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02/07/2009 09:59 NOTA DEZ PARA EDUARDO ALMEIDA REIS NO CORREIO BRAZILIENSE
MÃO SANTA
Nada mais divertido na televisão mundial – insisto: mundial –, do que um discurso do senador Mão Santa (PMDB-PI). Nascido na cidade de Parnaíba, batizado Francisco de Assis Moraes Souza, o ilustrado senador é muito mais engraçado e charmeur do que os melhores comediantes das tevês, misturando Clemenceau, Ruy, Shakespeare e Sarney como quem faz massa de bolo.
Segunda-feira passada, sem que alguém se referisse ao nome da genitora do senador Sarney, Mão Santa comparou dona Kyola Ferreira de Araújo Costa a Maria, mãe de Jesus de Nazaré. Na religião do representante do Piauí há várias Marias, do hebraico Maryam, Miriã ou Miriam: a mãe de Deus, a mãe de Sarney e sua própria genetriz, santa senhora que o botou no mundo em 1942.
Na embalagem, estendeu a santidade a dona Marly de Pádua Macieira Sarney: faz sentido. Sendo Macieira, lembra árvore da família das rosáceas, Malus silvestris, produtora do fruto comido por Eva, mulher de Adão, o primeiro casal criado por Deus segundo a Bíblia e o Alcorão.
Não tenho a honra de conhecer pessoalmente a digna senhora, filha do famoso médico Carlos Macieira, mãe de Roseana, Fernando e Zequinha, primeira-dama que se destacou por sua discrição e honradez quando o marido exerceu a presidência da República. Agora, o Brasil tem o testemunho pessoal de Mão Santa, que sempre passou as férias escolares em São Luiz do Maranhão, cidade próxima da piauiense Parnaíba. Em linha reta são 173 milhas, como acabo de conferir na Enciclopédia Encarta Premium. A mesma distância que separa São Luís de Montes Belos, GO, do Senado Federal.
Pois é: quase todas as informações que o leitor acaba de ler foram obtidas via Google e Encarta Premium, porque sou jejuno em Paraíso e não assisto nem sequer à novela das 6h (ou das 7h?), muito embora conheça bem o Pantanal e tenha vivido o Governo Sarney cheio de orgulho, enquanto cidadão nascido neste país grande e bobo.
Peço ao leitor que não implique com o enquanto em lugar de como, que encontrei num texto do padre Antônio Vieira. O mesmo jesuíta que dizia dos políticos portugueses: “Assim se tiram da Índia quinhentos mil cruzados, da Angola, duzentos, do Brasil, trezentos, e até do pobre Maranhão, mais do que vale todo ele.”
Considerando que Vieira viveu de 1608 a 1697, suas considerações políticas luso-brasileiras são quase tão velhas como a Sé de Braga, edifício que começou a ser construído em 1128 por iniciativa de dom Paio Mendes, foi parcialmente destruído pelo terremoto de 1135 e ainda em 1688, com Vieira vivo, era alterado pelo arcebispo dom Rodrigo de Moura Teles, que modificou toda a fachada ao gosto barroco, mandando executar também o zimbório que ilumina o cruzeiro. Zimbório, como acabo de aprender e repasso ao leitor, é a cobertura ou parte da cobertura de um edifício, de forma geralmente hemisférica.
Portanto, a mania de tirar do pobre Maranhão mais do que vale todo ele remonta aos primórdios da nacionalidade, como deve saber o senador Mão Santa, que por lá passava suas férias.
Nunca esteve em causa a santidade de velhas senhoras maranhenses, mas o Senado como instituição. O Brasil ama a instituição. Se ela sofre com a obesidade mórbida de 10 mil funcionários, que reduza seu estômago para 2 mil patrícios; se anda metida com traficantes, estelionatários e ladrões, que volte ao seio da sociedade honesta para que o brasileiro possa curtir a oratória de Mão Santa, o maior tribuno da história universal do riso.
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02/07/2009 09:57 LIÇÕES QUE ENSINAM A ESCREVER BEM
1. Desnecessário faz-se empregar estilo de escrita demasiadamente
rebuscado, conforme deve ser do conhecimento de V. Sa. Outrossim, tal
prática advém de esmero excessivo que beira o exibicionismo narcisístico.
2. Evite abrev., etc.
3. Anule aliterações altamente abusivas.
4. "não esqueça das maiúsculas", como já dizia carlos machado, meu
professor lá no colégio tristão de atayde, em santa tereza.
5. Evite lugares-comuns como "o diabo foge da cruz".
6. O uso de parênteses (mesmo quando for relevante) é desnecessário.
7. Estrangeirismos estão out, palavras de origem portuguesa estão in.
8. Seja seletivo no emprego de gíria, bicho, mesmo que sejam maneiras. Sacou, galera?
9. Palavras de baixo calão podem transformar seu texto numa merda.
10. Nunca generalize: generalizar sempre é um erro.
11. Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra vai ficar repetitiva.
A repetição vai fazer com que a palavra seja repetida.
12. Não abuse das citações. Como costuma dizer meu pai: "Quem cita os
outros não têm idéias próprias".
13. Frases incompletas podem causar.
14. Nao seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas
diferentes, isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez. Em
outraspalavras, não fique repetindo a mesma idéia.
15. Seja mais ou menos específico.
16. Frases com apenas uma palavra? Corta!
17. A voz passiva deve ser evitada.
18. Use a pontuação corretamente o ponto e a vírgula
especialmente será que ninguém sabe mais usar o sinal de interrogação
19. Quem precisa de perguntas retóricas?
20. Nunca use siglas desconhecidas, conforme recomenda a A.G.O.P.
21. Exagerar é 100 bilhões de vezes pior do que a moderação.
22. Evite mesóclises. Repita comigo: "mesóclises: evitá-las-ei!"
23. Analogias na escrita são tao úteis quanto chifres numa galinha.
24. Não abuse das exclamações! Seu texto fica horrível! Sério!
25. Evite frases exageradamente longas, por dificultarem a
compreensão da idéia contida nelas, e, concomitantemente, por conterem mais
de uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível,
forçando, desta forma, o pobre leitor a separá-la em seus componentes
diversos, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de
contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do
uso de frases mais curtas.
26. Cuidado com a orthographia, para nao estrupar a língua.
27. Seja incisivo e coerente. Ou talvez seja melhor não...
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02/07/2009 09:55 POEMA DE NEI DUCLÓS
FUZIL
Semeias passos como sórdidos cereais
pela casa desde sempre abandonada
Em volta do quintal ronda o impasse
que o tempo tece entre brilho e breu
Tocas teu rosto e o gesto escasso
rompe teu despertar da morbidez
Talvez haja ainda fogo...mas o horror
te abate em surdo baque de fuzil
Estás na retaguarda. Quem engatilhou
a lágrima antes do soldado?
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25/06/2009 10:02 COMENTÁRIO DE ROLDÃO SOBRE O "NOVO" CORREIO BRAZILIENSE
Como assinante há mais de quinze anos, vi, ao longo desse período, algumas mudanças na diagramação do jornal. Essa última foi pouco feliz. Não se deve esquecer a velha máxima: não se mexe em time que está ganhando.
Vamos objetivamente apontar e comentar os pontos que merecem mais atenção, na minha opinião de leitor viciado em jornal.
1. O novo caderno de esportes está melhor em conteúdo. Agora é páreo para o Torcida do rival Jornal de Brasília. Mas não se entende o formato berliner para o tablóide, pois não cabe como encarte dos demais cadernos do Correio. Ficou maior do que o jornal dobrado ao meio!
2. Por que removeram as fotos dos colunistas? Em que isso melhorou o jornal? Piorou. Antes, o leitor via, em fotografia, o autor da coluna. Reconhecia quem estava escrevendo. De certo modo, 'dialogava' com ele. Agora as colunas ficaram despersonalizadas. Só o nome é pouco. Por exemplo, quem seria 'Dad Squarisi'? Um pseudônimo? Uma sigla? É homem ou mulher?
3. Nome do repórter na chamada da primeira página (edição da 2ª feira). Que coisa estranha! Basta identificá-lo no início da própria matéria, na página onde está publicada.
4. Uma das piores modificações foi a da tipologia escolhida, principalmente para os títulos das matérias. Abuso de negrito.
Tamanho da fonte muito grande. Dois tamanhos num mesmo título: "Era uma vez o bode que movia o real..." ; "Êxitos e fracassos na cidade mais pobre" (p. 14 e 15 da edição de domingo)
Diferentes tamanhos de fonte na mesma página (p.18 do domingo) e, pior, dentro da mesma seção (Sr. Redator).
Página 19 - "Pé no freio" em caixa baixa e "O EIXO DO CAOS" em caixa alta. Os dois em negrito, sem serifa. O uso de tipologia sem serifa torna a leitura mais pesada.
O tamanho exagerado da fonte dá a impressão de que o título está sendo “gritado” para o leitor.
5. Uso de impressão colorida, com um azul apagado, nos títulos e chamadas; isso torna as letras esmaecidas, de leitura muito, muito mais difícil.
Letras azuis sobre fundo azul então piora ainda mais (p. 29 - domingo). As cores só deveriam ser usadas nas fotos e nas ilustrações. Fora disso, com muita parcimônia, critério rígido e avaliação de sua boa legibilidade.
6. Falta o nº do telefone no cabeçalho da seção "grita geral".
7. A importante editoria Mundo foi deslocada mais para dentro do primeiro caderno. A última página era um local mais nobre, agora ocupada por matérias que não são propriamente notícias e sim informações sem datação.
8. Os rodapés "Deu no Correio" limitam a informação, da mesma maneira com que foram divulgadas pela TV e rádio. Remeter o leitor do jornal impresso para ler na internet é outra limitação. Supõe que todos os leitores estão plugados, a qualquer instante no computador, o que não é a realidade. Se for para ler o jornal no computador, não precisa mais imprimi-lo para vender em banca ou para entregar em domicílio para os assinantes.
9. Está havendo um delírio nas ilustrações. Isso deve acalmar com o tempo, é claro. Mas a primeira página do caderno “Diversão & Arte” do domingo ultrapassou os limites.
10. ROTEIRO -- Por que destacar as 5 (ou seria cinco?) melhores superproduções em cartaz, na opinião dos leitores? E os outros filmes em cartaz, os de melhor qualidade artística? Não precisam ser divulgados de igual maneira?
Os títulos dos filmes impressos em letras coloridas, esmaecidas. Horrível para achar e ler. O tipo da letra do tijolinho é também ruim para ler, letra magra e alta, emboladinha.
11. "O que eles pensam" - o nome do 'cara', TOM ZÉ, está muito longe, lá no outro canto da página. Título impresso na vertical. Um horror para se ler.
Ah! Que saudades do meu ´velho' jornal, um bom companheiro que lá se foi!
Roldão Simas Filho
Brasília, 22 de junho de 2009
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25/06/2009 10:01 POEMA DE TALIS ANDRADE
DA SOLIDÃO DOS CAMINHOS
Sina de cangaceiro
é cavalgar sozinho
pelos caminhos do sol
veredas de espinhos
Não há moça donzela
que se satisfaça
em viver montada
na garupa de um cavalo
mesmo que seja
reluzente montaria
sela de couro macia
arreios de ouro e prata
trote de passarinho
Mulher o diabo tenta
Na noite negra
sonha uma cousa
ao raiar do dia
não lhe contenta
Mulher é feito gato
não gosta de gente
só gosta da casa
não é passarinho
que solta as asas
para longe do ninho
Sina de cangaceiro
é cavalgar cavalgar
pela noite pelo dia
sem riqueza
sem companhia
Dinheiro o vento leva
Mulher o homem deixa
no redemoinho
das encruzilhadas
na cruel incerteza
das três direções
na espera de um prodígio
a deusa dos três rostos
conduza os passos
Sina de gangaceiro
é cavalgar sozinho
pelos caminhos do sol
veredas de espinhos
dormir com o frio e a lua
na solidão dos caminhos
( IN SERTÕES DE DENTRO E DE FORA)
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18/06/2009 13:16 NOTA DEZ PARA SÉRGIO AUGUSTO NO ESTADÃO
O QUE ACONTECEU DEPOIS DO ÚLTIMO CAPÍTULO
No início da semana, os advogados do escritor J.D. Salinger entraram com uma ação contra John David California, acusando-o de infringir os direitos autorais de The Catcher in the Rye (O Apanhador no Campo de Centeio). Há coisa de um mês, J. D. California lançou seu primeiro romance, 60 Years Later Coming Through the Rye, uma continuação não muito velada do célebre livro de Salinger, imaginando o que teria acontecido ao seu adolescente herói, Holden Caulfield, se ele tivesse logrado chegar à terceira idade.
Dar asas à imaginação a partir de clássicos da literatura ou de meros best sellers, especulando sobre o destino de seus protagonistas depois do último capítulo, do ponto final, é passatempo antigo, que ameaçou virar moda no mercado editorial no começo da década passada. Scarlett, continuação (em inglês, sequel) de E o Vento Levou, escrita por Alexandra Ripley, vendeu 2 milhões de exemplares em 1991. Em seu rastro vieram, nos meses seguintes, Mister Grey (com as aventuras posteriores de Huckleberry Finn); H: The Story of Heathcliff’s Journey Back to Wuthering Hights (sobre a volta de Heathcliff ao Morro dos Ventos Uivantes); Lara’s Child (sobre a vida do filho que Lara Antipova teve com o doutor Iuri Jivago). Em 1993, a onda das sequels chegou ao fim.
Ela ainda estava em alta quando a revista Harper’s atraiu meia dúzia de escritores para o desafio de desenvolver um pequeno relato prospectivo com personagens de alguns marcos da ficção. A dramaturga Wendy Wasserstein escreveu Franny at Fifty (ou seja, Franny Glass, a salingeriana heroína de Franny & Zooey, aos 50 anos); Jane Smiley foi de Kafka (Gregor: My Life as a Bug, diário de Gregorio Samsa enquanto inseto); Jay Parini fantasiou sobre o triste fim do fitzgeraldiano Jay Gatsby (The Late Gatsby); e Paul West levou adiante, em Tadzio’s Farewell, os devaneios de Gustave von Aschenbach, o escritor gay de Morte em Veneza, de Thomas Mann.
No mesmo período, quatro parodistas da revista de humor National Lampoon—Henry Beard, Christopher Cerf, Sarah Durkee e Sean Kelly—criaram a Sociedade Americana da Continuação (The American Sequel Society) e publicaram um livro, The Book of Sequels, inteiramente dedicado à arte de levar adiante o passado congelado em romances e filmes. Na capa, o casal de E o Vento Levou, Rhett Butler e Scarlett O’Hara. Só que, em vez de “Francamente, querida, estou pouco me lixando”, Rhett diz para Scarlett: “Pensando bem, eu me importo com você, sim!” (ou que melhor tradução vocês tenham para “On second thought, I do give a damn!”).
Entre as melhores sacadas, o épico de Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, que virou Solidão: Os Cem Anos Sequintes (ao longo dos quais, Macondo é arrasada por um furacão e anexada ao Panamá); a alegoria de George Orwell, A Revolução dos Bichos, com legumes no lugar dos cães e porcos, daí o título: Vegetal Farm; o livro de cabeceira das misses brasileiras, O Pequeno Príncipe, com o príncipe avançado nos anos, além de gordo e careca; o controvertido A Princesa, versão feminina de O Príncipe, de Maquiavel; Assim Pilheriou Zaratustra; Moby Dick 2: O Resgate do Pequod!; e o Gênese da Bíblia, cujo subtítulo é um achado: E no oitavo dia, Deus acordou.
A brincadeira, de certo modo borgesiana, diga-se, só tem graça se se conhece, ainda que de orelhada, a obra original.
Sábado passado, quase ao final da BookExpo America, a convenção anual das editoras americanas, uma prodigiosa impressora de livros por encomenda, chamada Espresso Book Machine, desovou, em poucos minutos, pilhas e mais pilhas de um volume encadernado de 134 páginas, intitulado Book: The Sequel. Chegava ao fim, com lombada e tudo, a gincana literária iniciada, dois dias antes, pela editora Perseus, que, através de seu site, estimulara os internautas a bolarem continuações para livros de sua escolha. Únicas exigências: um título inédito e uma frase de abertura original.
Baratas que acordam de manhã transformadas em seres humanos (mais precisamente em “homens neuróticos, banais e ambiciosos do Leste Europeu”)—assim começaria, pelo gosto de um internauta, a continuação de A Metamorfose, de Franz Kafka, que ganhou o título de Metamorfose 2: Desta Vez é Pessoal. “A gente nem pode mais tirar uma soneca?” seria a frase de abertura de No Sétimo Dia, a continuação do Gênese. A de O Capital 2, de Karl Marx? “Como vocês devem ter notado, eu estava certo”. E a de “Mein Wahnsinn” (Minha Loucura), desdobramento de Mein Kampf (Minha Luta), de Adolf Hitler: “Eu devia estar doido”.
Moby Dick (de Herman Melville) e Memórias do Subterrâneo (de Dostoievski) mereceram o maior número de sequels. Mais próxima do original, Moby Dunk abre com esta confissão: “Eu ainda me chamo Ishmael”. Na outra continuação, Moby Dick 2, Ishmael, o narrador, se estende por quase duas dezenas de palavras: “Me chame de Tolo, mas eu não podia imaginar que fossem proibir a pesca de baleias nem que eu acabaria como garoto-propaganda do Partido Republicano”. Uma das continuações de Memórias do Subterrâneo também é concisa: “Esqueçam o resto. Era só o fígado mesmo”. A outra também é boa: “Não sou, afinal de contas, um homem doente e nada há de errado com o meu fígado; sofro mesmo é de depressão, que meu médico controla à base de medicamentos”.
Se nem de referência você conhece o conteúdo de Anna Karenina (Leon Tolstoi), O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde), Esperando Godot (Samuel Beckett), Madame Bovary (Gustave Flaubert), Os Sete Pilares da Sabedoria (de T.E. Lawrence), Rebeca (Daphne du Maurier), Animal Farm (aqui, A Revolução dos Bichos) e To Kill a Mockingbird (O Sol é Para Todos, de Harper Lee), melhor pular o próximo parágrafo. Se conhece todos eles, divirta-se:
“Todas as fast foods se parecem entre si; as refeições normais são saudáveis cada uma à sua maneira” (Anna McKarenina)
“Toda arte é inútil, pensei enquanto retocava outra vez as rugas do meu rosto e ao redor dos meus olhos”. (O Photoshopping de Dorian Gray).
“Vladimir: ‘Ei-lo, finalmente! Já era tempo, né?’” (Encontrando Godot)
“’Isto é bem mais excitante que escrever cartas’, pensou Emma, enquanto lia os documento secretos do amante, que encontrara na carruagem.” (Madame Bovary:Espiã)
“Sempre achei uma chatice andar de motocicleta com capacete”. (Os Oito Pilares da Sabedoria)
“Ontem à noite, tomei um Stilnox e dormi à beça, sem sonhar com Manderley.” (Depois do Incêndio)
“Todos os animais são iguais, exceto aqueles com gripe suína.” (Mexican Animal Farm)
“Misture numa coqueteleira 3 partes de tequila, uma de suco de toranja, e uma de licor Triple Sec.” (Tequila Mockingbird)
Para suprir a ausência da literatura brasileira em Book: The Sequel, aventurei-me a imaginar como poderiam começar as continuações de Dom Casmurro, Grande Sertão: Veredas e Vidas Secas. Confiram e avaliem:
“Jamais hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim. Afinal, meu fim é do conhecimento de todos, mas o princípio de minha vida póstuma, não. Logo depois que expirei, Bentinho encontrou finalmente uma mulher sem olhos de ressaca ou de cigana oblíqua e dissimulada, até porque era cega. Seu nome, Helen Keller.” (Memórias Póstumas de Capitu, de Machado de Assis)
“Abrenúncio! Tiros que o senhor ouviu foram das armas do coronel Carlos Vereza e seus filhos, compadre meu Quelemém. Esses gerais, tudim deles. De medo morro dos Verezas. Mas não me assente o senhor por poltrão.” (Grande Sertão: Verezas, de Guimarães Rosa)
“Na larga avenida os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Fazia semanas que Fabiano, sinhá Vitória e os dois meninos vagavam pela cidade grande, atrás de pouso e comida.” (Cimento Armado, de Graciliano Ramos)
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18/06/2009 13:15 SONETO DO REPÓRTER LUÍS DE CAMÕES
Busque Amor novas artes, novo engenho
para matar-me e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como e dói não sei por quê
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17/06/2009 10:17 NOTA DEZ PARA AUGUSTO NUNES EM ‘DIRETO AO PONTO’
JOBIM DAS SELVAS RESSURGE NO PAPEL DE ESPECIALISTA EM DESASTRES AÉREOS
Com uma farda de guerreiro da floresta no lugar do terno cinza-Brasília, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, invadiu Manaus no fim de 2007. Se tivesse um punhado de anos e algumas arrobas a menos, provavelmente teria aparecido fantasiado de Tarzan. Como o calendário e a balança o aconselharam a contentar-se com a imitação de Johnny Weissmuller já no crepúsculo da carreira, infiltrou duas letras no prenome do herói de cinema, transformou-se em Jobim das Selvas, proclamou que “a Amazônia tem dono”, colocou em fuga uma tropa de saguis, reduziu uma sucuri de quartel a prisioneira de guerra, declarou-se vitorioso e voltou a Brasília. Mais um que não perde chance de ser ridículo, sorriu o país atormentado pelo apagão aéreo a caminho do 1° aniversário.
Oito meses antes, no discurso de posse, o combativo gaúcho decolou no quinto parágrafo com a excitação de um piloto de caça na metade da pista do porta-aviões. Até então, tratara de justificar a fama de doutor muito sabido com a evocação de episódios protagonizados por nomes de rodovias, ruas, praças e avenidas. A aula foi encerrada com a frase atribuída a Benjamin Disraeli, duas vezes primeiro-ministro do império britânico no fim do século 19. “Never complain, never explain, never apologise”, caprichou. Caridoso com os muitos monoglotas presentes, cuidou de traduzir: “Nunca se queixe, nunca se explique, nunca se desculpe”.
Então, já no papel de brigadeiro encarregado de livrar do colapso a aviação civil, arremeteu espetacularmente: “Aja ou saia, faça ou vá embora”. Formulada pela figura com mais de 100 quilos esparramados por quase 2 metros, a ameaça soou como um ultimato tremendo, quem tivesse culpa no cartório que se cuidasse, começaria naquele momento a contra-ofensiva reclamada pelo país desde outubro de 2006. Andorinhas voaram de costas, urubus ficaram brancos de medo, flagelados dos aeroportos correram para os portões de embarque, nuvens fugiram do céu ─ até ficar claro que Jobim não prestara atenção no próprio berreiro. Não agiu nem saiu. Não fez mas ficou. Só foi para a Amazônia brincar de encantador de sucuris.
Seis meses depois dos combates na mata, cada vez mais aflito com os sucessivos fiascos na guerra contra o apagão, foi embora de novo, agora para a França. No verão europeu de 2008, escoltado pelo ordenança Roberto Mangabeira Unger, ministro de problemas futuros, Jobim baixou em Paris fantasiado de almirante, submergiu num submarino, voltou à terra firme para deslocar-se até Moscou, fez cara de freguês exigente ao passar em revista a frota de submarinos russos, disse aos anfitriões ansiosos que precisava pensar melhor no negócio e retornou ao Brasil.
Sempre condescendentes, os compatriotas incluíram Jobim na categoria dos inimputáveis, ao lado dos loucos mansos, dos doidos de pedra e dos napoleões de hospício. Livre de vigilância, enfim resolveu agir e fazer. Negociou a venda de 300 mísseis ao Paquistão, divorciado desde a infância da vizinha Índia e em permanente noivado com terroristas, reiterou que o Brasil não assinaria o tratado que proíbe a fabricação de bombas de fragmentação e desapareceu nas coxias. Voltou repentinamente ao palco a bordo do acidente com a avião da Air France, desta vez no papel de especialista em desastres aéreos.
“A FAB detectou no mar uma faixa de cinco quilômetros com destroços de um avião. Não há dúvidas: são destroços do avião da Air France”, decretou durante uma espantosa entrevista coletiva. ”O que estamos fazendo aqui é a localização de sobreviventes, ou melhor, de restos”, começou a procissão de atentados à inteligência, ao bom-senso e à compaixão. ”Além dos corpos afundarem, a costa de Pernambuco tem o problema que vocês sabem”, jogou a isca. Um jornalista mordeu: era alguma referência a tubarões? “Sim”, respondeu Jobim, para produzir em seguida uma inverossímil dissertação sobre ruptura de abdomes. Há dois anos, Jobim sabia apenas que as poltronas dos aviões deveriam ser bem mais largas. ”Um homem com o meu tamanho não cabe nelas”, queixou-se. Já aprendeu um pouco mais, comprovou a entrevista. Mas não aprendeu a ter juízo.
Nem precisa aprender. No Brasil imerso na Era da Mediocridade, sensatez virou coisa de tempos remotos. Tanto assim que um Nelson Jobim foi deputado federal, chefiou o Supremo Tribunal Federal, hoje é ministro da Defesa e continua sonhando, por que não?, com a presidência da República.
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