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14/08/2008 10:01 NOTA DEZ PARA DEONÍSIO DA SILVA NA REVISTA “LÍNGUA PORTUGUESA” O JARDINEIRO DAS PALAVRAS
Escritores, na imaginação popular, sonham em viver numa espécie de clausura ideal: ler, pensar, criar, escrever em silêncio, em plácida solidão, longe dos ruídos mundanos, se possível poupados dos aflitivos sufocos de dinheiro, das chateações burocráticas e sobretudo das armadilhas da notoriedade - as entrevistas fúteis, os artigos de natureza político-ideológica, os blogs invasivos.
Alguns até conseguem chegar perto desse objetivo, outros há que preferem se expor. É o caso do catarinense Deonísio da Silva, escritor de livros premiados, doutor em Letras pela USP e desde 2003 professor da Universidade Estácio de Sá, no Rio, da qual é vice-reitor de Cultura e coordenador do curso de Letras.
Desde 1975, autor de sete romances, dez livros de contos, quatro infanto-juvenis e dez de ensaios literários, contemplado em 1992 com o Prêmio Internacional Casa de las Américas, juri presidido por José Saramago, com o livro Avante Soldados: para trás (dez edições vendidas, publicado no exterior), ele concilia a vida de escritor com a docência universitária e ativa colaboração na imprensa.
E bota ativa nisso. O escritor, que já cumpriu pena durante a ditadura militar por escrever um texto de ficção num jornal, é eclético: mantém uma coluna sobre etimologia popular na revista Caras enquanto opina com uma contundência incomum, num tom indignado mas temperado por humor, beirando a gozação impiedosa, em sua coluna semanal no site Observatório da Imprensa. Nesta entrevista, Deonísio da Silva ironiza a condição do idioma na literatura e na política, as relações entre o texto da literatura e da universidade com o do jornalismo. E diz que, com a precariedade do ensino do idioma no país, a mídia ganhou um papel forte na expansão da qualidade da escrita no país.
Língua Portuguesa - Um escritor precisa mesmo ter preocupação com o uso que faz do idioma ou pensar nisso é o de menos?
Deonísio da Silva - Acho uma irresponsabilidade o escritor desconhecer sua ferramenta de trabalho. Desde a alfabetização, o que sempre me fascinou não foi a botânica, mas a jardinagem das palavras. Estudo por gosto, por prazer, pela alegria do convívio intelectual com meus pares, infelizmente cada vez mais raros. Em todos os níveis escolares, tive bons professores, mas sempre aprendi melhor sozinho, na relação bunda-cadeira-hora. Nas estantes estão aqueles amigos que jamais te traem, não te vendem por 30 dinheiros.
Como avalia as colunas especializadas em língua portuguesa, na mídia?
Elas refletem o descalabro: tentam dar o que a escola surrupia. É claro que jamais vão conseguir. Esses colunistas são useiros e vezeiros em prescrever, aconselhar, recomendar e às vezes determinar que se escreva desse ou daquele modo. É uma coisa autoritária porque eles não têm autoridade, não são procuradores de ninguém para fazer o que fazem. Chutatis chutandis, estão para os professores de português como os curandeiros para os médicos. Podem até não fazer mal, e às vezes fazem até bem, mas não curam. Antes, apenas se escrevia mal, pois o brasileiro é senhor de uma habilidade verbal impressionante. Mas, agora, a devastação do bom gosto chegou à fala. É preciso observar, entretanto, que há nichos de alta qualidade na mídia, textos escritos por profissionais em cuja competência podemos, afinal, confiar. São boas referências para o ato de escrever e o ato de ler, que são as duas grandes lacunas do brasileiro alfabetizado.
Quando fala em devastação do bom gosto, você pensa, em particular, nas esferas do poder, também?
De fato, senadores, deputados federais, deputados estaduais e vereadores nos envergonham. Freqüentemente aludem ao "erário público", por exemplo. Ocorre que todo erário é público. Faz sentido, porque eles vêem no dinheiro público um "erário privado". No Executivo, os cargos de confiança, ao dispensarem os concursos, deram licença para matar a língua portuguesa a tecladas, a telefonadas, a internetadas. Enfim, as porradas alcançam a língua pelo celular, pelo computador, por ofícios, por requerimentos, por meio de mensagens etc. Como dizia o escritor Marcos Rey, pode-se entrar numa briga de foice no escuro, mas é preciso saber antes duas coisas: onde ficam a porta e o interruptor.
Faltou falar no Judiciário, não? Lá, o idioma às vezes é ininteligível...
O que mais vemos ali é pura exibição de saber, como se dessem o seguinte aviso à plebe ignara: "Nós escrevemos assim, não somos da laia de vocês". E surgem, assim, expressões como "alcândor conselho", que já li numa petição. Quem escreve assim apenas disfarça a própria ignorância sobre o idioma, pois o significado original de "alcândor", que nos veio do árabe, é "poleiro de ave de rapina". Houve até o caso de um juiz que mandou recolher um bandido ao "ergástulo público". E o despacho foi devolvido porque não havia "ergástulo" no município. Havia uma cadeia, mas ninguém sabia que a palavra "cadeia" era sinônimo de "ergástulo".
Mas não seria nas escolas e também nas universidades onde a língua é mais maltratada ainda?
Sem dúvida, aí estão as pérolas do vestibular, os hieróglifos das dissertações e teses, enfim há muitas evidências do rebaixamento do ensino. A mídia, porém, por tudo espelhar, espelha também a boa qualidade de alguns textos. A mídia consegue impulsionar gente que escreve muito bem, o que cria um padrão para as pessoas que lêem. A imprensa também forma. Não só informa.
Como um escritor, que precisa ter seus livros resenhados, encara os resenhistas e críticos?
A literatura brasileira foi banida da imprensa. Sei que onde estiverem bons profissionais, os livros serão tratados como devem ser, sejam favoráveis ou adversas as críticas. Mas revistas como a Veja oferecem casos desse apagamento real dos livros na mídia.
Há má vontade da mídia com a literatura brasileira?
Acredito que há incompetência. As evidências mostram que no Brasil há muitos incompetentes em postos importantes, vítimas e cúmplices do que lhes acontece. Na mídia, eles se acotovelam e enterram jornais e revistas, patinando nas mesmas tiragens, enquanto nós fazemos a nossa parte, isto é, produzindo novos livros e leitores. Somos o maior mercado editorial da América do Sul. Foram os livros que nos tornaram leitores e depois assinantes de revistas, não o contrário. Eles esqueceram isso? Quando o jornal e a revista são bons, os leitores podem até migrar para a internet, para a edição eletrônica, mas sempre vão procurar o que precisam. E a imprensa precisa dar o que o leitor precisa; ou não precisa, mas quer.
Como você, que transita no meio universitário e no jornalístico, vê jornalistas acusarem os acadêmicos de pomposidade, enquanto estes qualificam de superficiais os textos jornalísticos?
Por norma, na imprensa se escreve melhor do que na universidade. Por quê? Porque pior do que o analfabeto humilde é o analfabeto arrogante. O primeiro tem cura, o segundo morre daquilo! O problema é que, em todas as profissões, a dieta de leitura é paupérrima. Médicos, professores, jornalistas, engenheiros, juízes, economistas, quase todos lêem muito pouco. O Brasil é o segundo mercado editorial das Américas porque, como no caso da renda, está tudo concentrado, tudo dominado.
Precisamos de um MST para os sem-livros! Outro dia, li que (o porta-voz do MST) João Pedro Stédile "comemorava" o massacre dos sem-terra, ocorrido em Eldorado de Carajás. Achei que o jornalista estava sacaneando o Stédile. Não estava e, pior, no texto que o próprio jornalista escrevia, ele também "comemorava"...
Como foi ser preso por causa de um texto?
Foi no meu primeiro texto, publicado num pequeno jornal. Era um texto de ficção. Fui condenado a dois anos de prisão, cumpridos sob sursis, isto é, em liberdade vigiada, condicional, incurso na Lei de Segurança Nacional e Lei de Imprensa. Perdi a cátedra de língua portuguesa no Colégio Mário de Andrade, no Paraná, onde ensinava. Quando o MEC premiou meu livro de estréia, Exposição de Motivos, em 1977, como melhor livro de contos do ano anterior, eu estava cumprindo pena. Como dizia Tom Jobim, o Brasil não é para principiantes.
Você pediu indenização como vítima da ditadura?
Eu não estava investindo num pecúlio, eu lutava por idéias que ainda não foram implantadas e para mim não será surpresa se as perseguições recomeçarem. Respeito esses intelectuais que aí estão pedindo anistia, ressarcimentos e pensões, mas, como gosto da conversa clara, acho isso uma pouca-vergonha. Que pelo menos não sejam traídos os mortos, pois o preço dessas compensações me cheira a 30 dinheiros! Jamais pedirei ou aceitarei qualquer pagamento em dinheiro pelo que me fizeram. Posso valer pouco, mas, para me comprar, eles jamais terão o suficiente! Não vendo minha alma ao diabo!
Moacir Japiassu | comentários(0)
14/08/2008 09:57 POEMA DE CELSO JAPIASSU
POEMA Nº 2 DA SÉRIE INÉDITA "A TARDE E UM NOVO DIA"
O poema nascia como um sopro
em direção à chama de uma vela.
O sopro a extinguia
e a chama uma vez mais
reacendia.
Existe algo distante nas palavras,
nas metáforas da infância,
nas imagens perseguindo um canto
e nas transformações de um dia
alucinando o sol antes da aurora.
Memória e palavra se completam
uma na outra, perseguindo sons,
dissecando as cores e o traçado
de rotas em que nos perdemos,
para sempre, na busca de um retorno.
Que tal redesenhar imagens,
o formato dos rios, as marés
de um tempo ausente e acalentado?
Um tempo de espectros e chuva,
inundação sem ritmo das almas.
Moacir Japiassu | comentários(1)
07/08/2008 11:31 NOTA DEZ PARA JOSÉ ROBERTO GUZZO NA "VEJA" FALANDO DIFÍCIL
"A escritora Doris Lessing diz que,
quando se corrompe a linguagem, logo
se corrompe o pensamento"
Quando começam a ser ouvidas quase todo dia palavras que ninguém ouvia antes, é bom prestar atenção – estão criando confusão na língua portuguesa e raramente isso resulta em alguma coisa boa. No mundo dos três poderes e da política em geral, por exemplo, fala-se cada vez mais um idioma que tem cada vez menos semelhança com a linguagem de utilização corrente pelo público. As preferências, aí, variam de acordo com quem está falando. A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, colocou no mapa a palavra "escandalização", à qual acrescentou um "do nada", para descrever o noticiário sobre o dossiê (ou banco de dados, como ela prefere) feito na Casa Civil com informações incômodas para o governo anterior. Mais recentemente, o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, contribuiu com o seu "espetacularização"; foi a palavra, vinda de uma língua desconhecida, que selecionou para manifestar seu desagrado quanto à colocação de algemas no banqueiro Daniel Dantas, durante as operações da Polícia Federal que lhe valeram o desconforto de algumas horas na prisão. "Obstaculização", "fulanização" ou "desconstitucionalização" são outras das preferidas do momento – sendo certo que existe, por algum motivo, uma atração especial por palavras que acabam em "zação".
O ministro Tarso Genro, da Justiça, parece ser o praticante mais entusiasmado desse tipo de linguagem entre as autoridades do governo. Poucas coisas, hoje em dia, são tão difíceis quanto pegar o ministro Genro falando naquilo que antigamente se chamava "português claro". Ele já falou em "referência fundante", "foco territorial etário", "escuta social orgânica articulada", entre outras coisas igualmente alarmantes; na semana passada, a propósito da influência do crime organizado nas eleições municipais do Rio de Janeiro, observou que "a insegurança já transgrediu para a questão eleitoral". É curioso, uma vez que, como alto dirigente do Partido dos Trabalhadores, deveria se expressar com palavras que a média dos trabalhadores brasileiros conseguisse entender. Que trabalhador, por exemplo, saberia o que quer dizer "referência fundante"? Mas também o PT, e não só o ministro Genro, gosta de falar enrolado. Seus líderes vivem se referindo a "políticas", que em geral são "estruturantes"; dizem que isso ou aquilo é "pontual", e assim por diante. "Políticas", no entendimento comum da população, são mulheres que se dedicam à política; a senadora Ideli Salvatti ou a ex-prefeita Marta Suplicy, por exemplo, são políticas. "Pontual", da mesma forma, é o cidadão que chega na hora certa aos seus compromissos. Fazer o quê? As pessoas acham que esse palavreado as torna mais inteligentes, ou mais profissionais. Conseguem, apenas, tornar-se confusas, ou simplesmente bobas.
As coisas até que não estariam de todo mal se só os habitantes do mundo oficial falassem nesse patoá. Mas a história envolve muito mais gente boa, e muito mais do que apenas falar complicado – o que ela mostra, na verdade, é que o português está sendo tratado a pedradas no Brasil. O problema começa com a leitura. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, vive se orgulhando de não ler livros – algo que considera, além de chato, como um certificado de garantia de suas origens populares. Lula ficaria surpreso se soubesse quanta gente na elite brasileira também não lê livro nenhum – ou então lê pouco, lê livros ruins ou não entende o que lê. Muitos brasileiros ricos, como empresários, altos executivos e profissionais de sucesso, têm, sabidamente, problemas sérios na hora de escrever uma frase com mais de vinte palavras. Escrevem errado, escrevem mal ou não dá para entender o que escrevem – ou, mais simplesmente, não escrevem nada. No mesmo caminho vão professores, do primário à universidade, artistas, profissionais liberais, cientistas, escritores, jornalistas – que já foram definidos, por sinal, como indivíduos que desinformam, deseducam e ofendem o vernáculo.
O mau uso do português resulta em diversos problemas de ordem prática, o primeiro dos quais é entender o que se diz e o que se escreve. Não é raro, por exemplo, advogados assinarem petições nas quais não conseguem explicar direito o que, afinal, seus clientes estão querendo – ou juízes darem sentenças em português tão ruim que não se sabe ao certo o que decidiram. Há leis, decretos, portarias e outros documentos públicos incompreensíveis à primeira leitura, ou mesmo à segunda, à terceira e a quantas mais vierem. Não se sabe, muitas vezes, que linguagem foi utilizada na redação de um contrato. Os balanços das sociedades anônimas, publicados uma vez por ano, permanecem impenetráveis.
Há mais, nisso tudo, do que dificuldades de compreensão. A escritora Doris Lessing, prêmio Nobel de Literatura de 2007, diz que, quando se corrompe a linguagem, se corrompe, logo em seguida, o pensamento. É o risco que se corre com o português praticado atualmente no Brasil de terno, gravata e diploma universitário.
Moacir Japiassu | comentários(0)
07/08/2008 11:29 UMA TRAGÉDIA SEM MANCHETE
ROBERTO MUGGIATI NA FOLHA DE S. PAULO
O caso dos ex-funcionários da Bloch Editores leva a indagar, quase num brado de desespero: podemos ainda contar com a Justiça?
"ACONTECEU , virou Manchete" foi, por muitas décadas, o lema da maior revista do Brasil. Quando Bloch Editores pediu a falência em 1º/8/2000, desaparecia não só uma grande empresa jornalística mas a sua nau capitânia, que, em 48 anos de presença semanal nas bancas, marcou época e foi um reflexo do país em seus aspectos mais saudáveis e criativos.
Darcy Ribeiro, em "Aos Trancos e Barrancos", resumiu admiravelmente o surgimento da revista em 1952: "Adolpho Bloch lança "Manchete", que deslumbra o público. Na verdade, queria é desbancar o "Cruzeiro" com um jornalismo fotográfico colorido, moderno, dinâmico e ousado. Desbanca". Na verdade, "Manchete" foi o fruto do casamento perfeito do empresário com o jornalista, da melhor tecnologia de impressão a serviço da inteligência dos mais talentosos redatores e fotógrafos do país.
A tragédia de Bloch Editores começou às 20h de 5/6/1983, um domingo, quando foi ao ar a Rede Manchete de Televisão. A partir daquele momento, travestido de ilusória redenção, as revistas foram relegadas a segundo plano pelo falso brilho da mídia eletrônica. Treze domingos depois, um câncer fulminante matava Justino Martins, o grande editor da "Manchete" -uma morte simbólica como poucas.
A empresa familiar, tão arraigada ao ramo gráfico -Adolpho dizia que lhe corria tinta nas veias-, não se deu bem com o ramo televisivo. A grande ironia foi que a derrocada financeira da editora se deu por ter sido avalista da TV numa pequena dívida com o Banco Econômico (depois encampado pelo Banco Central). Essa dívida irrisória, que não chegava a US$ 10 mil, acabaria virando uma bola de neve de muitos e muitos milhões.
Em setembro de 1998, pela primeira vez, o salário dos funcionários da Bloch atrasou. E nunca mais foi pago.
À espera de soluções salvadoras -a TV foi vendida durante um mês para a Igreja Renascer, num negócio que não vingou-, muitos funcionários ficaram na empresa, pagos com "vales" semanais que, nos melhores casos, não chegavam a um terço dos salários.
Jogados literalmente na rua quando o imponente prédio da rua do Russell foi lacrado pela Justiça, aguardam há oito anos os salários não pagos e outros direitos que lhes são devidos.
A reação inicial foi de impotência. O patrimônio da Bloch era suficiente para pagar as dívidas trabalhistas, mas havia o terror das massas falidas longevas deste país. Lembro-me bem do comentário cruel de um representante da Justiça no corredor do fórum a um grupo de ex-funcionários da Bloch: "A massa falida de vocês é uma criança. Massa falida boa, no Brasil, só quando chega a balzaquiana..."
Recobrando o ânimo, as vítimas do naufrágio da Bloch formaram uma comissão de ex-funcionários e passaram a atuar junto ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro. O trabalho incansável da comissão alcançou algumas vitórias: 1) pressionou a massa falida de Bloch Editores, levando-a a agir com mais força na defesa dos interesses dos ex-funcionários; 2) conseguiu o apoio da juíza responsável pelo processo, Maria da Penha Nobre Mauro Victorino, e do promotor Luiz Roldão de Freitas Gomes Filho; 3) com isso, ocorreu algo inédito na Justiça trabalhista do Rio: os ex-funcionários habilitados na massa falida receberam duas parcelas de R$ 5.000 dos seus débitos trabalhistas. Pela primeira vez, esses deserdados começavam a acreditar que o processo chegaria sem muita demora a um bom termo.
Uma terceira parcela, de R$ 3.000, começou a ser paga, mas só poucos receberam. O pagamento foi suspenso pela 3ª Câmara Cível, que acatou embargo da União reivindicando a prioridade da Receita nos débitos da ex-Bloch. (O triste nessa história é que o Imposto de Renda foi recolhido dos empregados, mas não foi repassado pela empresa à Receita.) Uma das justificativas do embargo é que, pela nova Lei de Falência, de 2005, os direitos trabalhistas não seriam mais soberanos. Mas a falência da Bloch é de 2000, o que assegura a prioridade total aos créditos trabalhistas.
A decisão da 3ª Câmara Cível gerou nova onda de intranqüilidade. Como escreveu Pedro Porfírio em sua coluna na "Tribuna da Imprensa" de 28/7, "(...) pilares elementares de suas normas foram pelos ares, ante a leitura de um desembargador que desfez decisão de primeira instância e desconheceu a primazia do credor trabalhista, em benefício da dívida tributária, embora lidasse com coisa julgada".
O desassossego voltou a castigar as 2.000 famílias dos ex-funcionários da Bloch -ao todo, 6.000 pessoas que integram há anos a massa dos excluídos deste país, convivendo (até quando?) com a doença, a indigência e, em muitos casos, sem exagero, a fome.
É o caso de indagar, uma vez mais, quase num brado de desespero: podemos ainda contar com a Justiça neste país?
ROBERTO MUGGIATI é jornalista profissional há 54 anos, 33 dos quais passados em Bloch Editores. Foi editor-chefe da revista "Manchete" durante 22 anos.
Moacir Japiassu | comentários(0)
07/08/2008 11:26 POEMA DE ÁLVARO ALVES DE FARIA Poema número 5
Sempre que me vejo ao final das tardes
saltam-me da boca aves feridas
como se fosse assim me conduzir ausente
entre aldeias longínquas
por dentro de igrejas
em pequenas ruas de pedra.
Assalta-me o que de mim foi esquecido
como se assim me fosse possível
encontrar o que de mim
está definitivamente perdido.
De “A memória do pai”. Coimbra, Portugal, 2006
Moacir Japiassu | comentários(0)
31/07/2008 14:30 NOTA DEZ PARA SÉRGIO AUGUSTO NO ESTADÃO AS CANÇÕES QUE AMENIZARAM AS DORES DE UMA GUERRA
Foi assim: música & lágrimas; cartas & baladas; tanques & big bands; bazucas & Betty Grable; granadas & boogie woogie; jipes & Coca-Cola; Pablum & bônus de guerra; Spitfires & Capitão América; RAF & Repórter Esso; Your Hit Parade & Cassino da Urca.
Bem-vindos à 2ª Guerra Mundial! Aos lenços lacrimejados pelos dramas de “Desde que Partiste”, “A Ponte de Waterloo”, “Ver-te-ei Outra Vez” e “Mulheres de Ninguém”. Aos G.I.s e pracinhas que se foram e voltaram—e aos que não voltaram. Ao som de Glenn Miller, Bing Crosby, Frank Sinatra, Dinah Shore, The Andrew Sisters, Alice Faye, Dick Haymes, Jean Sablon, Dorothy Lamour, Gino Bechi, The Ink Spots, Helen Forrest (ao fundo, o trompete de Harry James).
Quem mais? De “Adolfito Mata-Mouros” (sátira carnavalesca de João de Barro) ninguém mais se lembra. Nem de “The Führer Git the Jitters” (zombaria jazzística de Cab Calloway). Para todo sempre, a trilha musical dos quatro ou cinco primeiros anos da década de 1940 ficou marcada por “Lili Marlene” e “I’ll Walk Alone”, “I’ll Be Seeing You” e “Sleepy Lagoon”, “La Mer” e “White Christmas”, “Amapola” e “Rum and Coca-Cola”, “Solamente Una Vez” e “Frenesi”, “Besame Mucho” e “O Vôo do Besouro”.
Falta aí o principal: as duas vozes mais distintas ou representativas da gloriosa campanha contra o Eixo. Uma delas, a londrina Vera Lynn, “a namoradinha das Forças Armadas” (britânicas), continua viva, com 91 anos. A outra, a maior de todas, a californiana Jo Stafford, morreu na quarta-feira da semana passada, aos 90. Nossos jornais dormiram no ponto. Aqueles a quem os deuses querem destruir, primeiro dotam de amnésia cultural.
Vera Lynn foi um fenômeno em sua época, a Jo Stafford do outro lado do Atlântico. De crooner da banda de Bert Ambrose, a mais aristocrátrica do Reino Unido, projetou-se como estrela de rádio nos anos 30. De seu programa enviava mensagens de conforto moral às tropas estacionadas por todo o império britânico, visitando-as e entretendo-as em suas turnês pelo Egito, Índia e Birmânia. Em 1940, gravou uma canção de Ross Parker-Hughie Charles, “We’ll Meet Again”, que se transformaria numa espécie de emblema musical dos soldados ingleses, numa réplica involuntária a “Lili Marlene”. Também consagrou outro tema nostálgico de provocar lágrimas de esguicho nos soldados da rainha, “The White Cliffs of Dover”, que, no entanto, nunca foi páreo para “We’ll Meet Again” e suas promessas de eterna fidelidade: “Nós nos encontraremos de novo/não sei onde, nem quando/mas tenho certeza de que nos reencontraremos um dia”. Um dia, além do mais, ensolarado.
Mesmo para quem não vivenciou, de perto ou longe, a guerra, é uma canção emocionante, interpretada com majestosa simplicidade. Clique seu título no YouTube, ouça Vera Lynn, e entenda porque Len Deighton a citou num romance, vários roqueiros a veneram (Pink Floyd compôs “Vera”, no álbum “The Wall”, em sua homenagem), Stanley Kubrick fechou com ela a explosiva e irônica cena final de “Doutor Fantástico”, e Carlos Heitor Cony se arrepia ao ouvi-la.
Não apelidaram Jo Stafford de “G.I. Jo” para apenas fazer um trocadilho com a expressão G.I. Joe, alcunha dos “pracinhas” norte-americanos derivado do ferro galvanizado (galvanized iron) com que seus utensílios eram, e creio que ainda sejam, fabricados. Nenhum cantor popular tocou mais fundo o coração dos soldados que Franklin Delano Roosevelt enviou para combater na Europa e no Pacífico depois do bombardeio de Pearl Harbor. Foi um caso de devoção instantânea. Com duas ou três gravações, Jo pareceu-lhes a encarnação vocal de todas as garotas que haviam deixado na América, esperando as novidades do front, remoendo-se de saudade e aflição.
Voz pura, cálida, delicada, quase sem vibrato, entonação perfeita, graves e agudos imaculados, cantava como uma mulher madura que parecia entender o que é necessário entender. A química emocional que suas interpretações produziram nos ouvidos de quem foi para os campos de batalha e para quem ficou na América permanece incomparável. Poucas vozes cantaram com igual intimidade as dores da solidão e da distância. Hospitais das forças armadas dos EUA na Europa acalentavam seus pacientes com os últimos sucessos de Jo. No afã de ouvir até o fim o programa de rádio da cantora, transmitido em ondas curtas para a frente de guerra, dois pilotos da força aérea norte-americana quase foram pousar atrás das linhas inimigas.
“É fácil entender porque milhares de soldados iam dormir todas as noites convictos de que estavam lutando por um mundo melhor, acima de tudo, para Jo Stafford”, comentou o crítico de jazz Gary Giddins. Outro, cujo nome não me ocorre, comparou o prazer de ouvi-la à degustação de uma musse de chocolate. Também confere.
Admirada, sem restrições, por seus colegas de profissão (ouvi-la, na opinião de Sinatra, “era êxtase garantido”; Mel Tormé a considerava “a cantora mais afinada do planeta”), Jo aposentou-se, há uns 30 anos, com um dossiê crítico irretocável. Jamais ouvi ou li qualquer restrição ao seu trabalho. Will Friedwall qualificou-a de “a Mona Lisa da música popular”, dada a impossibilidade de medir seu appeal pelos parâmetros disponíveis nos anos 40. “Ela é simplesmente um paradoxo”, escreveu Friedwald, “a um só tempo íntima e distante, claramente emocional e absolutamente controlada”.
Há de tudo—de canções românticas, seu forte, a baladas folk—em seu robusto repertório de cerca de 800 títulos. Pena que, dos quase 100 singles por ela alçados ao Hit Parade, o campeão de vendagem tenha sido uma satírica versão caipira de “Temptation”, que ela gravou, com o pseudônimo de Cinderella G. Stump, acompanhada de Red Ingle e seus Natural Seven, em 1947. Há quem aprecie, gente séria, inclusive.
Jo tinha um lado cômico diametralmente oposto ao seu repertório romântico. Ali pelo final dos anos 50, ela e o segundo (e definitivo) marido, o maestro e arranjador Paul Weston, inventaram uma dupla fictícia, Jonathan e Darlene Edwards: ele, pianista aloprado, que parecia tocar com duas mãos direitas; ela, um abuso de sustenidos mal colocados. Pura gozação paródica, que ao casal rendeu uma penca de LPs, um dos quais, “Jonathan e Darlene Edwards in Paris”, rendeu a Jo, em 1961, o único Grammy de sua carreira. Mas não foi por suas paródias que a revista Down Beat a elegeu “a melhor cantora do ano”, em 1943 e 1945.
A Jo que minha memória conserva é, sobretudo, a de “You Belong to Me” e, por motivos extramusicais, “Jambalaya” (muito executada nos alto-falantes do Maracanã, no início dos anos 50). Se só tivesse gravado “You Belong to Me”, já estaria imortalizada.
O disco, que chegou às lojas em agosto de 1952, também foi um “sucesso de guerra”, a da Coréia (1950-1953). Vendeu 2 milhões de cópias e ficou 12 semanas no topo do Hit Parade. Só dois outros discos venderam mais na primeira metade dos anos 50. Composição da dupla Pee Wee King-Chilton Price, já tivera duas intérpretes, Sue Thompson e Patti Page, quando Jo imortalizou-a com uma interpretação definitiva. Comprovem ouvindo os 55 demais intérpretes que a canção acumulou nas seis últimas décadas. Crosby, Judy Garland, Paul Anka, até Bob Dylan, Jerry Lee Lewis, e a atual Primeira-Dama da França se arriscaram a concorrer com maravilhosa Jo. Será preciso acrescentar que todos perderam?
“Não importa onde você esteja, em que lugares exóticos se encontre, você é só meu.” Em essência é isso o que diz a letra de Chilton Price: “See the pyramids along the Nile/Watch the sun rise on a tropic isle/Just remember, darling, all the while/You belong to me”. Irresistível. E o que dizer do sutil tremolo das marimbas pontuando cada verso da abertura? Na gravação de Jo, claro.
A melhor introdução ao culto a Jo Stafford é o CD “G.I. Jo”, produzido pela Corinthian Records, gravadora particular da cantora e Weston. Sua coletânea de sucessos na Capitol, com 26 faixas, é outro must. Para ouvir “You Belong to Me”, procure outros CDs ou visite o YouTube. “G.I. Jo” só cobre os hits da 2ª Guerra, com arranjos primorosos de Weston, que conheceu a cantora quando ela ainda integrava o octeto vocal The Pied Pipers, peça de apoio da orquestra de Tommy Dorsey, cujo crooner, durante algum tempo, foi um rapaz magrinho vindo da banda de Harry James, chamado Frank Sinatra. A guerra se aproximava, mas a música era (e continuou sendo) de primeira na América.
“G.I. Jo” é a quintessência do jeito Stafford de arrebatar militares e civis. Ao todo, 10 canções, do período 1938-1944, que falam da solidão compensada pela certeza de que nada pode separar duas pessoas que se amam (“I’ll Walk Alone”, para muitos, a mais completa tradução dos sofrimentos impostos pela guerra), da solidariedade em torno dos G.I.s (“I Left My Heart at the Stage Door Canteen”), de promessas de amor eterno (“No Love, No Nothin’”, “We Mustn’t Say Goodbye”, “You’ll Never Know”), de lembranças inesquecíveis (“I’ll Remember April”), das possibilidades de um casamento para toda a vida (“It Could Happen to You”), de saudades e fidelidades inquebrantáveis (“I Don’t Want to Walk Without You”), de paixões inesperadas (“I Fall in Love Too Easily”), e de madeleines amorosas condensadas em pequenos cafés, carrosséis, árvores e noites enluaradas (“I’ll Be Seeing You”).
E agora, todos ao YouTube, para ver as pirâmides ao longo do Nilo e o sol caindo atrás de uma ilha tropical—e nunca esquecer que Jo Stafford foi a cantora mais afetuosa da América, na paz e na guerra.
Moacir Japiassu | comentários(0)
31/07/2008 14:28 POEMA DE TALIS ANDRADE CONATO
Apressa o passo
a velhice não tem cura
Apressa o passo
antes que o último padre
venha rezar a última missa
antes que tua mãe morra
levando tua identidade
para a sepultura
Apressa o passo
não há como voltar
as águas de um rio
É preciso escapar
das amarraduras
apagar os rastros
arrumar as malas
Não há porquê
ficar plantado
na beira de um rio
(in Os Herdeiros da Rosa)
Moacir Japiassu | comentários(0)
24/07/2008 10:29 NOTA DEZ PARA MARIA LUCIA DAHL NO JORNAL DO BRASIL
POLITICAMENTE CORRETO
Estava no cabeleireiro, onde uma televisão ligada passava um desses programas cômicos insuportáveis, quando de repente apareceu um anão fazendo uma gracinha qualquer. Comentei com m eu neto:
– Olha o anãozinho...
Uma senhora que tambem assistia ao programa ao meu lado replicou:
– Não se diz mais anão. Não é politicamente correto.
– Ah, não? – perguntei eu, espantada. – E como se diz agora?
– Pessoa verticalmente prejudicada.
Não posso acreditar no que está acontecendo no mundo. Anão não é mais anão! Quer dizer que agora deve-se dizer: Branca de Neve e os sete verticalmente prejudicados? Gente! Ainda bem que horizontalmente não são, né?
Está difícil contar histórias pra crianças hoje em dia... Soube que cortaram até o pó de pirlimpimpim dos livros infantis de Monteiro Lobato. Está ficando difícil... Cortaram o cigarro, a bebida e agora o pó... de pirlimpimpim, claro, porque o outro anda solto por aí...
– A coisa tá preta! - desabafei.
Então a mesma senhora me chamou de racista . Fiquei pensando como não dar mais nenhuma gafe. E então comentei:
– É... A coisa tá afro...
Será que o poeta Jorge de Lima deveria ter escrito "Essa afro Fulô" em vez de "nêga Fulô"? Coitado...
– Coitado? Perguntou a senhora. Que horror chamar alguém de coitado, pessoa que nasce de de uma "coita d´amor". Que não foi desejado, entende?
– Entendo... Que nasceu de uma transa inesperada, digamos, sem camisinha. Ou com o perdão da má palavra, em vez de coitado poderia se dizer "fodido"?
Tambem não se pode mais chamar carinhosamente as pessoas de neguinha, negão. Tem que ser: afrinho, afrão?
Um amigo de Santa Catarina me contou que comeu uma torta "nega maluca". Será que ele, em vez disso, deveria ter pedido uma torta "afro-descendente com problemas mentais?"
Uma garota estava preocupada em como descrever seu vestido preto com o qual iria a festa. "Um vestido afro-descendente? Será?"
Então o cabeleireiro disse que ia ver um preto velho maravilhoso que dizia coisas incríveis para as pessoas e então eu corrigi:
– Você vai ver um afro-descendente entrado em anos...
Então continuei olhando a televisão – já que em se tratando deste sinistro aparelho, é impossível não lhe prestar atenção – e vi uns menores criminosos que teriam assaltado um banco. E a senhora me disse que eles eram "menores em conflito com a lei". Depois apareceu uma prostituta da Daspu, e eu comentei a matéria do telejornal, achando interessante as prostitutas terem feito a sua marca. Mas a senhora me disse que não se diz mais prostituta e sim profissional do sexo. Teriam de mudar o nome da grife de Daspu para Daspro?
Então, uma assistente do cabeleireiro disse que agora a chamavam de " homoafetiva" o que ela sabia muito bem que queria dizer: "sapatão desgraçado!"! E a senhora comentou entredentes para não reparar no que ela estava dizendo, porque tinha nascido numa comunidade, sem instrução...
Favela... Outra palavra que caiu em desgraça... Cristóvão de Alencar deveria cantar: "Minha comunidade querida, onde vivi minha vida... Comunidade que trago no meu coração..." Que coisa, hein?
Agora o jornal da TV fala de afro-descendentes e indo-europeus sendo expulsos da Espanha. Expulsos mas com muita classe. Ninguém fala negão nem mulato, só os jogam aos tubarões. Tudo muito educadamente.
E já que não estou entendendo mais nada que é moderno, perguntei a essa senhora tão culta, como seria o politicamente correto pra assassinos? Polícia? E pra ladrões? Políticos?
E murmurei sem que ela me ouvisse: "Que saco!" mas logo corrigi pra "Que genitália masculina!" o que seria menos incorreto...
[ 21/07/2008 ] 02:01
Moacir Japiassu | comentários(0)
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