem emocionalmente.

Continuarei remetendo os capítulos de "Aurora"
semanalmente, pois acho que alguns leitores podem estar
curiosos e não seria justo interromper.

Um grande abraço e obrigado pela leitura todos esses anos.
Fritz

Moacir Japiassu | comentários(0)



13/04/2012 10:12
NOTA DEZ PARA VLADIMIR SAFATLE


HONRAR O PAÍS

Aqueles que hoje desafiam a mudez do esquecimento e dizem, em voz alta, onde moram os que entraram pelos escaninhos da ditadura brasileira para torturar, estuprar, assassinar, sequestrar e ocultar cadáveres honram o país.
Quando a ditadura extorquiu uma anistia votada em um Congresso submisso e prenhe de senadores biônicos, ela logo afirmou que se tratava do resultado de um "amplo debate nacional". Tentava, com isto, esconder que o resultado da votação da Lei da Anistia fora só 206 votos favoráveis (todos da Arena) e 201 contrários (do MDB). Ou seja, os números demonstravam uma peculiar concepção de "debate" no qual o vencedor não negocia, mas simplesmente impõe.

Depois desse engodo, os torturadores acreditaram poder dormir em paz, sem o risco de acordar com os gritos indignados da execração pública e da vergonha. Eles criaram um "vocabulário da desmobilização", que sempre era pronunciado quando exigências de justiça voltavam a se fazer ouvir.
"Revanchismo", "luta contra a ameaça comunista", "guerra contra terroristas" foram palavras repetidas por 30 anos na esperança de que a geração pós-ditadura matasse mais uma vez aqueles que morreram lutando contra o totalitarismo. Matasse com as mãos pesadas do esquecimento.
Mas eis que estes que nasceram depois do fim da ditadura agora vão às ruas para nomear os que tentaram esconder seus crimes na sombra tranquila do anonimato.

Ao recusar o pacto de silêncio e dizer onde moram e trabalham os antigos agentes da ditadura, eles deixam um recado claro. Trata-se de dizer que tais indivíduos podem até escapar do Poder Judiciário, o que não é muito difícil em um país que mostrou, na semana passada, como até quem abusa sexualmente de crianças de 12 anos não é punido. No entanto eles não escaparão do desprezo público.

Esses jovens que apontam o dedo para os agentes da ditadura, dizendo seus nomes nas ruas, honram o país por mostrar de onde vem a verdadeira justiça. Ela não vem de um Executivo tíbio, de um Judiciário cínico e de um Legislativo com cheiro de mercado persa. Ela vem dos que dizem que nada nos fará perdoar aqueles que nem sequer tiveram a dignidade de pedir perdão.
Se o futuro que nos vendem é este em que torturadores andam tranquilamente nas ruas e generais cospem impunemente na história ao chamar seus crimes de "revolução", então tenhamos a coragem de dizer que esse futuro não é para nós.

Este país não é o nosso país, mas apenas uma monstruosidade que logo receberá o desprezo do resto do mundo. Neste momento, quem honra o verdadeiro Brasil é essa minoria que diz não ao esquecimento. Essa minoria numérica é nossa maioria moral.
(VLADIMIR SAFATLE na Folha)

Moacir Japiassu | comentários(1)



13/04/2012 10:08
NOVO MINISTRO DA EDUCAÇÃO<



(Maria Alice Setubal, na Folha.)

Refletir sobre o que queremos do novo ministro da Educação é também uma oportunidade para estabelecermos um debate sobre qual educação o Brasil precisa para realizar o seu potencial de país emergente.

A educação é uma questão prioritária para a realização desse potencial. O nível educacional da população é um fator imprescindível para o desenvolvimento. Já sentimos hoje no Brasil a falta de mão de obra qualificada para suprir as demandas de expansão da economia.

Mas os nossos jovens estão abandonando os estudos, pois a escola é vista por eles como desinteressante, sem conexão com o mundo real e com o mercado de trabalho.

A exigência de maior qualificação poderia ser respondida de imediato com a readequação do ensino médio e com a implementação de cursos técnicos, tecnológicos e profissionalizantes. Eles são, sem dúvida, da maior importância.

Entretanto, a questão é bem mais complexa. Tivemos inúmeros avanços na melhoria da qualidade de vida da nossa população. A continuidade dessas políticas é de fundamental importância. Ainda estamos, porém, distantes uma educação de qualidade para todos.

O Ministério da Educação é o responsável pela definição e pela indução de políticas. É nos Estados e municípios, entretanto, que a educação acontece.

É necessário, portanto, que o governo federal costure um pacto com os entes federados. Para uma real mudança na qualidade da educação, dois pontos são prioritários para esse pacto e devem ser considerados de forma conjunta: novos parâmetros para a profissionalização docente e a definição de um currículo ou de metas de aprendizagem para o século 21.

Vivemos a transição para uma sociedade cujos eixos centrais são a diversidade, a justiça social, a democracia e a sustentabilidade. O mundo tem discutido novas formas para uma economia mais verde com energia limpa, com inovação para produtos e com serviços ligados à agricultura, à cultura criativa, à indústria e à gestão de recursos naturais.

As diversas manifestações políticas, ainda que de forma desordenada, tanto em nível nacional como internacional, têm apontado para o estabelecimento de criativas e inovadoras relações entre o Estado, o mercado e a sociedade civil.

Os avanços tecnológicos possibilitaram o surgimento de novas formas de comunicação global e de acesso à informação e à construção do conhecimento.

É fundamental um novo currículo, adequado a esse novo tempo. É também fundamental que a profissão do professor seja socialmente valorizada, com salários adequados e melhores condições de trabalho.

É necessário também que as formações inicial e continuada ocupem um espaço central no exercício docente. Essa formação deve estar atrelada aos novos conhecimentos exigidos na sociedade contemporânea, para que a sala de aula possa refletir a articulação de conteúdos variados.

Além disso, a capacitação do professor e os currículos dos alunos devem ser coerentes com as diversidades regionais e culturais do país.

É preciso reforçar que alguns avanços devem ser reconhecidos: o Plano Nacional de Educação, que está para ser votado pelo Congresso; e o debate iniciado em torno do currículo, da formação docente e da proposta de um exame nacional para professores.

Assim, esperamos que o novo ministro leve adiante as conquistas e tenha a ousadia de estabelecer um real diálogo com toda a sociedade.

Um diálogo pautado em metas claras de implementação de políticas que reflitam não apenas a prioridade da educação para o desenvolvimento do país, mas, sobretudo, que contemplem o que a sociedade considera importante para formar as nossas crianças e jovens.

MARIA ALICE SETUBAL, 60, doutora em psicologia da educação pela PUC-SP, presidente dos Conselhos do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, da Fundação Tide Setubal e do IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade)

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06/04/2012 14:05
NOTA DEZ PARA SÉRGIO AUGUSTO

O MAIS DIVERTIDO FILÓSOFO

E lá se foi a mais fulgurante inteligência do Brasil, o nosso maior humorista, o nosso maior frasista, o nosso Bernard Shaw, o nosso La Rochefoucauld, o nosso Groucho Marx, o nosso Saul Steinberg. Com pelo menos uma vantagem sobre todos os citados: Shaw, La Rochefoucauld e Groucho não sabiam desenhar, e Steinberg não era de escrever. Além de escrever, inclusive para teatro e cinema, Millôr era um esplêndido artista plástico. Gênio de muitas faces e nomes (Vão Gôgo, Volksmillor, Milton à Milanesa), foi um dos maiores pensadores do país e seu mais divertido filósofo.

Orgulhoso de ser um franco-atirador, um autodidata, especializado em coisa alguma (“Especialista é o que só não ignora uma coisa”), impermeável a ideologias (daí sua divisa: “Livre como um táxi”) e à tentação de entrar para a Academia, aprendeu tudo o que sua inteligência necessitava no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro e, como gostava de salientar, na (fictícia) “Universidade Livre do Méier”, subúrbio carioca onde nasceu, oficialmente, em 27 de maio de 1924, e, concretamente, em 16 de agosto de 1923. Explica-se: seu pai, o espanhol Francisco Fernandez (com z), demorou nove meses para tirar-lhe a certidão de nascimento. Não bastasse, o juiz responsável pela certidão derrapou na caligrafia. E assim foi que o pimpolho Milton Fernandes virou Millôr Fernandes.

De uma criatividade assombrosa, volta e meia deparamos com uma novidade—expressões, brincadeiras, definições, sacadas jornalísticas—inventada por ele alguns ou muitos anos atrás. Se escrevesse em inglês, diziam, seria lido e festejado no mundo inteiro. Embora conhecesse como poucos a língua inglesa (graças a ele Shakespeare e Harold Pinter nunca soaram tão bem em português), nunca se arrependeu da que o destino lhe deu e tão bem soube tratar.

Dominava-a à perfeição, buscando, obstinadamente, a imperfeição: a suposta imperfeição da língua falada, coloquial. Por ser a concisão o timing do humor escrito, jamais gastou 11 palavras onde cabiam dez—e às vezes conseguia o mesmo efeito com nove. Vez por outra, porém, desobedecia esse preceito e desembestava, sem jamais ficar enxundioso. Cometia em sua prosa toda sorte de firulas e audácias, e até o estilo anfigúrico de Guimarães Rosa parodiou numa memorável versão (ou riversão) da história do Chapeuzinho Vermelho.

Conheci Millôr no primeiro semestre de 1963, na revista O Cruzeiro. Era a maior estrela da casa, onde só aparecia às sextas-feiras para entregar as duas páginas de sua seção, o Pif-Paf, e recalibrar o Q.I. da redação. Sempre de terno, de uma feita chegou sobraçando alguns rolos a mais de papel cartonado. A pedido da direção, adaptara para a revista uma sátira lançada no teatro sobre a “verdadeira” história de Adão e Eva no Paraíso. Eram doze páginas magistrais, de humor e grafismo, que acabariam indignando alguns leitores carolas e provocando a demissão do autor. Acusado de “traidor” pela direção da revista, Millôr jogou para o alto os seus 20 anos de O Cruzeiro e meteu-lhe um processo, que afinal ganhou com o pé nas costas.

Vinte anos, mesmo naquela época, pareciam uma eternidade. E na empresa em si, aliás, foi mais do que isso, pois nos Diários Associados, o feudo jornalístico de Assis Chateaubriand a que O Cruzeiro pertencia, o menino prodígio do Méier já trabalhava desde 1938. Levado por seu tio Viola, chefe da gráfica de O Cruzeiro, começou como factótum do superintendente da empresa, Dario de Almeida Magalhães. Num concurso de contos, promovido por outra revista associada, A Cigarra, chegou em primeiro lugar e, não exatamente por isso, ascendeu ao arquivo. Atento ao talento do jovem arquivista, o diretor de A Cigarra, Frederico Chateaubriand, não pensou em mais ninguém quando precisou tapar o buraco de um anúncio cancelado em cima da hora. “Faça um negócio qualquer que ocupe duas páginas”, pediu Fred. Millôr bolou uma seção chamada Post-Scriptum. Agradou tanto aos leitores que ela se tornou fixa.

Alçado a secretário de redação, logo passou a acumular o novo cargo com a direção de duas outras publicações: O Guri (de quadrinhos) e Detetive (de contos policiais). A guerra na Europa ainda estava longe de terminar quando o deslocaram para O Cruzeiro. A menina-dos-olhos de Chateaubriand enfrentava uma crise de criatividade e coube ao versátil Millôr revitalizá-la, ocupando-se de seis seções diferentes, fazendo ilustrações, produzindo reportagens e, last but not least, as duas páginas mais lidas da imprensa brasileira da época: o Pif-Paf. Quando a guerra acabou, as vendas de O Cruzeiro haviam pulado de 11 mil para 760 mil exemplares semanais, marca que só a Veja conseguiria bater, cinco décadas depois.

Apresentado como “o único matutino semanal” do país, Pif-Paf revolucionou o jornalismo de humor brasileiro. Embora só tivesse duas “vastíssimas páginas”, parecia um encarte, uma revista à parte. Millôr, que ao criar o Pif-Paf tinha apenas 22 anos, falava e brincava com tudo: guerra, cinema, teatro, poesia, anúncios (ou reclames, como então se dizia), filosofia, esporte, rádio, medicina, o escambau. A despeito de sua professada, mas falsa, modéstia (“Sou o maior leigo do país”), já era, em 1945, um polímata, um sábio sem diploma, permanentemente desconcertante e inventivo.

Depois de todos aqueles anos em O Cruzeiro, Millôr passou 14 em Veja, seis no Pasquim, dez na Isto É, mais ou menos isso no Jornal do Brasil (em duas fases) e algum tempo na Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, aqui no Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Lançou e editou duas publicações de curta duração (Voga, a primeira revista semanal de texto do País, que durou apenas cinco números em 1951, e Pif-Paf, embrião do Pasquim que a Censura militar não deixou ir além do oitavo número, na década de 1960). Quando, em 1994, resolveu-se que já era tempo de se enfeixar num único tomo o que se dispersara por tantos veículos, uma primeira seleção chegou à espantosa cifra de 13.000 tópicos, que, mesmo reduzida a 5.142, rendeu um cartapácio de 524 páginas, editado pela L&PM. Parecia a Bíblia. E nome mais adequado não lhe poderiam ter dado: A Bíblia do Caos.

Só entre janeiro de 1945 e 2003, Millôr criou em torno de 15 mil máximas, aforismos, pensamentos, meditações, apotegmas, gnomas e que outros nomes mereçam ter as suas tiradas, um recorde de quantidade e qualidade, inigualado em nossa língua. Aqui vão algumas delas:
O acaso é uma besteira de Deus.
Deus é bom. Está é muito mal cercado.
Morrer é uma coisa que se deve deixar sempre pra depois.
Nasci com talento melódico numa época em que o pessoal só se interessa por percussão.
Analista é um sujeito que partindo de premissas falsas consegue chegar a conclusões perfeitamente equivocadas.
Se os animais falassem não seria conosco que iam bater papo.
Nunca deixe de fazer amanhã o que pode deixar de fazer hoje.
Nas noites de Brasília, cheias de mordomia, todos os gastos são pardos.
Um desses livros que quando você larga não consegue mais pegar.
50% dos doentes morrem de médico.
Chato é uma pessoa que não sabe que “Como vai?” é um cumprimento, não uma pergunta.
Todo governante se compõe de 3% de Lincoln e 97% de Pinochet.
Jamais chame um amigo de imbecil. É preferível lhe pedir dinheiro emprestado e não pagar.
Se sua calça tem um buraco, use-a pelo avesso.
Quem se curva aos opressores mostra a bunda aos oprimidos.
A alma enruga antes da pele.
Comida é bom, bebida é ótimo, música é admirável, literatura é sublime, mas só o sexo provoca ereção.
Os pássaros voam porque não têm ideologia.
Fobia é um medo com PhD.
Toda fotografia antiga é uma punhalada.
O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia.
Quem sai aos seus não endireita mais.
O gourmet é o comilão erudito.
O haddock é um bacalhau que venceu na vida.
A humildade é uma espécie de orgulho que aposta no perdedor.
O humorismo é a quintessência da seriedade.
Idade da razão é quando a gente faz as maiores besteiras sem ficar preocupado.
Desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal.
Imprensa é oposição; o resto é armazém de secos & molhados.
Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem.
Grande erro da natureza é a incompetência não doer.
Todo homem nasce original e morre plágio.
Divagar e sempre.
Monogamia é a capacidade de ser infiel à mesma pessoa durante a vida inteira.
A morte é hereditária.
A ociosidade é a mãe de todos os vices.
O cara que completa 80 anos está, evidentemente, vivendo acima de seus recursos.
Se é gostoso, faz logo. Amanhã pode ser ilegal.
A probidade não tem cúmplices.
Deus dá o frio a quem não tem dentes.
A invenção da poltrona acabou com os heróis.
Certos escritores se pretendem eternos e são apenas intermináveis.
O dinheiro não é tudo. Tudo é a falta de dinheiro.
O homem é o câncer na natureza.
Dizem que quando o Criador criou o homem, os animais todos em volta não caíram na gargalhada apenas por uma questão de respeito.
Conheço alguns escritores que morreram aos 30 anos e só conseguiram entrar pra Academia aos 60.
Eu posso não ser um bom exemplo. Mas sou um bom aviso.
Um escritor só é realmente famoso quando seus erros de linguagem passam a ser considerados regras gramaticais.
À noite (na penumbra aconchegante das alcovas permissivas), todos os pardos são gatos.
A importância leva mais gente ao cemitério do que a impotência.
Quando a bajulação não atinge seu objetivo, você pode estar certo de que não é por falta de vaidade do bajulado—é por incompetência do puxa-saco.
De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência.
Brasil, um país em que até o ponto facultativo é obrigatório.
Numa guerra santa Deus morre primeiro.
O chato de transar com mulheres mais velhas é que elas levam muito mais tempo para contar os seus desajustes.
Eu sou do tempo em que sexo era feito a mão.
O maior anticoncepcional é o mau hálito.
Na minha geração os únicos que escaparam do comunismo, do fascismo e da Igreja foram os sexualmente ativos, que tinham mais o que fazer.
O adultério é o mercado negro do orgasmo.
A Academia Brasileira de Letras se compõe de 39 membros e um morto rotativo.
Nos momentos de perigo é fundamental manter a presença de espírito, embora o ideal fosse conseguir a ausência do corpo.
O arroto é um som burguês, incompreensível entre os pobres.
O sujeito que me fará acreditar na imortalidade da alma ainda está pra ressuscitar.
Nada é certo neste mundo—a não ser o telefone tocar quando você está sozinho em casa e acabou de sentar no vaso.
Baiano só tem pânico no dia seguinte.
Os corruptos são encontrados em várias partes do mundo, quase todas no Brasil.
A credibilidade de um país é inversamente proporcional aos juros que os banqueiros internacionais lhe cobram.
O mal do mundo é que Deus e o Diabo envelheceram, mas o Diabo fez plástica.
Um escritor só é realmente famoso quando seus erros de linguagem passam a ser considerados regras gramaticais.
Quando uma ideologia fica bem velhinha vem morar no Brasil.
O pior não é morrer. É não poder espantar as moscas.
Quem não tem memória sabe tudo de olvido.
O maior erro de Noé foi não ter matado as duas baratas que entraram na Arca.
No nordeste nu explícito é esqueleto.
(Publicado originalmente no Estadão)

Moacir Japiassu | comentários(1)



06/04/2012 14:04
NOTA ZERO


Por Luis María Kreckler(*)

O território argentino só estará completo quando as Malvinas nos forem restituídas; potências de outrora ainda agem como se o mundo não tivesse mudado

Hoje, completam-se 30 anos do conflito no Atlântico Sul.

A Argentina toda homenageia com dor a memória dos caídos no enfrentamento e a usurpação sofrida já há 180 anos por parte de uma potência colonial extrarregional. A presença dessa potência não só fere a integridade territorial argentina, mas também a identidade da América Latina.

A recuperação das ilhas Malvinas é mais do que um anseio, é um dever irrenunciável, uma política do Estado argentino, plasmada na Constituição Nacional e prioridade do governo da presidenta Cristina Fernández de Kirchner.

Não será encontrado um único argentino, de qualquer ideologia ou posição política, que não concorde, de coração, que somente quando as ilhas Malvinas sejam restituídas à Argentina, nosso território estará completo.

Tampouco será encontrado argentino algum que não esteja convicto de que sua recuperação somente será conseguida por meio da paz.

O Brasil, desde 1833, acompanha a Argentina em sua reclamação de soberania. O governo e o povo argentino reconhecem o apoio incondicional que este país nos presta.

O Brasil conhece as ambições estrangeiras sobre seus recursos naturais. Todos os países da região latino-americana compartilhamos a convicção de que os recursos de nossos espaços marítimos constituem um elemento vital para assegurar o desenvolvimento dos nossos povos.

Hoje temos uma base militar extrarregional no extremo do Atlântico Sul, promovendo a depredação pesqueira e a exploração ilegal de hidrocarbonetos.

Se tem uma coisa que aprendemos na América do Sul é que podemos ter muitas diferenças, mas temos um destino comum.

As declarações do Brasil, o apoio que tem cada ocasião oferecem as autoridades brasileiras, a preocupação e a ênfase que põe seu governo nos confirma, a cada dia, que estamos no caminho certo da integração.

Nós estamos entendendo que somos donos do nosso destino, que temos que caminhar juntos e que neste projeto não cabe que potências coloniais de outrora continuem atuando como se o mundo não tivesse mudado nestes últimos séculos.

Com vocação de paz, a Argentina apela ao diálogo para a reparação desta dívida histórica, que fere o meu país e a América Latina toda.

(*) Luis María Kreckler, 57, sociólogo pela Universidade Nacional de Buenos Aires, é embaixador da Argentina no Brasil.

Moacir Japiassu | comentários(0)



06/04/2012 14:00
QUE CIVILIDADE É ESTA?

(Vito Diniz)

A respeito de nota publicada na coluna desta semana, com base na análise de Ewerton Farias Júnior, e após os acontecimentos relacionados à partida Grêmio X Pelotas, pergunto: que civilidade é esta dos irmãos gaúchos, tão propalada pelo companheiro que inspirou a nota? Infelizmente não há civilidade nas torcidas organizadas, sejam elas brasileiras, sejam elas estrangeiras. E não é apenas a torcida do Grêmio. Basta lembrar que em 5 de fevereiro deste ano, gremistas e colorados entraram em confronto pouco antes do Grenal e isso tem sido comum em todos os jogos dos chamados grandes clubes.

Justo nas partidas que deveriam ser as melhores, porque são os clássicos, são os grandes contra os grandes, os melhores contra os melhores.

No Rio, neste último final de semana, enquanto gremistas brigavam em Porto Alegre, um grupo de 50 torcedores do Botafogo tentou uma emboscada contra tricolores, próximo ao Engenhão. Oito deles foram presos pela Polícia Militar. E a violência das organizadas não é coisa de pouco tempo não, muito pelo contrário. Lembro-me do Russo, chefe de torcida do Botafogo, que estimulava o quebra-quebra e a pressão sobre os torcedores dos rivais (e não venham me dizer que não, pois minha memória é muito boa).

Em um dos últimos jogos que fui ao Maracanã, ainda como integrante da Raça Rubro-negra - depois me afastei das organizadas - há mais de 20 anos, levei uma paulada que me rendeu oito pontos no cucuruto e umas cinco horas de molho no Souza Aguiar.

Infelizmente o futebol foi tomado por uma horda, e não foi a proibiçao da venda de cerveja nos estádios que reduziu ou que reduzirá essa violência. Ela é decorrente de educação e respeito à vida. A banalização de tudo; a falta de respeito; a ausência de perspectivas leva esse povo a fazer qualquer coisa.
Trata-se de um bando de desmiolados "controlados" por um bando de filhos-da-puta, isso sim é o que são esses chamados "chefes" de torcida; manipulados por um outro bando que assalta nossos clubes.

Moacir Japiassu | comentários(0)



06/04/2012 13:56
FÁBRICA DE DINHEIRO


(Rogério Gentile, na Folha.)

SÃO PAULO - O escândalo da compra inútil de 28 lanchas pelo governo Dilma Rousseff é revelador da criatividade da politicagem brasileira na hora de resolver um de seus principais problemas, que é justamente o de como fabricar dinheiro.

Seu roteiro é um verdadeiro "manual do malfeito". Em primeiro lugar, o Ministério da Pesca simplesmente inventou uma necessidade. Comprou por comprar. Disse que precisava aumentar a fiscalização ambiental da atividade pesqueira no país, mesmo não tendo a competência legal para atuar nessa área.

Também não avaliou se órgãos que podem fazer tal fiscalização, como Marinha, Polícia Militar e Ibama, precisavam de tais embarcações e se teriam condições para mantê-las.

O segundo passo foi realizar uma concorrência com graves suspeitas de dirigismo, segundo auditoria do Tribunal de Contas da União.

O ministério fez tantas e tão específicas exigências que pouquíssimos estaleiros teriam condições de disputar. O texto chegava a especificar as configurações do banheiro do barco.

Sem a competição, evidentemente, o governo federal acabou comprando barcos por valores superiores aos praticados pelo mercado. "Pelo que pagou por cinco lanchas, o ministério poderia ter adquirido seis", diz a auditoria do TCU.

O final da história é o clássico. Um assessor do Ministério da Pesca procurou o fabricante e, obviamente, conseguiu uma doação para as campanhas eleitorais do PT de Santa Catarina, coincidentemente o partido e o Estado do então ministro da Pesca.

E as lanchas? Bom, quase três anos após a primeira licitação, quando a auditoria do tribunal de contas foi finalizada, 23 dos 28 barcos estavam fora de operação, muitos deles guardados pelo próprio estaleiro, pois não havia onde ser entregues, e correndo risco de sofrer danos por falta de manutenção adequada.

Fabricado o dinheiro, claro, não havia motivo algum para o ministério se preocupar com as embarcações.

Moacir Japiassu | comentários(0)



30/03/2012 09:24
NOTA DEZ PARA FERREIRA GULLAR


DA FALA AO GRUNHIDO

(Folha de S. Paulo)

De que adianta escrever o que escrevo aqui se a televisão continuará a difundir a fala errada?

DESCONFIO QUE, depois de desfrutar durante quase toda a vida da fama de rebelde, estou sendo tido, por certa gente, como conservador e reacionário. Não ligo para isso e até me divirto, lembrando a célebre frase de Millôr Fernandes, segundo o qual "todo mundo começa Rimbaud e acaba Olegário Mariano".

Divirto-me porque sei que a coisa é mais complicada do que parece e, fiel ao que sempre fui, não aceito nada sem antes pesar e examinar. Hoje é comum ser a favor de tudo o que, ontem, era contestado. Por exemplo, quando ser de esquerda dava cadeia, só alguns poucos assumiam essa posição; já agora, quando dá até emprego, todo mundo se diz de esquerda.

De minha parte, pouco se me dá se o que afirmo merece essa ou aquela qualificação, pois o que me importa é se é correto e verdadeiro. Posso estar errado ou certo, claro, mas não por conveniência. Está, portanto, implícito que não me considero dono da verdade, que nem sempre tenho razão porque há questões complexas demais para meu entendimento. Por isso, às vezes, se não concordo, fico em dúvida, a me perguntar se estou certo ou não.

Cito um exemplo. Outro dia, ouvi um professor de português afirmar que, em matéria de idioma, não existe certo nem errado, ou seja, tudo está certo. Tanto faz dizer "nós vamos" como "nós vai".

Ouço isso e penso: que sujeito bacana, tão modesto que é capaz de sugerir que seu saber de nada vale. Mas logo me indago: será que ele pensa isso mesmo ou está posando de bacana, de avançadinho?

E se faço essa pergunta é porque me parece incongruente alguém cuja profissão é ensinar o idioma afirmar que não há erros. Se está certo dizer "dois mais dois é cinco", então a regra gramatical, que determina a concordância do verbo com o sujeito, não vale. E, se não vale essa nem nenhuma outra -uma vez que tudo está certo-, não há por que ensinar a língua.

A conclusão inevitável é que o professor deveria mudar de profissão porque, se acredita que as regras não valem, não há o que ensinar.

Mas esse vale-tudo é só no campo do idioma, não se adota nos demais campos do conhecimento. Não vejo um professor de medicina afirmando que a tuberculose não é doença, mas um modo diferente de saúde, e que o melhor para o pulmão é fumar charutos.

É verdade que ninguém morre por falar errado, mas, certamente, dizendo "nós vai" e desconhecendo as normas da língua, nunca entrará para a universidade, como entrou o nosso professor.

Devo concluir que gente pobre tem mesmo que falar errado, não estudar, não conhecer ciência e literatura? Ou isso é uma espécie de democratismo que confunde opinião crítica com preconceito?

As minorias, que eram injustamente discriminadas no passado, agora estão acima do bem e do mal. Discordar disso é preconceituoso e reacionário.

E, assim como para essa gente avançada não existe certo nem errado, não posso estranhar que a locutora da televisão diga "as milhares de pessoas" ou "estudou sobre as questões" ou "debateu sobre as alternativas" em vez de "os milhares de pessoas", " estudou as questões" e "debateu as alternativas".

A palavra "sobre" virou uma mania dos locutores de televisão, que a usam como regência de todos os verbos e em todas as ocasiões imagináveis.

Sei muito bem que a língua muda com o passar do tempo e que, por isso mesmo, o português de hoje não é igual ao de Camões e nem mesmo ao de Machado de Assis, bem mais próximo de nós.

Uma coisa, porém, é usar certas palavras com significados diferentes, construir frases de outro modo ou mudar a regência de certos verbos. Coisa muito distinta é falar contra a lógica natural do idioma ou simplesmente cometer erros gramaticais primários.

Mas a impressão que tenho é de que estou malhando em ferro frio. De que adianta escrever essas coisas que escrevo aqui se a televisão continuará a difundir a fala errada cem vezes por hora para milhões de telespectadores?

Pode o leitor alegar que a época é outra, mais dinâmica, e que a globalização tende a misturar as línguas como nunca ocorreu antes. Isso de falar correto é coisa velha, e o que importa é que as pessoas se entendam, ainda que apenas grunhindo.

Moacir Japiassu | comentários(1)



23/03/2012 04:21
O BRASIL NÃO É REGIDO PELA BÍBLIA



(Por Alexandre Vidal Porto* in O Globo)

A Constituição determina que o Brasil é um Estado laico e assegura
liberdade religiosa para todos os cidadãos. As autoridades devem dar garantias ao culto de quaisquer religião, sem, no entanto, agir em nome de nenhuma. Em uma democracia, esses princípios são importantes porque preservam o pluralismo da sociedade e protegem o pleno exercício dos direitos individuais.

Trata-se de uma conquista da civilização ocidental que se encontra
ameaçada no Brasil. Hoje, fé e polltica parecem manter uma relação espúria,
na qual princípios religiosos contaminam de forma indevida o processo legislativo nacional. Absurdamente, começa-se a achar natural que projetos de lei submetidos à Cãmara dos Deputados, ainda que consonantes com os princípios da Constituição e dirigidos ao todo da população -religiosa ou não-, tenham de passar pelo crivo doutrinário das igrejas e fiquem reféns de sua sanção.

Retira-se, assim, de parcela considerável do povo brasileiro, a possibilidade
de regular seus direitos constitucionais fora de preceitos bíblicos que não abraçou. Ao mesmo tempo, as lideranças religiosas assumem ares de superioridade moral e alavancam seus interesses políticos baseados em uma ideologia teocrática de exclusão, que desqualifica quem não partilha de sua fé.

Ninguém é melhor ou mais ético porque tem religião. Cada um tem o direito de escolher os princípios morais que nortearão sua vida de acordo com a sua consciência. Essa prerrogativa fundamenta os direitos individuais. Foi conquistada a duras penas, em reação, justamente, ao monopólio ideológico e religioso que, diversas vezes na história, impôs, com resultados terríveis para a humanidade.

Ao longo dos séculos, muitas atrocidades foram cometidas em nome da Bíblia e de outros textos religiosos. Não fosse a garantia da pluralidade democrática, o mesmo deputado que vocifera contra cultos de matriz africana ou direitos reprodutivos das mulheres, poderia ter sido queimado na fogueira da inquisição católica ou morto por apedrejamento como infiel.

O Brasil é um país diverso. E quer continuar a sê-Io. Nele, não deve haver
espaço para a intolerância. O Congresso não legisla apenas para quem
tem religião. Tem de proteger a todos. Tentar impor uma ideologia religiosa por meio da ação legislativa desfigura nossa democracia. Os religiosos têm o direito de observar seus princípios, mas não podem impingi-los ao resto da população. O Brasil não é regido pela Bíblia. Que os religiosos cultuem o que quiserem, mas que respeitem quem não pensa e não quer viver como eles.

É importante que as autoridades do governo tentem colocar em perspectiva a ação política de grupos religiosos no Brasil. O Estado Brasileiro é laico e deve comportar-se como tal. Em mais de uma instância, minorias sociais têm visto seus direitos individuais virarem moeda de troca. Tolerar a intolerância pode render votos, mams não é uma forma justa de governar.

(*)Alexandre Vidal Porto é advogado.

Moacir Japiassu | comentários(0)



23/03/2012 04:18
CONDENADA POR FAZER EXAME ANAL



A Viação Andorinha Ltda deverá indenizar o dano moral causado a um motorista que foi humilhado ao ser submetido a exame físico admissional para verificar a existência de hemorroidas. A decisão é da 2ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, que aumentou a indenização fixada na sentença da juíza Luciana Muniz Vanoni, da 22ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro.

O motorista, dispensado depois de quase quatro anos de trabalho, disse que na época de sua admissão foi obrigado a se submeter a exame físico minucioso de inspeção anal diante de colegas, sentindo-se constrangido e humilhado. Segundo ele, caso constatada a propensão ou existência da doença, ou se o candidato se recusasse a realizar o exame, não haveria contratação.

O fato foi testemunhado por outro motorista, que afirmou também ter se submetido ao exame, ocorrido na sala do médico e na presença de dois funcionários da viação.

Descontente com a sentença de primeiro grau que estabeleceu o valor da indenização por dano moral em três salários, o trabalhador recorreu da decisão requerendo o aumento do valor para 50 vezes a última remuneração, que era de R$815,00.

A empresa também recorreu, alegando que a testemunha não mencionou que o exame médico admissional tivesse sido constrangedor e requerendo a reforma da decisão por falta de fundamento.

Para o relator do recurso, desembargador José Geraldo da Fonseca, a recorrente agiu fora de seus poderes diretivos, pois apesar de ter o direito de realizar exame médico admissional nos futuros empregados, constrangeu o candidato ao realizá-lo coletivamente.

Os desembargadores da 2ª Turma do TRT/RJ decidiram aumentar o valor da indenização para 10 vezes o valor do salário do empregado, o que totaliza cerca de R$8 mil.

Nas decisões proferidas pelo juízo de 1º grau são admissíveis os recursos enumerados no art. 893 da CLT.

E aqui segue o,link, para matar a cobra e mostrar o pau, o que aliás pode não ser muito recomendável no caso da Viação Andorinha...


http://portal2.trtrio.gov.br:7777/pls/portal/PORTAL.wwv_media.show?p_id=14324014&p_settingssetid=381905&p_settingssiteid=73&p_siteid=73&p_type=basetext&p_textid=14324015

Moacir Japiassu | comentários(0)



23/03/2012 04:16
DICAS DO PROFESSOR OROZIMBO


- Evite frases exageradamente longas, por dificultarem a

compreensão da ideia contida nelas, e, concomitantemente,

por conterem mais de uma ideia central, o que nem sempre

torna o seu conteúdo acessível, forçando, desta forma, o pobre

leitor a separá-la em seus componentes diversos, de forma a

torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas,

parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular

através do uso de frases mais curtas.

- Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

- Não abuse das exclamações! Seu texto fica horrível! Sério!

- Estrangeirismos estão out, palavras de origem

portuguesa estão in.

- Seja seletivo no emprego de gíria, bicho. Mesmo

que sejam maneiras. Sacou, galera?

- Palavras de baixo calão podem transformar seu

texto numa merda.

- Nunca generalize: generalizar sempre é um erro.

- Use a pontuação corretamente o ponto e a vírgula

especialmente será que ninguém sabe mais usar o sinal

de interrogação

- Nunca use siglas desconhecidas, conforme recomenda

a N.A.O.R.

- Evite abrev., etc.

- "não esqueça das maiúsculas", como já dizia orosimbo,

meu professor de português lá no colégio tristão

de atahyde, em santa tereza, belo horizonte.

- Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra

vai ficar repetitiva. A repetição vai fazer com que a palavra

seja repetida.

- Não abuse das citações. Como costuma dizer meu pai:

"Quem só cita os outros não tem ideias próprias".

- Frases incompletas podem causar.

- Seja mais ou menos específico.

- Evite mesóclises. Repita comigo: "mesóclises: evitá-las-ei!"

- Cuidado com a orthographia, para nao estrupar a lingua.

- Seja incisivo e coerente. Ou talvez seja melhor não...

- Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa

de formas diferentes, isto é, basta mencionar cada argumento

uma só vez. Em outras palavras, não fique repetindo a mesma ideia.

- A voz passiva deve ser evitada.

Moacir Japiassu | comentários(6)



16/03/2012 09:50
NOTA DEZ



CRISTO DESPEJADO

Hélio Schwartsman (Folha)

SÃO PAULO - O assunto é menor, mas tem elevado valor simbólico. Nesta semana, a Justiça gaúcha determinou a retirada dos crucifixos de todas as suas dependências. Como bom ateu, sou favorável à medida. Entendo, porém, que alguns cristãos se sintam frustrados. Vou tentar mostrar que a laicidade do Estado interessa mais a eles do que a mim.

Um dos argumentos mais populares entre os defensores da permanência da cruz é o de que a maioria da população é cristã. Bem, a maior parte dos brasileiros também é flamenguista ou corintiana. A ninguém, contudo, ocorreria ornar os tribunais com bandeiras e flâmulas desses clubes. Maiorias não bastam para definir a decoração de paredes públicas.

De resto, nem todos os cristãos são entusiastas do crucifixo. Algumas denominações protestantes o consideram um caso acabado de idolatria, pecado cuja prática meus ancestrais judeus costumavam punir com o apedrejamento até a morte.

A vontade da maior parte dos cidadãos é, por certo, um elemento importante da democracia, mas não é absoluto nem incondicional. Um país só é democrático quando defende suas minorias da tirania das massas.

E o direito de todos a espaços públicos livres de proselitismo religioso deveria ser autoevidente. Ao contrário do que muitos podem pensar, isso importa mais para o crente membro de grupo ou seita minoritários do que para ateus e agnósticos.

Nós que não acreditamos num ser superior ou que julgam essa uma questão indecidível, tendemos a considerar imagens religiosas como uma manifestação supersticiosa, uma excentricidade, no máximo. Já um judeu ou muçulmano praticantes podem ver na figura do Cristo crucificado um símbolo de opressão e morte. Não se pode dizer que não tenham razões históricas para pensar assim.

Exceto para os apreciadores de teocracias de partido único, a laicidade do Estado é a melhor garantia da liberdade religiosa.

helio@uol.com.br

Moacir Japiassu | comentários(0)



16/03/2012 09:47
JOSÉ NÊUMANNE


Um chute no traseiro

da Constituição

Está valendo a paródia da frase de Bernardes: “ao político, tudo; ao cidadão, o rigor da lei”


Ao decidir que o Instituto Chico Mendes não podia existir legalmente por ter sido criado por lei baseada em medida provisória (MP) que havia transitado pelo Congresso sem obediência à premissa, prevista na ordem jurídica vigente no País, de passar por comissão especializada antes de ir ao plenário, o Supremo Tribunal Federal (STF) cumpriu sua tarefa comezinha de julgar o que é constitucional ou não. E nessa condição estão todos os efeitos jurídicos e práticos de cerca de 500 MPs vigentes e ilegítimas. Ao recuar da decisão tomada no dia anterior, consciente de que, embora acertada, a jurisprudência poderia criar um caos jurídico sem precedentes na História da República, o órgão máximo do Poder Judiciário mostrou equilíbrio, sensatez e humildade, três virtudes políticas que faltam ao Executivo e ao Legislativo, cujos representantes são... políticos eleitos pelo povo.

Mas o STF não tinha alternativa à decisão que tomou de restabelecer o primado legal que havia sido abandonado por parlamentares e presidentes que, mesmo redigindo, votando, promulgando e assinando leis ou decretos, não podem descumprir cânones neles fixados. Deu, então, prazo de 14 dias para uma comissão especial composta por senadores e deputados analisar antes de encaminhar à votação final a providência administrativa que o governo federal considere urgente e de alta relevância e Câmara e Senado com isso concordem. Com a insensibilidade de ofício, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), teve o desplante de reclamar da insuficiência desse prazo, apelando para o débil argumento de que questões políticas postas em confronto na votação das medidas exigem prazo mais longo. “O Supremo não pode se meter nesse assunto”, disse o ex-líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP).

A política, tal como praticada no Brasil, é a arte de submeter os fatos aos argumentos. Então, sempre que algum prócer parlamentar ou executivo quer mandar a realidade às favas, convém recorrer à História para restabelecer a verdade. As medidas provisórias são uma tecnologia parlamentar criada para amenizar um velho impasse entre gestão e negociação, comum em qualquer democracia, mas mais acirrado em sistemas parlamentares, em que cabe ao Parlamento gerir o interesse público.

Em princípio, ela foi acrescentada à Constituição como fórmula para permitir a instituição do parlamentarismo, alheio à tradição presidencialista da condução dos negócios públicos no Brasil. Os mandachuvas da Constituinte eram parlamentaristas e a Carta foi encaminhada no sentido de permitir um sistema de governo que tornasse viável a substituição do estilo americano pelo europeu. No meio do caminho, contudo, tinha uma pedra no sapato parlamentarista e esse mineral se tornou maior do que o calçado. Convicto de que a guinada do sistema de governo lhe furtaria mais poder para transferi-lo a Ulysses Guimarães, o então presidente José Sarney submeteu a Constituinte ao tacão do velho presidencialismo monárquico, adotando-o explicitamente.

Na prática, preparada para o parlamentarismo, mas entregue ao poder presidencial, a Constituição de 1988 permitiu a proliferação dos partidos e tolheu o poder do voto do cidadão: este só tem controle real sobre a escolha de seu representante nas eleições majoritárias para cargos executivos. A mixórdia do voto proporcional instala a confusão federativa, ao alterar o peso do voto da cidadania pelo conceito inverso na composição da Câmara, jogando no lixo o próprio princípio da representatividade. A representação do Estado menor é maior do que a do Estado maior, proporcionalmente, anulando o conceito elementar da democracia saxônica, de acordo com o qual cada cidadão tem direito a um voto.

A composição da Câmara dos Deputados foge ao controle do cidadão e é entregue de bandeja às oligarquias partidárias, que recriaram o velho esquema do coronelismo da República Velha se aproveitando dessa cusparada em Pitágoras e Aristóteles, pois em nosso sistema o mais vale menos e o menos vale mais. O neocoronelismo do voto eletrônico, instituído no Poder Legislativo tornado Constituinte, inventou o conceito cínico da governabilidade. Segundo este, o presidente eleito pela maioria real submete-se ao tacão dos oligarcas partidários: só lhe é permitido governar se fatiar a máquina pública e distribuir as porções da carniça às legendas cuja legitimidade como representação popular é, na prática, nula. Por isso estamos sob a égide de uma paródia do antigo axioma de Artur Bernardes: “Ao político, tudo; ao cidadão, o rigor da lei”.

As medidas provisórias são o pacto do poder constituído no dilema entre o voto majoritário e o sufrágio desigual. Para governar o Executivo finge que tudo é “urgente e relevante” e encaminha ao Legislativo o que lhe convém, certo de que será aprovado em nome dos interesses do povo, que nunca chegou a ser cheirado nem ouvido. O Legislativo recheia a vontade imperial do governo central com a escumalha dos interesses paroquiais dos chefetes das miríades de bancadas e, como dizia Justo Veríssimo, “o povo que se exploda”.

Os rompantes de Marco Maia e Cândido Vaccarezza sobre a única saída decente que restou ao STF adotar para descascar o abacaxi comprovam que, em nossa ordem vigente, na qual se trata a Constituição como subalterna ao regimento da Câmara, os barões dos partidos acham que têm a prerrogativa de cuspir nas normas que eles próprios redigiram, votaram a aprovaram. A cínica substituição da letra da lei pelo pacto tácito entre políticos, por eles decretada dos lugares mais altos do pódio da representação popular, é o maior chute no traseiro que uma Constituição levou em nossa História. Nem os plantonistas no poder do Almanaque do Exército haviam chegado a esse ponto. Se nem essa resolução do STF for cumprida, só nos resta passar unguento na contusão e chorar.

Jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde

(Publicada na Pag. A02 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 14 de março de 2012)

Moacir Japiassu | comentários(0)



16/03/2012 09:45
CELSO JAPIASSU


Luar sobre Copacabana

Névoa e gás envolvem a lua,
paredes e muros de Copacabana.
Reflexos imitam a lua, deságuam
nas línguas negras,
são estranhos animais.

Invisível-indivisível, o corpo
anda : corpos velhos sob a lua.
Os velhos passam, não são vistos.
São peixes transparentes contra a água
de outros corpos na rua.

Entre o mar e os edifícios
o areal rompe as ondas,
suja os olhos e a boca,
constrói no ar seu roteiro.
Deixa traços no caminho.

Uma noite sem mistério
ou sonho. Um homem senta-se ao bar,
aspira o hálito do tempo,
bebe ao futuro. As horas,
uma a uma, desperdiçam seus sinais.

O movimento dos vultos,
cães silenciosos, homens apagados
misturados ao trânsito da noite.
O tempo espelha sua lâmina
no refluxo das águas.

O sereno, as sombras e o silêncio
juntam-se nas esquinas das ruas
e avenidas do Leme ao Posto Seis.
Transitam além dos olhos, na alma
que não consegue adormecer.

Há um território do sono
explorado pelo mar e seus ruídos ,
habitação do medo , onde fantasmas
balbuciam sortilégios e os mortos
são aves recolhidas pelo vento .

Moacir Japiassu | comentários(0)



16/03/2012 09:43
CELSO JAPIASSU


Luar sobre Copacabana

Névoa e gás envolvem a lua,
paredes e muros de Copacabana.
Reflexos imitam a lua, deságuam
nas línguas negras,
são estranhos animais.

Invisível-indivisível, o corpo
anda : corpos velhos sob a lua.
Os velhos passam, não são vistos.
São peixes transparentes contra a água
de outros corpos na rua.

Entre o mar e os edifícios
o areal rompe as ondas,
suja os olhos e a boca,
constrói no ar seu roteiro.
Deixa traços no caminho.

Uma noite sem mistério
ou sonho. Um homem senta-se ao bar,
aspira o hálito do tempo,
bebe ao futuro. As horas,
uma a uma, desperdiçam seus sinais.

O movimento dos vultos,
cães silenciosos, homens apagados
misturados ao trânsito da noite.
O tempo espelha sua lâmina
no refluxo das águas.

O sereno, as sombras e o silêncio
juntam-se nas esquinas das ruas
e avenidas do Leme ao Posto Seis.
Transitam além dos olhos, na alma
que não consegue adormecer.

Há um território do sono
explorado pelo mar e seus ruídos ,
habitação do medo , onde fantasmas
balbuciam sortilégios e os mortos
são aves recolhidas pelo vento .

Moacir Japiassu | comentários(0)



09/03/2012 10:57
HUMANOS E GORILAS

Em cerca de 15% do genoma da espécie, semelhança com genes do homem supera a vista no DNA de chimpanzé

Dado surpreende, já que chimpanzés estão mais próximos da nossa espécie do ponto de vista evolutivo
GIULIANA MIRANDA
DE SÃO PAULO

Gorilas e humanos são mais parecidos do que se pensava, pelo menos geneticamente. O primeiro sequenciamento completo do DNA desses macacos revelou que alguns genes são mais parecidos entre humanos e gorilas do que entre nós e os chimpanzés, considerados nossos "parentes" mais próximos.

Para chegar a esse resultado, um força-tarefa de 71 pesquisadores de várias partes do mundo esmiuçou o genoma de Kamilah, uma gorila-comum-ocidental (Gorilla gorilla gorilla) de 31 anos, e comparou os resultados com os genes dos outros três grandes primatas: humanos, chimpanzés e orangotangos.

Foi a primeira vez que um levantamento tão abrangente foi feito e, segundo os cientistas, ele tem grande importância para ajudar a elucidar a evolução dos primatas e as nossas próprias origens.

A primeira surpresa veio na similaridade dos genes. Embora o DNA de humanos e chimpanzés seja, de uma maneira geral, bem mais parecido, 15% do genoma dos humanos é mais similar ao dos gorilas do que ao dos chimpanzés.

Nesse conjunto, destacam-se genes ligados ao desenvolvimento do cérebro e da audição, por exemplo.

De fato, é na audição que está uma das maiores similaridades externas entre humanos e gorilas. Nossas orelhas pequenas são bem mais parecidas com as deles do que com as dos chimpanzés.

Entre os genes ligados à audição, uma descoberta tem potencial para influenciar o estudo da fala.

Comumente apontado como um dos genes associados ao desenvolvimento da fala em humanos, o LOXHD1 se mostrou igualmente desenvolvido entre gorilas.

Para descobrir por que, ainda assim, humanos desenvolveram a fala e os gorilas, não, ainda há um longo caminho. Mas o trabalho já começa a dar pistas.

Em um artigo crítico que acompanha a pesquisa, publicado na revista "Nature", Richard Gibbs e Jeffrey Rogers, do Centro de Sequenciamento do Genoma Humano da Faculdade de Medicina de Baylor, em Houston, destacam os resultados.

"Esses novos dados sobre os gorilas sugerem que uma grande porção do genoma humano estava sob pressão da seleção positiva [sendo favorecida pela seleção natural] durante o período de isolamento inicial dos nossos parentes próximos", avaliam.

Segundo eles, os dados podem ajudar a reconstruir as pressões ambientais que moldaram a evolução humana.

SEPARAÇÃO

O trabalho também usou as informações genéticas para estimar em que período aconteceu a separação de cada uma das espécies de seu ancestral comum.

A separação dos orangotangos foi a primeira, há cerca de 14 milhões de anos. A dos gorilas teve lugar em torno de 10 milhões de anos atrás. Já a divisão entre humanos e chimpanzés foi mais recente, há aproximadamente 6 milhões de anos.

O trabalho analisou ainda a divisão entre as subespécies de gorilas. O grupo comparou o genoma de Kamilah com os genes de outros animais de sua subespécie e também de um gorila-oriental (Gorilla beringei graueri).

Embora haja evidências de que a separação tenha ocorrido 1,75 milhão de anos atrás, existem indícios de que houve troca de material genético mais recentemente.

Embora os gorilas estejam trazendo pistas sobre a nossa evolução, os humanos não estão colaborando com a deles. Diversas populações, sobretudo a dos gorilas-das-montanhas, estão em risco elevado de extinção devido à atividade humana.

Moacir Japiassu | comentários(0)



02/03/2012 09:30
ADEUS, BOM SENSO!


O BOM SENSO ESTÁ CADA VEZ MAIS LONGE DO DIREITO

Por Vladimir Passos de Freitas(*)

O estudante de Direito, mal entrava no primeiro ano da faculdade, já escutava a frase: “Direito é bom senso”. Dita de forma clara e objetiva, não permitia intrincadas regras de hermenêutica. O jovem acadêmico já sabia que, ao analisar uma questão jurídica, deveria seguir o que é mais lógico, o meio termo, o razoável. Mais recentemente, a máxima foi elevada a um grau maior de sofisticação. Abandonada a sua singeleza, alargado seu campo de incidência, foi rebatizada com o nome de “princípio da razoabilidade”.

Luis Roberto Barroso, com sua habitual clareza, ensina que “sendo mais fácil de ser sentido do que conceituado, o princípio se dilui em um conjunto de proposições que não o libertam de uma dimensão excessivamente subjetiva. É razoável o que seja conforme à razão, supondo equilíbrio, moderação e harmonia; o que não seja arbitrário ou caprichoso; o que corresponda ao senso comum, aos valores vigentes em dado momento ou lugar” (Interpretação e aplicação da Constituição, Saraiva, pgs. 204/205).

Mas, de uma ou de outra forma, o fato é que o Direito parece encaminhar-se mais para a consagração de teorias do que para soluções com foco na realidade. A doutrina, a partir de trabalhos acadêmicos, a lei e, por fim, a jurisprudência, vão adotando o dever ser em prejuízo do ser. A discussão de teses é mais sedutora do que a de fatos. Vejamos.

O Código de Defesa do Consumidor, que representou um louvável e significativo avanço nas relações de consumo, mudando para melhor a realidade brasileira, permite ao autor ingressar em juízo individualmente (art. 81). Por sua vez a Lei 9.099/95, que trata dos Juizados Especiais, faculta ao autor ingressar com a ação no seu domicílio e sem o pagamento de custas ou outras despesas, como honorários advocatícios (arts. 4º, inc. III e 54).

Pois bem, se uma pessoa mal intencionada propõe no Juizado Especial Cível do Oiapoque (AP) uma ação, contra uma empresa do Chuí (RS), esta, para defender-se, terá que deslocar-se da fronteira do Uruguai para a da Guiana Francesa. E, se ganhar a ação, resta-lhe, se conseguir provar a má-fé, ver o autor ser condenado nas custas (art. 55, I). Sem outra sanção de qualquer espécie.

Este exemplo não é fruto de uma mente criativa. Ao contrário, vem ocorrendo cada vez com mais frequência e pelos mais diversos motivos. E os Autores, vencidos, certamente se divertem com a fragilidade do sistema, que não lhes impõe nenhum tipo de sanção. A falta de bom senso não passaria despercebida à Tia Anastácia, imortal personagem de Monteiro Lobato no Sítio do Picapau Amarelo.

Os Juizados Especiais Cíveis e Criminais, criados em 1995, foram decisivamente um dos maiores passos dados na efetividade da Justiça. Informais, céleres, neles se busca sempre a conciliação (art. 2º). Só que, mesmo se reconhecendo que são destinados a pequenas causas (nome depois abandonado em homenagem ao “princípio da sofisticação”), admitem recurso ao Supremo Tribunal Federal. Interposto perante o Coordenador da Turma Recursal, mesmo que denegado ou não conhecido, atrasará a execução por longo tempo. Se o recurso extraordinário for contra decisão criminal, a prescrição pela pena aplicada estará praticamente assegurada, já que as penas são sempre pequenas.

As ações populares e as de improbidade administrativa também merecem referência. A antiga Lei 4.717/65 foi uma inovação sábia ao permitir que qualquer cidadão pudesse pleitear a anulação ou a declaração de nulidade de atos lesivos ao patrimônio da União e das demais pessoas jurídicas de Direito Público, bem como de empresas públicas, sociedades de economia mista, fundações públicas e serviços sociais autônomos. Da mesma forma as ações civis públicas relacionadas com atos de improbidade administrativa, reguladas pela Lei 8.429/92. A lei é ótima, óbvio. Nada mais lógico do que os agentes públicos serem responsabilizados por enriquecimento ilícito no exercício de mandato, cargo, emprego ou função na administração pública direta, indireta ou fundacional.

O problema está no fato de que estas ações, depois de propostas, não terminam antes de muitos anos se passarem. E no caso das ações populares, um percentual elevado é fruto de vinganças políticas. No caso das ações civis públicas por improbidade administrativa, uma simples e subjetiva conclusão do agente do Ministério Público, no sentido de que houve ofensa a um dos princípios do art. 37 da Constituição (p. ex., princípio da eficiência), pode lançar um agente público à condição infamante de ímprobo por 8, 10 ou 12 anos. Por vezes com seus bens indisponíveis.

O que se está a dizer não é que estas ações sejam cerceadas, mas sim que: a) devem passar por rigorosa análise judicial antes de serem recebidas, face às consequências que delas se irradiam; b) as ações propostas com má-fé, com irresponsabilidade, devem sujeitar seus autores à responsabilidade pessoal pelos danos causados. Na falta de bom senso é preciso algum tipo de sanção a quem agir de forma irresponsável.

Enquanto tais dificuldades se sucedem, a PEC 513/10, da deputada Manuela D'Ávila (PCdoB-RS), procura incluir no art. 6º da Constituição o direito à busca da felicidade como objetivo fundamental da República. Como se trata de uma iniciativa baseada em precedentes já existentes (p. ex., a Declaração de Direitos da Virgínia, EUA, 1776), seria interessante sabermos se naquele estado norte-americano as pessoas se tornaram mais felizes. De minha parte, penso que o tempo dos congressistas seria mais bem empregado se, ao invés de preocupar-se com a busca da felicidade, simplesmente se esforçassem para que fosse cumprido o art. 144 da Carta Magna, que afirma ser a segurança pública direito de todos os brasileiros.

Em suma, a singeleza da frase “Direito é bom senso”, aplicada em sentido amplo com real intenção de resolver impasses jurídicos, parece-me que auxiliaria em muito na solução dos problemas jurídicos. Um pouco mais da clareza de pensamento da Tia Anastácia talvez produzisse melhores resultados do que os intrincados raciocínios dos jus-filósofos europeus do momento.

(*) Vladimir Passos de Freitas é desembargador federal aposentado do TRF 4ª Região, onde foi presidente, e professor doutor de Direito Ambiental da PUC-PR.

Moacir Japiassu | comentários(0)



24/02/2012 10:34
TÍTULOS FORA DE LUGAR


(Por Lúcio Flávio Pinto em 21/02/2012 na edição 682 do OI)

Reproduzido do Jornal Pessoal nº 507, 2ª quinzena/fevereiro 2012; título original “Livros & leitores”, intertítulo do OI.

O Palácio do Planalto garantiu para os jornalistas credenciados na casa que um dos hábitos preferidos da presidente Dilma Rousseff é o da leitura. Fiquei surpreso. Em agosto de 2010, quando ainda era candidata à sucessão de Lula, numa entrevista gravada, ela foi perguntada sobre seus livros preferidos.

Tentando aparentar naturalidade, domínio do assunto, a candidata disse que dormira na noite anterior justamente abraçada a um livro, que a “impactara” muito. Gaguejou muito até conseguir lembrar o nome do autor. Como um mestre paraense, que passava o lenço pela boca ao pronunciar palavras em outras línguas, Dilma se referiu, por fim, a algo como Sandor Mailaive. Ninguém entendeu. Queria dizer Márai Sándor.

Já o título da obra do escritor húngaro, não saiu. A candidata procurou se lembrar por associação com uma novela da televisão, mas a memória não ajudou. Uma assessora que estava fora de cena (e sem um ponto eletrônico), se agachou ao lado de outra assessora, que estava na mesa, e deu a dica. A informação foi repassada ao pé do ouvido da entrevistada, que, aliviada, declarou em alto e bom som: o livro era As brasas, lançado no Brasil 11 anos antes. Como se tratava de gravação semi-amadora, o cinegrafista registrou a cena. Parecia coisa de Casseta & Planeta.

Ponta da língua

Quem lê livros com certa contumácia jamais entraria nessa saia justa. Simples: saberia do que estava falando. Estaria tranquilo em ambiente do seu domínio. Não pareceu o caso da então candidata do PT. Nem é o caso do governador do Ceará, Cid Gomes, irmão do eterno candidato Ciro Gomes. Obrigado a explicar o que quis dizer ao dizer que fizera um “rolo” com os empresários locais da construção civil, em torno de uma nova linha do metrô de Fortaleza, o governador recorreu aos seus conhecimentos do léxico. O “rolo” cearense teria um sentido distinto de outros “rolos” nacionais. E recomendou ao repórter inquisidor: “Vá ver no Oásis”.

Naturalmente, se referia ao Dicionário Houaiss, do nosso distinto e erudito Antônio, já falecido. O conhecimento que estava na ponta da língua de Cid, como na de Dilma, não era o certo. O bom da cultura é que se conhece logo quem realmente lê livros. E também quem diz que lê, mas não lê. Essa prova dos noves não falha.

***

[Lúcio Flávio Pinto é jornalista e editor do Jornal Pessoal, Belém (PA)]

Moacir Japiassu | comentários(0)



24/02/2012 10:31
PROFECIAS TERRÍVEIS!

O considerado Orlando Barrozo, diretor da revista Home Theather, enviou estas "profecias" que circulam internet afora, as quais, segundo ele, misturam preconceito, achismo, torcida (para que tudo de fato aconteça) e também um pouco da dura realidade brasileira. Ei-las:


De 2010 a 2015

1. ONGs vão pipocar dizendo que apóiam o esporte, tiram crianças das ruas e as afastam das drogas.. Após as olimpíadas estas ONGs desaparecerão e serão investigadas por desvio de dinheiro público. Ninguém será preso ou indiciado.

2. Um grupo de funk vai fazer sucesso com uma música que diz: vou pegar na tua tocha e você põe na minha pira.

3. Uma escola de samba vai homenagear os jogos, rimando "barão de coubertin" com "sol da manhã". Gilberto Gil virá no último carro alegórico vestido de lamê dourado representando o "espírito olímpico do carioca visitando a corte do Olimpo num dia de sol ao raiar do fogo da vitoria".

4. Haverá um concurso para nomear a mascote dos jogos que será um desenho misturando um índio, o sol do Rio, o Pão de Açúcar e o carnaval, criado por Hans Donner. Os finalistas terão nomes como: "Zé do Olimpo", "Chico Tochinha" e "Kaíque Maratoninha".

5. Luciano Huck vai eleger a Musa dos jogos, concurso que durará um ano e elegerá uma modelo chamada Kathy Mileine Suellen da Silva.

Abertura dos jogos

1. A tocha olímpica será roubada ao passar pela baixada fluminense. O COB vai encomendar outra com urgência para um carnavalesco da Beija flor.

2. Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e a bateria da Mangueira farão um show na praia de Copacabana para comemorar a chegada do fogo olímpico ao Rio. Por motivo de segurança, Zeca Pagodinho será impedido de ficar a menos de 500 metros da tocha.

3. Durante o percurso da tocha, os brasileiros vão invadir a rua e correr ao lado dela carregando cartolinas cor de rosa onde se lê "GALVÃO FILMA NÓIS", "100% FAVELA DO RATO MOLHADO".

4. Pelé vai errar o nome do presidente do COI, discursar em um inglês de merda elogiando o povo carioca e, ao final, vai tropeçar no carpete que foi colado 15 minutos antes do início da cerimônia.

5. Claudia Leite e Ivete Sangalo vão cantar o "Hino das Olimpíadas" composto por Latino e MC Medalha. As duas vão duelar durante a música para aparecer mais na TV.

6. O Hino Nacional Brasileiro será entoado a capella por uma arrependida Vanuza, que jura que "não bota uma gota de álcool na boca desde a última copa". A platéia vai errar a letra, em homenagem a ela, chorar como se entendesse o que está cantando, e aplaudir no final como se fosse um gol.

7. Uma brasileira vai ser filmada varias vezes com um top amarelo, um shortinho verde e a bandeira dos jogos pintada na cara. Ela posará para a Playboy sem o top e sem o shortinho e com a bandeira pintada na bunda.

8. Por falta de gás na última hora, já que a cerimônia só foi ensaiada durante a madrugada, a pira não vai funcionar. Zeca Pagodinho será o substituto temporário já que a Brahma é um dos patrocinadores. Em entrevista ao Fantástico ele dirá que não se lembra direito do fato.

9. Setenta e quatro passistas de fio-dental vão iniciar a cerimônia mostrando o legado cultural do Rio ao mundo: a bala perdida, o trafico, o funk, o sequestro-relâmpago e a favela.

10. Durante os jogos de tênis a platéia brasileira vai vaiar os jogadores argentinos obrigando o árbitro a pedir silencio 774 vezes. Como ele pedirá em inglês ninguém vai entender e vão continuar vaiando. Galvão Bueno vai dizer que vaiar é bom, mas vaiar os argentinos é melhor ainda. Oscar concordará e depois pedirá desculpas chorando no programa do Gugu.

11. Um simpático cachorro vira-lata furará o esquema de segurança invadindo o desfile da delegação jamaicana. Será carregado por um dos atletas e permanecerá no gramado do Maracanã durante toda a cerimônia. Será motivo de 200 reportagens, apelidado de Marley, e será adotado por uma modelo emergente que ficará com dó do pobre animalzinho e dirá que ele é gente como a gente.

12. Adriane Galisteu posará para a capa de CARAS ao lado do grande amor da sua vida, um executivo do COB.

13. Os pombos soltos durante a cerimônia serão alvejados por tiros disparados por uma favela próxima e vendidos assados na saída do maracanã por "dois real".

Durante os jogos

1. Caetano Veloso dará entrevista dizendo que o Rio é lindo, a cerimônia de abertura foi linda e que aquele negão da camiseta 74 da seleção americana de basquete é mais lindo ainda.

2. Uma modelo-manequim-piranha-atriz-exBBB vai engravidar de um jogador de hóquei americano. Sua mãe vai dar entrevista na Luciana Gimenez dizendo que sua filha era virgem até ontem, apesar de ter namorado 74 homens nos últimos seis meses, e que o atleta americano a seduziu com falsas promessas de vida nos EUA. Após o nascimento do bebê ela posará nua e terá um programa de fofocas numa rede de TV.

3. No primeiro dia os EUA, a China e o Canadá já somarão 74 medalhas de ouro, 82 de prata e 4 de bronze. Os jornalistas brasileiros vão dizer a cada segundo que o Brasil é esperança de medalha em 200 modalidades e certeza de medalha em outras 64.

4. Faltando 3 dias para o fim dos jogos, o Brasil terá 3 medalhas de bronze e 1 de ouro, esta ganha por atletas desconhecidos no esporte "caiaque em dupla". Eles vão ser idolatrados por 15 minutos (somando todas as emissoras abertas e a cabo) como exemplos de força e determinação. A Hebe vai dizer que eles são "uma gracinha" ao posarem mordendo a medalha, e nunca mais se ouvirá deles.

5. A seleção brasileira de futebol comandada por Ronaldo Fenômeno vai chegar como favorita. Passará fácil pela primeira fase e entrará de salto alto na fase final, perdendo para a seleção de Sumatra.

6. A seleção americana de vôlei visitará uma escola patrocinada pelo Criança Esperança. Três meninos vão ganhar uma bola e um uniforme completo dos jogadores, sendo roubados e deixados pelados no dia seguinte.

7. Os traficantes da Rocinha vão roubar aquele pó branco que os ginastas passam na mão. Um atleta cubano será encontrado morto numa boate do Baixo Leblon depois de cheirá-lo. O COB, a fim de não atrasar as competições de ginástica, vai substituir o tal pó pelo cimento estocado nos fundos do ginásio inacabado.

8. Um atleta brasileiro nunca visto antes terminará em 57º lugar na sua modalidade e roubará a cena ao levantar a camiseta mostrando outra onde se lê: JARDIM MATILDE NA VEIA.

9. Vários atletas brasileiros apontados como promessa de medalha serão eliminados logo no inicio da competição. Suas provas serão reprisadas em 'slow motion' e 400 horas de programas de debate esportivo vão analisar os motivos das suas falhas.

Após os jogos

1. Um boxeador brasileiro negro de 1,85m estrelará um filme pornô para pagar as despesas que teve para estar nos jogos e por não obter patrocínio.

2. Faustão entrevistará os atletas brasileiros que não ganharam medalhas. Não os deixará pronunciar uma palavra sequer, mas dirá que esses caras são exemplos no profissional tanto quanto no pessoal, amigos dos amigos, e outras besteiras.

3. No início do ano seguinte, vários bebês de olhos azuis virão ao mundo e as filas para embarque nos voos para a Itália, Portugal e Alemanha serão intermináveis, com mães "ofendidas", segurando seus rebentos...

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17/02/2012 10:23
VINICIUS DE MORAES<


SONETO DE CARNAVAL

Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranquila ela sabe, e eu sei tranquilo
Que se um fica o outro parte a redimí-lo.

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17/02/2012 10:21
HISTORINHA VERDADEIRA


(Por Anna Maria de Assis Ribeiro)

Quando meu pai foi Secretário de Planejamento do então Estado do Rio de Janeiro, na administração do Governador Raimundo Padilha, manifestou-se contra a indicação de um nome (não me lembro qual) para Secretário de Educação por avaliá-lo como incompetente para assumir a função. O Governador assegurou que se tratava de um cidadão muito obediente e que faria tudo que lhe fosse mandado. Meu Pai respondeu que a pessoa mais obediente que havia conhecido em toda sua história de vida havia sido um contínuo que atendera em seu gabinete quando Secretário de Educação e Cultura do Distrito Federal (que ainda era o Rio de Janeiro). No entanto todas as vezes que o mandava correr ele não o fazia... porque não tinha uma perna e andava de muletas. O problema era estrutural e obediência não poderia superá-lo. Observação: o tal Secretário não foi nomeado.

Moacir Japiassu | comentários(0)



10/02/2012 11:04
GRAMÁTICA DE ERROS


(Por José Augusto Carvalho*)

Perguntaram-me uma vez se existe algum livro que ensine a prever e a normatizar a ocorrência de desvios gramaticais. Por razões alheias à minha vontade, só conheço um único livro a respeito: La Grammaire des Fautes, de Henri Frei, publicado em 1971 pela Slatkine Reprints, de Genebra. Um artigo de Milton Azevedo, intitulado “O papel da análise de erros no ensino de idiomas”, publicado no número 779-80, do Suplemento Literário de Minas Gerais, edição de 5 a 12 de setembro de 1981, trata exclusivamente da regularidade dos erros cometidos por falantes de português na aprendizagem do inglês segunda língua, por força da competência transitória na língua estrangeira.
A base de uma gramática de erros está exatamente na analogia, que ocasiona uma certa regularidade na... irregularidade. Quando diz “eu trusse”, por “eu trouxe”, o falante do português se baseia numa quarta proporcional: “fui” está para “foi”, assim como “trusse” (pronúncia popular estigmatizada da forma “trouxe”, da 1ª pessoa do pretérito perfeito do verbo “trazer”) está para... “trôsse” (pronúncia usual de “trouxe”, 3ª pessoa). Também é por analogia com verbos como “digiro/digere”, usado por Fernando Collor em agosto de 2009, num entrevero agressivo com o senador Pedro Simon, que o povo diz “vivo/veve”, na conjugação do verbo “viver” no presente do indicativo. De fato, são muitos os exemplos em que a vogal alta tônica (i,u) de um verbo, na 1ª pessoa, corresponde, na 3ª pessoa, a uma vogal média fechada (ê,ô) no pretérito perfeito e a uma vogal média aberta (é,ó), no presente do indicativo: tive/teve; estive/esteve; pus/pôs; fui/foi; pude/pôde; fiz/fez; sinto/sente, tusso/tosse; firo/fere; sirvo/serve; sigo/segue; etc.
A hipercorreção também pode ser causa da regularidade de um erro. Hipercorreção é o erro proveniente da tentativa de se atingir a norma culta urbana. Daí o nome “hiperurbanismo” por que também é conhecida a hipercorreção. Por ouvir uma pessoa culta pronunciar –lh– onde ele diz –i–, como “trabalha”, que ele pronuncia “trabaia”, um falante pouco escolarizado, acreditando ser “errado” dizer “teia de aranha” ou “pia de cozinha”, poderá dizer “telha de aranha” ou “pilha de cozinha”, ao tentar falar “bonito”.
O difícil, às vezes, é descobrir a analogia que levou à hipercorreção. Um aluno escreveu, num trabalho, que “o rapase era amigo de infância”. Ele queria dizer “rapaz”. Muitas vezes, a hipercorreção resulta numa forma linguística que não existe nem no dialeto culto, nem no dialeto do falante que comete a hipercorreção. Só por acaso descobri a razão desse “rapase”, que certamente não retratava a pronúncia do aluno nem a de ninguém de sua sala. O aluno pronunciava “quase” como “quais” (“Eu estava quais caindo...”). Como ele escreve “quase”, mas pronuncia “quais”, achou que deveria escrever “rapase”, porque pronunciava “rapais”.
Ao dizer “rúbrica” em lugar de “rubrica” (subst.), o falante se baseia no fato de que muitas vezes a forma nominal se distingue da forma verbal apenas pelo fonema de intensidade (tasema), isto é, pela mudança de posição do acento tônico (o nome “tônico” é impróprio, já que não se trata de tom, mas de intensidade), como em: tráfico/trafico; trânsito/transito; mágoa/magoa; crédito/credito; confidência/confidencia; cálculo/calculo; fábrica/fabrica; comércio/comercio; etc. Ao dizer “magérrimo”, por “macérrimo” (superlativo de “magro”) , o falante também comete uma hipercorreção já abonada pelos dicionários (analogia com negro/nigérrimo). O melhor seria dizer “magríssimo” que, além de correto, é menos “esnobe”.
Outro caso interessante a estudar é o da hipercaracterização, isto é, a caracterização do que já está caracterizado. Em “algodoal” ou em “cafezal”, há apenas uma ocorrência (normal) do sufixo al. Mas, em “milharal”, o sufixo se repete: “milhalal” (com dissimilação da lateral l da primeira ocorrência do sufixo). Em “grandessíssimo”, o sufixo “-íssimo” se repete (como em “satisfeitissíssimo”), como a preposição “com” em “comigo” (do latim “cum me cum”). Também é por hipercaracterização que se diz “irei sair”, por exemplo, em lugar de “vou sair”. Como “vou sair” já é futuro, “irei sair” é futuro de futuro!
Acredito que a construção “implicar em”, um erro de regência do verbo “implicar”, que não se constrói com a preposição “em”, se deva a uma tendência dos falantes a repetir na regência a preposição que lembra ou que constitui o prefixo do verbo, como em: desdizer de, contentar-se com, perguntar por, conversar com, desfazer-se de, contar com, assistir a, concordar com, importar em, comparar com, etc. A regência usual de “assistir” sem a preposição a, com o sentido de presenciar, se deve talvez à contaminação com o verbo ver, que é transitivo direto.
No processo de aprendizagem da língua materna, a criança recorre frequentemente à quarta proporcional, na utilização intuitiva de sua gramática interiorizada: “correr” está para “corri”, assim como “fazer” está para... “fazi”, que é forma que a criança diz, apesar de não ouvi-la nem mesmo de um adulto pouco escolarizado, o que levou os linguistas a excluir a simples imitação como forma de aprendizagem da língua materna.
Acho que temos necessidade de uma boa gramática de erros em português...


(*) José Augusto Carvalho é mestre em linguística pela Unicamp e doutor em letras pela USP.

Moacir Japiassu | comentários(0)



10/02/2012 11:01
ESPETACULAR BARRIGA!!!


EBC SE RETRATA APÓS NOTÍCIA ERRADA DE MORTE EM AÇÃO NO PINHEIRINHO

Empresa do governo federal afirma que não checou informação
DE SÃO PAULO

A EBC (Empresa Brasil de Comunicação), ligada ao governo federal, admitiu na segunda-feira que errou ao afirmar, no dia 23 de janeiro, que houve mortes durante a reintegração de posse da favela do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP).

Executada pela Polícia Militar de São Paulo, a reintegração de posse motivou ataques ao governo de Geraldo Alckmin (PSDB). Dias após a ação, o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, chegou a afirmar que o governo paulista praticou "terrorismo".

De acordo com a EBC, houve um erro de apuração na notícia.

A empresa, que controla a Agência Brasil e a TV Brasil, afirma que a informação foi publicada com base em entrevista do advogado Aristeu César Pinto Neto, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São José dos Campos.

"Não houve a devida checagem da veracidade da informação sobre supostos mortos na operação de reintegração de posse da área conhecida como Pinheirinho", afirma a nota da EBC.

A empresa afirma que a informação não foi exibida na TV Brasil, sendo publicada apenas em um texto da Agência Brasil.

Segundo a EBC, não houve má-fé ou interesse político. "O que ocorreu foi um erro jornalístico diante de uma situação de poucas e controversas informações em uma situação tumultuada."

A notícia foi reproduzida por diversos sites. Ela chegou a ocupar a manchete da homepage do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha. O portal depois publicou correção.

Moacir Japiassu | comentários(0)



03/02/2012 15:46
POEMA DE FLORIANO MARTINS<


UMA NOITE EM TUNJA


A noite estava acesa em nossos corpos e o frio com seu violino convincente

me punha a pedir que pousasses em meu peito o que houvesse de melhor no século

que acabara de nascer em tuas mãos. Em uma noite dessas eu bem poderia

roubar um verso de Jim Morrison: I can't live thru each slow century of her moving.

A leveza de tua pele atiçava em mim um estranho desejo de retornar ao local

do crime, onde o teu olhar aguçava as horas mais inesperadas para me excitar.

– Quantos pecados nós podemos cometer de uma só vez estando aqui?

O chá bem quente desperta as sombras bailarinas a caminho do abajur.

Recordo que os teus lábios improvisavam um abrigo para meus beijos.

Porém tudo passava tão lentamente que sequer parecia haver começado.

E quando a tua boca sussurrou o meu nome foi como se jamais o houvesse escutado.

Aquela noite tinha um truque que encerrava um mistério dentro de outro.

E dentro de cada um deles um outro lentamente se instalava e ali em seu íntimo

nos víamos com tanta nitidez como um improviso de seres dentro da noite.

Então puseste em minhas mãos um colar de sementes que trazias ao pescoço.

Eu sei que não posso acompanhar o século que desatas com teu movimento.

Porém aquela noite foi como uma antecipação de tudo quando um dia eu vivi,

e ainda hoje sinto o mesmo desejo de roubar aquele verso de Jim Morrison.

Moacir Japiassu | comentários(1)

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